Descrição de chapéu

Ópera mistura filosofia, música e neutrino em montagem rica

'Ritos de Perpassagem' vem em meio a um momento raro de estreias de obras grandiosas da música brasileira

Sidney Molina

Ritos de Perpassagem

  • Quando dom. (29) às 17h
  • Onde Theatro São Pedro, Rua Barra Funda 161
  • Preço R$30 a R$80
  • Classificação 12 anos
  • Autor Flo Menezes.
  • Direção Ricardo Bologna (direção musical) e Marcelo Gama (direção cênica)

A música contemporânea brasileira vive um raro período de estreia de obras grandiosas.

Recentemente a Osesp apresentou “Ó”, de Felipe Lara, sobre texto de Nuno Ramos; no próximo dia 11/10, “Olga”, ópera de Jorge Antunes que conta a história da revolucionária Olga Benário, entra em cartaz na Polônia, com elenco internacional cantando em português; finalmente, o Theatro São Pedro exibiu até este domingo (29) “Ritos de Perpassagem”, primeira ópera do compositor paulistano Flo Menezes.

Menezes tem 57 anos e é conhecido por sua militante atuação na música eletroacústica e pela interlocução direta com nomes fundamentais da vanguarda musical do século 20. 

O título remete a “Ritos de Passagem” (1909), livro do antropólogo Arnold van Gennep, mas o tema que de fato “perpassa” a ópera é o pitagorismo, doutrina que mistura filosofia, matemática, música e religião e é atribuída a Pitágoras de Samos (século 5º a.C.). Como ele não deixou nada escrito, tudo tem muito de especulativo e fantasioso. Para além, o compositor adiciona associações com o neutrino, partícula subatômica descoberta no século passado.

Se as explicações com teor cientificista oferecidas pelo compositor em textos e entrevistas antes da estreia poderiam gerar um certo ceticismo crítico, a fruição concreta da ópera mostra-se muito mais rica e complexa.

A música de “Ritos” é artesanalmente bem acabada, e a montagem conta com um invejável nível performático, que tem Ricardo Bologna (direção musical), Marcelo Gama (diretor cênico), o barítono Marcelo Ferreira (narrador), a participação dos cantores do grupo vocal Neue Vocalsolisten de Stuttgart, Alemanha, e o próprio Menezes na eletrônica.

A primeira cena sonora acontece antes do teatro abrir as portas, com o público aglomerado no saguão junto dos músicos, que saem gradualmente de seus naipes homogêneos para “fecundar sonoramente” agrupamentos diversos. No final da ópera haverá uma inversão, com a orquestra deixando o teatro pela porta lateral em pequenos grupos heterogêneos, buscando a unidade na diversidade.

O som que representa a partícula neutrino é uma emissão eletrônica aguda, incômoda, que acompanha boa parte do espetáculo —inclusive o intervalo, em que a cena não cessa. Assim como os alto-falantes que difundem os sons eletrônicos, cantores e instrumentistas circundam constantemente o público.

Uma das mais preciosas cenas consiste na escuta acusmática (puramente auditiva, sem músicos nem cena) de “Harmonia das Esferas”, obra eletrônica do próprio compositor concebida originalmente como parte de “Pulsares” (2000), e que já mostrava sua obsessão com as proporções pitagórico-platônicas.

Criado a partir de citações múltiplas e prolixas em diversas línguas, o texto soa às vezes um tanto professoral, ganhando frequentemente o sentido de “palavras de ordem”, com definições e sentenças —filosóficas, estéticas, políticas —proferidas didaticamente.

Isso é agravado pelo conflito com as legendas: como já há muito texto falado, e também muitas frases condutoras projetadas no cenário, a presença homogênea das legendas diminui sobremaneira o impacto das variações das formas de escrita-fala-canto. 

Se o uso das vozes pode remeter a obras de Berio, o cerne poético do compositor se aproxima das óperas do ciclo “Licht”, de Stockhausen: tal como o compositor de Colônia, Menezes é um prestidigitador.

Admirador do craque palmeirense Ademir da Guia, Flo faz troça das próprias idiossincrasias e esconde o senso de humor sob complexas camadas de números, letras e códigos.
 

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