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Cinema

García Bernal hesita entre a violência e sentimentalismo

Filme 'Chicuarotes' revela que diretor talvez tenha na suavidade o seu caminho

Chicuarotes

  • Quando Estreia na quinta (5)
  • Elenco Benny Emmanuel, Gabriel Carbajal
  • Produção México, 2019
  • Direção Gael García Bernal

Para ilustrar o modo mexicano de ser, Buñuel conta a história de Emilio Fernández. O cineasta mexicano vivia com um revólver na cinta. Certa vez um jornalista foi entrevistá-lo no set e deve ter feito uma pergunta inconveniente ou algo assim. Fernández saiu correndo atrás dele com a arma na mão.

Talvez nós, brasileiros, sejamos até mais violentos do que os mexicanos, mas sua representação da violência é mais crua, pesada. No Brasil, é como se o crime acontecesse por acaso. No México, é um ritual. Não é muito diferente a ideia que nos transmite Gael García Bernal em “Chicuarotes”.

A primeira imagem do filme é a melhor. Há um palhaço sentado no fundo de um ônibus semivazio. Logo ele e um colega começam um pequeno show de piadas. Passam o boné. Não ganham nada. Em vista disso, um deles, Cagalera, puxa uma arma e começa a exigir dinheiro dos passageiros. Resultado: 70 pesos.

Tudo o que vem a seguir tem um quê de doentio. O único sonho: sair do lugarejo corrompido pela mediocridade (mais do que pela pobreza). Segue-se outro crime, em busca do mesmo objetivo, o sequestro de uma criança.

García Bernal hesita entre a violência descontrolada, o desatino determinado pelo primitivismo e certo sentimentalismo. Três elementos tradicionais do cinema mexicano.

Triunfa de certo modo a ideia de uma violência voltada para a morte, cujo culto resulta num linchamento. Estamos longe da estética do “bom gosto” conformista, da violência prêt-à-porter tarantiniana.

São todos elementos provocantes, mas é preciso admitir que García Bernal talvez tenha na suavidade o seu caminho. Daí a narrativa, depois da sequência inicial, não ultrapassar a barreira da convenção na maior parte do filme.

Ele desvia disso todas as vezes em que há um personagem mascarado, momentos em que podemos entrever algo do cinema mexicano tradicional. Um filme de busca que não esteja desconectado da tradição. Uma busca: algo sempre digno de admiração numa era de filmes sem alma. Não é o caso de dizer isso para reprovar, mas para prevenir.

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