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É Coisa Fina

Ler Salinger é como deitar numa cama quente e descobrir que ela está cheia de pregos

Editora Todavia relança o livro de contos 'Nove Histórias' do autor de 'O Apanhador no Campo de Centeio'

Tati Bernardi

Nove histórias

  • Preço R$ 54,90 (208 págs.)
  • Autor J. D. Salinger
  • Editora Todavia
  • Tradução Caetano W. Galindo

Para quem ainda não sabe, a editora Todavia abraçou a causa “precisamos de mais J. D. Salinger neste mundo obscuro” e está relançando as principais obras do autor, com tradução do sempre excelente Caetano W. Galindo.

Primeiro, para nos dar alguma alegria em 2019, publicou “O Apanhador no Campo de Centeio” e, agora, o celebrado livro de contos “Nove Histórias”.

Escrever sobre um dos maiores cânones da literatura americana faz suar frio diante da tela do computador. Tanto já foi mitificado, explorado e grafado que somente uma tola insistiria, apesar de declarada devoção ao escritor, em resenhar qualquer novidade.

A primeira impressão que vem à mente ao tentar captar a genialidade deste livro (e tecer ingênuos comentários perante a sua grandeza) é sobre a capacidade infinita de Salinger para criar personagens complexos, inesperados e tridimensionais.

Os malucos são também sensatos e ponderados. As crianças são igualmente maduras e geniais. Os riquinhos ensimesmados e fúteis podem se apresentar como seres angustiados e generosos. Peruas a desmerecer empregados, a se entediar com filhos são tão incompletas quanto qualquer mulher em qualquer situação ou século.

Os deprimidos, curiosos, ciumentos e obsessivos acabam por se mostrar extraordinariamente normais. A família Glass é tão doente quanto cada um de nós (mas talvez não sejamos milionários e nem intelectualmente bem-dotados).

Mas espere. Antes é preciso falar sobre a tensão, sobre certo talento para construir narrativas de suspense. Quando você acha que o garoto que tem um amigo imaginário pode, na verdade, estar vendo espíritos ou quando você acha que o provável pedófilo pode afogar uma criança ou quando você acha que aquele sanduíche da casa da amiga bem-nascida que não pagava o táxi está envenenado… Não vou dar spoiler aqui.

O livro, contudo, te dá tantos nós e rasteiras, mas muitos afagos e aconchegos. Ler Salinger é como deitar numa cama quentinha quando estamos bem cansados do mundo e descobrir que ela está cheia de pregos.

Se bem que… talvez o autor seja ainda melhor como dialoguista. São falas neuróticas, repetitivas e logo depois evasivas e insuportavelmente entrecortadas. Quando você pensa estar por dentro dos acontecimentos e conhecer a fundo aquela alma, mais nomes e mais informações chegam para lhe dar a certeza da impossibilidade de enquadrar qualquer uma das histórias numa moldura de compreensão simples.

Não, Salinger é, na verdade, um grande dramaturgo, porque consegue narrar com maestria cada movimento dos protagonistas e você passa a assistir àquela cena tão colada a ela que pode sentir o cheiro do cigarro. Eu cheguei a abrir a janela do meu escritório de tão forte que estava a fumaça no conto do amigo do cara ciumento e no da esposa do marido recém-saído do hospício.

Salinger fez mais do que criar histórias brilhantes sobre os Estados Unidos do pós-guerra (o livro foi lançado em 1953): seus contos funcionam isoladamente e também como um complexo romance sobre os membros da família Glass. Muitos dos personagens reaparecem nos livros “Franny e Zooey” (1961) e “Pra Cima com a Viga, Carpinteiros” (1963), que a Todavia deve relançar em breve.

Acho que a dificuldade de defini-lo é o que de melhor se pode dizer sobre o autor. Essa característica se reflete em cada um dos personagens e, sobretudo, em cada um dos contos.

Será que tanto adulto conversando com crianças sabidas é porque na infância de Salinger ninguém lhe dava a devida atenção? Será que Seymour quer dizer “see more” (veja mais)? Boias e bananas falam de penetração? Alguém me abraça e me ajuda?


Veja trechos dos contos:

"Um dia Perfeita para Peixes-Banana"
“Ah, você quer saber depois deles comerem tanta banana que não conseguem mais sair do buraco de bananas?” “[…] Eles morrem.”

"O Tio Novelo em Connecticut"
“Eles querem achar que você passou a vida toda vomitando toda vez que um rapaz chegava perto de você.”

"Logo Antes da Guerra com os Esquimós"
“Ginnie abertamente considerava Selena o maior entojo da turma da srta. Basehoar- numa escola descaradamente cheia de entojos de dimensões significativas.”

"O Gargalhada"
“’Eu estou muito atrasada?’, ela perguntou ao Cacique, sorrindo para ele. Daria na mesma se ela tivesse perguntado se era feia.”

"Lá no Bote"
“Você não é almirante. Você é mulher”, Lionel disse. As frases dele normalmente tinham ao menos um lapso de controle de respiração, de modo que muitas vezes as palavras que ele enfatizava, em vez de subir, afundavam. Boo Boo não somente ouvia sua voz, parecia observá-la.

"Para Esmé - Com Amor e Sordidez"
“Não precisa ser muito prolífico! Desde que não seja infantil e tolo.” Ela refletiu. “Eu prefiro histórias de sordidez.”

"Linda a Boca, e Verdes Meus Olhos"
“Cérebro! Você está de brincadeira? Ela não tem cérebro, cacete! Ela é um animal!”

"O Período Azul de Daumier-Smith"
“À exceção de circunstâncias bem raras, em situação de crise, quando eu estava com dezenove anos, meu senso de humor tinha invariavelmente a distinção de ser a primeiríssima parte da minha mente que entrava em parcial ou completa paralisia.”

"Teddy"
“Teddy refletiu antes de responder. ‘Se tenho, eu não lembro de ter usado’, ele disse. ‘Eu não vejo utilidade nas emoções.’”

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