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'Our Boys', nova série da HBO, explora a anatomia dos crimes de ódio

Produção dramatiza sequestro e assassinato de três adolescentes judeus por militantes do Hamas em Israel, em 2014

Bruce Fretts
The New York Times

“Our Boys” é um título enganosamente inócuo para uma história poderosa e perturbadora.

Coprodução entre a HBO e o Keshet Studios, com estreia em 12 de agosto, a série dramatiza os acontecimentos relacionados ao sequestro e assassinato de três adolescentes judeus por militantes do Hamas em Israel, no verão de 2014. Dois dias mais tarde, um adolescente palestino, Muhammad Abu Khdeir, foi imolado, e seu corpo foi descoberto em uma floresta perto de Jerusalém.

A série se baseia no formato dos dramas de investigação policial para contar uma história política e emocionalmente delicada, que divide seu ponto de vista entre Muhammad (Ram Masarweh) e sua família palestina e o investigador Simon (Shlomi Elkabetz), que comanda o caso para o serviço de segurança interna israelense, Shin Bet.

Três criadores com antecedentes distintos se uniram para levar “Our Boys” às telas: Hagai Levi, cocriador israelense da série “The Affair”, do canal Showtime; o cineasta palestino Tawfik Abu Wael, de “Último Dia em Jerusalém”; e Joseph Cedar, roteirista e diretor nascido em Nova York e criado em Israel (“Norman: Confie em Mim”).

Ainda que a série trate de acontecimentos reais, transcorridos em um lugar e tempo específicos, seu estudo de como os crimes de ódio dilaceram a sociedade e reverberam nela é deprimentemente universal.

“Quando ouvi falar do ataque em El Paso, pensei que era muito próximo do que estamos fazendo na série”, disse Levi. “Não é algo que aconteça só em Israel”.

Levi, Abu Wael e Cedar conversaram sobre “Our Boys” via Skype, de Tel Aviv, onde estavam editando o episódio final da temporada. Abaixo, trechos editados da conversa.

 
Qual foi a origem da série?
Levi: A HBO me procurou em 2015 e perguntou se eu gostaria de transformar em série um artigo do The New York Times sobre os meninos assassinados. O verão todo de 2014 foi muito sangrento. Todos sentíamos que aquela era uma história crucial que tínhamos de contar.
 
Como é que vocês decidiram se unir no projeto?
Levi: Não tínhamos trabalhado juntos antes. Convidei Joseph para dirigir, e ele se tornou cocriador da série. Depois trouxemos Tawfik, porque uma grande parte da história é sobre os palestinos e queríamos que um dos criadores fosse palestino.

Abu Wael: Usualmente, quando alguém me procura para fazer algo político, respondo que não. Mas desta vez, me encontrei com Hagai e Joseph e me vi visitando Jerusalém Leste com eles, para uma conversa com a família de Muhammad., Fomos à casa deles e lhes dissemos que faríamos uma série. Foi um grande alívio para eles compreender que contaríamos seu lado da história.
 
Como vocês dividiram o trabalho em termos de escrever e dirigir episódios individuais?
Levi: Não há um episódio específico que um de nós tenha escrito ou dirigido. Tawfik estava encarregado de escrever e dirigir o lado palestino da história, e Joseph era o diretor do lado judaico. Mas na verdade não há como dividir o que era de quem. Foi uma colaboração complicada.
 
Como foi escrever e dirigir em múltiplos idiomas?
Cedar: Às vezes o hebraico tem palavras árabes, e o árabe tem palavras hebraicas, e essas combinações são parte da história porque todos temos de nos comunicar uns com os outros. Adotamos termos e referências uns dos outros o tempo todo. Eu realmente gostei dos trechos em que personagens árabes só conseguem explicar alguma coisa em hebraico.
 
Como vocês encontraram os atores para os papéis principais?
Cedar: Essa é a primeira vez que Shlomi trabalhou diante das câmeras. Ele é bem conhecido como roteirista e diretor em Israel. Também é irmão de Ronit Elkabetz, [morta em 2016], a “femme fatale” do cinema israelense. Em uma das nossas primeiras conversas, dissemos que devíamos encontrar alguém parecido com Shlomi. E por fim dissemos: “Por que não Shlomi?” Ele fez mais de um teste, e ficou claro que não só ele funcionava como ator como havia alguma coisa em seu trabalho que o tornava um colaborador valioso.

Abu Wael: Gosto de trabalhar com não atores. Não seria possível encontrar um ator real com a idade de Muhammad, por isso saí procurando por um garoto que o interpretasse. Ram nunca tinha trabalhado como ator, mas trabalhei com ele.
 
Quando vocês começaram a filmar, houve resistência da população local?
Levi: Trabalhamos discretamente por três anos, quase sem publicidade. Mas duas semanas antes de começarmos a rodar, tivemos alguns problemas do lado árabe.

