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Mostra de SP vai exibir 'Parasita', eleito um dos melhores filmes do ano

Longa do sul-coreano Bong Joon-ho foi o grande vencedor do último Festival de Cannes

Cena do filme 'Parasita', de Bong Joon-ho
Cena do filme 'Parasita', de Bong Joon-ho - Divulgação
Cannes (França)

Na sequência inicial do filme sul-coreano “Parasita”, os quatro membros da família Kim rastejam à procura de wi-fi. Rodam pelos poucos cômodos da casa onde vivem ​num pardieiro minúsculo, abaixo do nível do asfalto e sujeito a enchentes e à urina dos bêbados da rua— e se dão conta de que não terão mais como surrupiar o sinal de internet dos vizinhos.

A trupe semimiserável encontra saída para seus perrengues financeiros por meio de um novo trambique. Ki-woo, o primogênito, descola um bico dando aulas particulares para a filha dos Park, um casal de ricaços. O rapaz vê nisso a chance de infiltrar os seus outros três parentes na casa daquela outra família, que é uma imagem distorcida da sua —igualmente cínica, mas com dinheiro de sobra.

Foi com esse jogo de espelhos que o cineasta Bong Joon-ho faturou a Palma de Ouro, principal prêmio do Festival de Cannes. “Parasita” desembarca no Brasil como um dos destaques da Mostra de Cinema de São Paulo, que começa no mês que vem, enquanto pipoca em listas de melhores filmes do ano, exaltado 
por sua aguda crítica social.

 
“Não me considero pessimista, mas é assustador saber que a desigualdade social é algo que só vai piorar e que meus filhos viverão num mundo pior do que o de hoje”, disse o diretor ao repórter em Cannes, em maio. Ele calcula até quanto tempo um personagem como Ki-woo levaria para poder comprar uma casa como a da família Park. “Seriam 547 anos.”

No enredo, os quatro integrantes da família Kim conseguem se infiltrar no casarão dos Park, sem que os donos percebam que eles são todos parentes. A irmã de Ki-woo passa a dar aula de artes para o caçula deles, o pai vira o motorista, e a mãe assume o papel de governanta daquela ensolarada mansão de paredes de vidro e concreto aparente, tão diferente da espelunca onde eles moram.

Bong Joon-ho realça as discrepâncias entre os dois mundos em planos que reforçam a verticalidade. Se a casa dos Kim é subterrânea, a dos Park se estende por vários andares.

“Há algo aí que qualquer pessoa pode entender, mas que é típico da Coreia. As pessoas mais pobres são levadas a viver em casas abaixo do chão, em que o sol mal bate”, diz o diretor. Tanto é assim que ele faz questão de  mostrar o banheiro dos Kim, com a privada elevada e quase batendo no teto, uma forma de fazer com que haja pressão na descarga. “No meu país chamam aquilo ali de altar do excremento.”

A crítica social não é estranha ao trabalho de Bong, ainda que ele seja um cineasta mais conhecido pela forma exuberante do que pelo conteúdo severo de seus filmes.

Talvez mais preciso seja dizer que ele usa as convenções do chamado cinema de gênero —como as do filme de monstro, em “O Hospedeiro”, ou do thriller, em “Mother”— para canalizar temas de relevância política. Mesmo o fofo “Okja”, sua obra mais comercial, era um petardo contra a indústria da carne.

“Claro que há filmes sisudos com fortes mensagens sociais, e eu os respeito. Mas eu não consigo criar assim, sem usar ou distorcer as convenções do gênero. O que eu gosto é quando o público vai para casa depois de assistir a um filme e só então a mensagem começa a brotar, como uma mancha que espalha no seu corpo e você passa a senti-la.”

Em “Parasita” isso não é diferente. À primeira vista, o filme parece mais uma comédia de humor negro centrada nas discrepâncias sociais entre os dois núcleos familiares. Lá pelas tantas, Bong faz jorrar sangue como numa violenta obra de terror. O saldo depois que a trama termina, contudo, é amargo como o de um drama pesadíssimo.

