Osesp apresenta, na Sala São Paulo, música cheia de ruídos e onomatopeias

Trata-se de encomenda feita ao compositor Felipe Lara, que criou uma partitura não convencional a partir da obra 'Ó'

São Paulo

Há oito anos, o anúncio da temporada da Osesp trazia a apresentação de uma obra encomendada a Felipe Lara, compositor brasileiro radicado nos Estados Unidos.

Inspirado em textos do premiado livro “Ó”, de Nuno Ramos, ele criou uma composição para coro, conjunto instrumental e meios eletrônicos. O ano era 2011, e dificuldades com a edição da partitura atrasaram o processo.

De lá para cá, “Ó”, que a orquestra paulista finalmente estreia nesta quinta (12) sob regência do inglês Neil Thomson, só cresceu em tamanho e complexidade, assim como a carreira do compositor, que completa 40 anos em 2019.

Obras de Lara têm sido encomendadas pelos principais grupos, solistas e festivais internacionais especializados em música contemporânea, bem como por orquestras de grande porte e projeção.

O famoso Ensemble Intercontemporain, criado pelo compositor Pierre Boulez, estreou em 2016 “Fringes”, na Philarmonie de Paris, e o igualmente notável Ensemble Modern, de Frankurt, executou “Brutal Mirrors” em 2018.

“Ó” tem 32 minutos e prevê oito narradores-cantores, dois coros, duas orquestras —com piano, harpa, duas guitarras elétricas e ampla variedade de instrumentos de percussão—, além de sons eletrônicos pré-gravados.

Lara diz que a obra “dialoga com a ‘Sinfonia’ de Luciano Berio, sobretudo pela semelhança com a instrumentação dos cantores-solistas amplificados”.

Escrita para o grupo vocal francês The Swingle Singers, a “Sinfonia” de Berio utiliza textos de Samuel Beckett e outros autores em diálogo com a massa orquestral, fazendo uso de microfones para as vozes. A voz é, segundo ele, tratada “como se fosse um instrumento como os outros”. 

“As partes vocais incluem tanto narrações, ruídos e onomatopeias, como propriamente o canto”, diz.
Os sons eletrônicos utilizados na obra foram gravados com crianças de uma escola pública no Espaço 
Cultural Ventos Uivantes, em São Francisco Xavier, no interior paulista.

“Passamos um dia na mata escutando os sons, discutindo ecologia e sustentabilidade, e as diferentes zonas de proteção ambiental. Apesar de a obra ter sido finalizada em 2014, o tema não poderia ser mais crucial nesses tempos bizarros que vivemos hoje.”

A estreia de uma obra não convencional é sempre desafiadora para os músicos de uma grande orquestra, já que o número de ensaios é, em geral, o mesmo que se devota às peças mais conhecidas e tradicionais do repertório.

Apesar disso, Lara não acredita que o compositor deva sacrificar a ousadia por razões práticas. “A cada obra tento levar tanto a minha escrita quanto os músicos a um novo panorama. Imagine se Stravinsky tivesse diluído a sua linguagem ao compor a ‘Sagração da Primavera’ apenas para facilitar a vida dos músicos, que triste perda seria.”

Ele assumiu recentemente o prestigioso posto de professor de composição do Peabody Institute, ligado à Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Neste momento está terminando um concerto duplo para a flautista Claire Chase e a cantora e contrabaixista Esperanza Spalding tocarem com orquestra.

“O desafio foi o de negociar, por meio da minha escuta e instinto criativo, várias vertentes musicais que me formaram, como música popular, rock, jazz e música de concerto.”

Ele também fez a trilha de “A Fera na Selva”, filme dirigido por Paulo Betti e Eliane Giardini que, após ser apresentado em diversos festivais, estreará em outubro nos cinemas brasileiros.  

Lara diz que não quis necessariamente interpretar o significado do “Ó” de Nuno Ramos, mas “contaminar a música com as imagens proporcionadas pelo texto”.

O compositor não trabalha de forma predominante sobre escalas e acordes tradicionais, mas cria, a cada 
música, as suas próprias técnicas composicionais.

Um dos processos que utilizou consistiu em gravar a sua própria voz cantando a vogal “o” e depois fazer uma análise gráfico-acústica da estrutura desse material, que ofereceu a ele possibilidades de desenvolvimentos sonoros particulares. É o experimento eletrônico como gerador da grafia instrumental, a gravação como base da partitura.

“Eu reinterpretei, reorquestrei uma gravação da minha própria voz cantando um si grave, usando análises espectrais da mesma vogal. Isso virou uma âncora sonora. Usei também análises similares de urros de leões, hienas, címbalos e outras sonoridades que aparecem no texto. É um verdadeiro ó.”
 

Osesp 60: Thomson e Coro

  • Quando Qui. (12) e sex. (13), às 20h30. Sáb. (14), às 16h30. Ensaio aberto: qui. (12), às 10h. R$ 15
  • Onde Sala São Paulo - pça. Júlio Prestes, 16, São Paulo
  • Preço De R$ 55 a R$ 230

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