Descrição de chapéu Livros

Obra de gênero inclassificável discute relação entre a linguagem e a matéria

'Ó,' do artista e escritor Nuno Ramos, está entre os trabalhos mais originais e potentes da literatura brasileira deste século

Fernando Tadeu Moraes
Brasília

Publicado há pouco mais de uma década, “Ó”, quarto livro do artista visual e escritor Nuno Ramos, se inscreve entre os trabalhos mais originais e potentes da literatura brasileira deste século.

É uma obra de gênero inclassificável, que transita entre a ficção, o ensaio, a crônica, a memória e a poesia. 

Essa indisciplina formal do livro faz par com a multiplicidade de seu conteúdo.

Dividido em 25 capítulos, “Ó” começa refletindo sobre um dos temas mais presentes na produção do autor, a relação entre linguagem e matéria.

Ramos imagina a possibilidade de “estudar as árvores numa língua feita de árvores, a terra numa língua feita de terra”. Assim, a “natureza seria nossa como uma gramática viva”. Na sequência, aborda a morte e os túmulos, que “pavimentam o esquecimento, permitindo à vida que faça o que tem de fazer, seguir sem os mortos”. Passa então a narrar a história de um homem espantosamente gordo.

No restante da obra, ainda falará de galinhas e da mão esquerda, de hidrelétricas e de manias, da trágica morte de um bode e da infância. 

Tudo isso é entremeado por sete “ós”, textos em prosa poética que produzem uma espécie de denúncia da insuficiência da linguagem discursiva.

“Feito microfonia, um ‘ó’ que fosse crescendo também nos bichos, nas colmeias, no pelo dos ursos, na lã das mariposas, no chiado do leão sem dentes que segue de longe a própria matilha sem ouvir o ‘ó’ crescente das hienas que comem, comem neste momento seu próprio cadáver”, diz o primeiro “ó”, inspiração para Felipe Lara em sua composição.

Ramos, que não teve participação no processo de elaboração da obra, conta que soube que a Osesp encomendara a Lara o trabalho pouco após o livro ter conquistado, em 2009, o Prêmio Portugal Telecom —hoje, Oceanos—, uma das láureas mais prestigiosas e da literatura em português.

“Eu fiquei muito feliz com esse projeto e estou numa angústia tremenda por não poder assistir à estreia”, diz o artista, que está em Frankfurt ensaiando um novo espetáculo. 

Embora já tenha escrito para músicos, Ramos vê pela primeira vez uma obra sua ser transposta para o universo sonoro dessa maneira. A musicalidade, no entanto, já estava presente em “Ó”.

“Se há uma coisa que eu considerei ao escrever o livro foi o som. Eu acho que o ‘ó’ tem um embalo sonoro muito próprio, marcado por uma câmera de eco entre as palavras”, diz.

Na orelha que escreveu para o volume, o professor da USP José Pasta elenca algumas das possíveis formas de se entender esse livro múltiplo. “Uma vasta fantasia antropológica? Uma crítica da percepção? [...] Uma meditação sobre a ruína? [...] O transe brasileiro no seu limite? [...] Uma tese de doutoramento impossível?”

Conclui que não é nenhuma dessas coisas —e ao mesmo tempo todas elas e mais algumas. O trabalho de 
Felipe Lara acrescenta mais uma possibilidade a essa lista.

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