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Cinema

Paulo Emilio Salles Gomes foi militante do cinema nacional

Mostra e debate no IMS Paulista reveem obra e discutem impacto do trabalho do brasileiro

Não se pode falar de cinema brasileiro sem mencionar Paulo Emilio Salles Gomes. Ele foi historiador, crítico, teórico, professor, foi também um dos criadores da Cinemateca Brasileira e polemista. 

É a ele que está sendo dedicada uma mostra no IMS (Instituto Moreira Salles) Paulista e é sobre ele que debaterão, nesta terça (1), o pesquisador francês Bernard Eisenchitz, responsável pelo mais recente restauro da obra de Jean Vigo, e as britânicas Maite Conde e Stephanie Dennison, responsáveis pela primeira coletânea de artigos de Paulo Emílio em língua inglesa.

Eles falarão sobre uma obra cuja relevância começa a se mostrar, ainda inédita, em 1954, quando François Truffaut lê o manuscrito de “Jean Vigo” e anota: “Passou pelas minhas mãos o manuscrito do mais belo livro que já li. Trata-se de um livro sobre Jean Vigo, sua vida, sua obra”. Pouco depois, Truffaut acrescenta que gostaria muito que esse livro encontrasse um editor.

Após três anos, as Éditions du Seuil lançavam o “Jean Vigo” de Paulo Emílio, que levaria o cineasta da esfera do mito para o da história. Vigo era, então, um cineasta maldito, pouco conhecido, de poucos filmes e morte prematura.

O curioso é que o interesse original de Paulo Emilio foi por Miguel de Almereyda, homem político, anarquista e, mais que tudo, pai de Vigo. O livro que escreveu sobre Almereyda ficou inédito, na França. Só apareceu no Brasil depois da morte do autor, em 1977. O livro sobre Jean Vigo, no entanto, até hoje é uma baliza para os estudos sobre o cineasta.

Mas esse Paulo Emílio foi o que morou na França e admirou cineastas como Orson Welles e Hitchcock, entre outros. O Paulo Emilio que se conheceu no Brasil foi também um militante do cinema. Não por acaso, foi um dos fundadores da Cinemateca Brasileira, criou cursos de cinema na UnB e na USP. Foi, para resumir, historiador, critico, professor, teórico, polemista. E, desde que conheceu o cinema novo, um polemista a serviço do cinema nacional.

Longe, porém, de se limitar à defesa dos jovens eruditos e por vezes geniais do cinema novo, dedicou seus melhores esforços a romper a indiferença de uma parte do público brasileiro pelo seu cinema.

Quem quiser saber um pouco mais sobre isso, procure nas antologias cuidadosamente organizadas por Carlos Augusto Calil, seu último e meteórico período de crítico, quando escreveu para o Jornal da Tarde. A única condição que impôs ao jornal foi escrever exclusivamente sobre filmes nacionais. Desde então, a redação empenhou-se em lhe oferecer o que parecia pior na produção brasileira, para que Paulo Emílio falasse mal do filme.

Inútil. Ele conseguia encontrar virtudes onde ninguém mais encontraria. Desse período é sua célebre formulação: o pior filme brasileiro nos ensina mais sobre nós do que o melhor filme estrangeiro.

Desse período é também seu elogio a Mazzaropi, então reverenciado por vasto público, mas ignorado pela crítica (não por acaso, a mostra do IMS exibe “Um Caipira em Bariloche” (1973), da última fase do comediante).

Seu empenho era, em boa medida, jogar o peso de um grande intelectual de modo a fazer com que sua polêmica formulação fosse plenamente assimilada por plateias que negavam uma parte da cultura brasileira, seu cinema.

Também fazia com que seus alunos vissem todos os filmes brasileiros em cartaz. Era uma didática do conhecimento pelo, às vezes, sacrifício.

Se Jean Vigo morreu prematuramente, aos 29 anos, deixando uma obra inesquecível, de “A Propósito de Nice” a “L’Atalante” (sem esquecer essa obra-prima absoluta do cinema anárquico que é “Zero em Comportamento”), pode-se dizer que a obra de Paulo Emílio, embora também formidável e necessária, sofreu com sua morte também prematura, aos 60 anos. Mal começara então uma obra de ficcionista, com as novelas de “As Três Mulheres de Três PPPs”, que anunciavam um autor essencial.

Mas a mostra e o debate desta terça restringem-se a Paulo Emílio homem de cinema. Não é pouca coisa.

TUDO É PAULO EMÍLIO

  • Quando Até 6/10
  • Onde IMS Paulista - av. Paulista 2.424, Consolação - São Paulo
  • Preço R$8 (inteira) e R$4 (meia)
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