Abu Wael: É um lugar pequeno, e saiu um artigo contra a série em um jornal de Jerusalém. Subitamente comecei a receber um monte de telefonemas de pessoas que não conheço me dizendo para não filmar. Muhammad se tornou símbolo da luta palestina, Historicamente, existe um antes da morte de Muhammad e um depois da morte de Muhammad, em Jerusalém. Eu não sabia se tinha a força necessária a resistir a essa pressão. Por fim, Hagai e Joseph me deram força e decidi fazer.

Levi: Também havia um ator judeu que deveria ter interpretado um rabino, mas deixou a série quando percebeu qual era o tema.
 
Como vocês encontraram o balanço certo entre o lado de investigação policial e os aspectos políticos da história?
Levi: Do lado da técnica policial, queríamos ser o mais fiéis que pudéssemos. Pesquisamos por cerca de dois anos. Tínhamos muito mais liberdades do lado pessoal, ainda que isso também se baseasse em coisas que ouvimos e sentimos. Quanto ao lado político, sabíamos desde o começo que queríamos combinar imagens documentais e cenas dramatizadas.
 
Quando filmavam cenas de tumultos, vocês se preocupavam com a possibilidade de que terminassem em violência real?

Abu Wael: Tínhamos medo disso. Mas nos preparamos., Escolhemos figurantes em quem podíamos confiar de verdade. Em uma cena, eu os queria bem zangados, e Joseph disse que tinha um pouco de medo, mas isso era parte de fazer as coisas autênticas, verdadeiras. Usamos imagens documentais dos tumultos, e as combinamos ao que tínhamos rodado; a maioria dos espectadores não consegue distinguir as cenas dramáticas das documentais.
 
É uma história difícil de ver. Foi tão desgastante emocionalmente de fazer quanto de assistir?
Cedar: Com certeza sim. A coisa mais difícil que qualquer de nós já fez. Não só não se trata de uma experiência escapista como é quase que o oposto do escapismo. Força-nos a confrontar coisas que preferíamos não ter de encarar.
 
Por que contar essa história agora?
Cedar: Havia algo no ar no verão de 2014. Parecia um novo passo no caminho da desesperança. A dureza e crueldade desses dois casos de sequestro e homicídio. Como eles foram conectados com tamanha facilidade, como conflagraram toda a região —isso era diferente de períodos que pareceram violentos no passado.

Levi: E não só em Israel. No ano seguinte, de Trump a toda a Europa, o ódio cresceu. O que tentamos fazer é estudar a natureza e a anatomia dos crimes de ódio. A questão mais importante agora é compreender essas coisas para que possamos tentar preveni-las. É muito difícil porque é complicado - há muitas camadas por trás dos motivos para que as pessoas façam coisas como essas.
 
Vocês se encorajam com o sucesso de outras séries com temas difíceis, como "Chernobyl", da HBO, e "When They See Us", da Netflix?
Levi: Isso mostra que existe necessidade de algo que não só entretenha como apresente mais significado, com alguma gravidade; algo que não seja uma perda de tempo. Vai ser mais difícil porque é em hebraico e árabe, diferentemente de outras séries. Isso é um desafio. Mas tentamos usar o lado policial da história como recurso para conduzir o espectador a todas aquelas grandes questões políticas. Queremos que a pessoa seja atraída a uma história de tema clássico.
 
A série tem uma mensagem maior?
Abu Wael: Jamais imaginei que estivesse criando uma mensagem. Para mim, o que eu queria era contar uma tragédia palestina e também que os espectadores israelenses tivessem um espelho para ver com profundidade o acontecido do outro lado. Esperamos que isso abra a mente das pessoas.

Levi: É sobre o imenso poder da incitação. Temos líderes que fazem isso. Basta que uma pessoa pense que, quando alguém grita "morte aos árabes", temos de matar árabes. Ou se as pessoas disserem "volte para seu lugar", temos de fazer com que isso aconteça; Usualmente são pessoas que têm problemas. Mas se essas pessoas forem incitadas, isso é o que acontece.
 
O que o título "Our Boys" [nossos meninos] quer dizer para cada um de vocês?
Levi: Em hebraico, o caractere quer dizer "os meninos", e isso tem ampla ressonância bíblica. Usualmente, em Israel, as pessoas falam dos três meninos sequestrados. Mas nós tentamos dizer que eles eram todos meninos.

Abu Wael: Em árabe, é só "meninos". De um lado, há assassinos horríveis, e do outro as vítimas. Mas são todos meninos.

Levi: De alguma forma, queríamos retomar a palavra "meninos".

Cedar: No começo, consideramos dar à série o  título "ervas sem lar", em referência aos extremistas, os assassinos, que não são a norma. Temos de lidar com eles - temos de removê-los - mas eles não são a safra principal. Gradualmente, ao mergulharmos mais na história, ficou mais difícil chamá-los de "ervas sem lar". Em inglês, "Our Boys" significa "um de nós". Existe essa camada no título. Os matadores são um de nós. São nossos garotos. O que essa série faz é tentar calcular como lidar com isso.

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