Embora carregado dessa voltagem social, o filme de Bong nunca derrapa no maniqueísmo ou na condescendência ao abordar o abismo que separa os personagens. 

Os Park são desancados em seus tiques de “nouveaux riches”, como no hábito da matriarca de distribuir frases em inglês a rodo, mas nunca são tratados como vilões gananciosos. Já os Kim são perversos, mas o filme justifica o embrutecimento deles pela circunstâncias em que vivem. “Estão todos numa zona cinzenta.”

Bong Joon-ho reconhece que o frisson em torno de “Parasita” pode lhe render convites a filmar fora de seu país, embora não guarde boas lembranças de “O Expresso do Amanhã”, sua primeira incursão hollywoodiana, produzida pelo hoje arruinado Harvey Weinstein.

“Não nos demos bem de cara”, diz o diretor. “Ele queria ter o corte final, algo que sempre valorizei. E sempre encarou que a distribuição limitada que o filme teve foi culpa de eu não ter aberto mão de dar a palavra final. Onde ele estará agora? Está preso, né?”

Weinstein, a quem se interessar, foi preso e agora aguarda em liberdade o julgamento por abuso sexual, mas usa uma tornozeleira eletrônica.

Evento vai reforçar a presença brasileira em sua programação 

Em meio à maior crise dos últimos 25 anos no audiovisual, a Mostra de São Paulo vai reforçar, ao menos simbolicamente, a presença nacional na sua programação. 

A abertura será com “Wasp Network”, filme dirigido pelo francês Olivier Assayas, que tem produção da paulista RT Features. A obra é inspirada no livro-reportagem “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais.

“Dois Papas”, dirigido por Fernando Meirelles, fará o encerramento. Nele, Anthony Hopkins e Jonathan Pryce vivem Bento 16 e Francisco. 

“Foi um ano excepcional para o cinema brasileiro e queríamos mostrar isso”, diz Renata de Almeida, diretora do evento.

A Petrobras, tradicional patrocinadora, não vai mais apoiar a Mostra. No ano passado, desembolsou em torno de R$ 750 mil. Sem isso, o orçamento deste ano é de R$ 4 milhões, cerca de 20% a menos do que no ano passado. 

Almeida diz ter contornado o rombo cortando passagens áreas e coquetéis. Mas o número de filmes deve se manter em 300. Outros patrocinadores, como a Spcine e o Itaú, aumentaram o apoio e vão bancar projeções que serão feitas no Municipal e no Ibirapuera.

No Municipal, por exemplo, serão exibidos longas brasileiros como "A Vida Invisível", representante brasileiro no Oscar deste ano. Já o Ibirapuera terá a tradicional sessão ao ar livre, nesta edição com "O Gabinete do Doutor Caligari", de Robert Wiene, que completa cem anos em 2019.

Destaques da Mostra

‘Wasp Network’
Olivier Assayas apresenta seu novo filme, inspirado no livro ‘Os Últimos Soldados da Guerra Fria’, de Fernando Morais. A obra fala de espiões cubanos em atividade nos Estados Unidos.

‘A Vida Invisível’ 
O longa eleito para representar o Brasil no Oscar, traz Fernanda Montenegro em trama sobre machismo no Rio dos anos 1950.

‘Dois Papas’ 
No longa de encerramento da Mostra, Fernando Meirelles dirige Anthony Hopkins e Jonathan Pryce nos papéis de Bento 16 e Francisco.

‘Abe’ 
Fernando Grostein Andrade dirige história sobre garoto que usa seus dotes culinários para unir o lado israelense e o lado palestino de sua família.

‘Três Verões’ 
Regina Casé vive a caseira de um condomínio de luxo que vê os patrões envolvidos num escândalo de corrupção.

‘Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou’
Bárbara Paz exibe o documentário sobre o seu marido, o diretor morto em 2016, com o qual foi premiada no Festival de Veneza.

43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
De 17 a 30 de outubro, nos cinemas da cidade. Programação será anunciada em mostra.org

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