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Cinema

Protagonizada por Brad Pitt, saga espacial 'Ad Astra' atualiza odisseia de '2001'

Deslumbrante, filme de James Gray ecoa clássico dirigido por Stanley Kubrick

Sérgio Alpendre

Ad Astra - Rumo às Estrelas

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Brad Pitt, Tommy Lee Jones e Ruth Negga
  • Produção EUA/Brasil/China, 2019. 123 min
  • Direção James Gray

Uma aula de cinema é o que James Gray entrega na primeira metade de “Ad Astra – Rumo às Estrelas”, seu novo filme, protagonizado por Brad Pitt.

Sempre que uma ficção científica badalada surge nos cinemas hoje em dia, costumam falar num “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de nossos tempos, em referência ao clássico de Stanley Kubrick

Foi assim com “Interestelar”, lançado em 2014 por Christopher Nolan, o que deve ter feito Kubrick se revirar no túmulo. “Contato”, obra de de Robert Zemeckis, de 1997, estava mais próximo disso, mas só um ou outro crítico teve coragem de fazer a associação. “Solaris”, que Tarkovski rodou em 1972, seria mais resposta do que atualização.

Pois a primeira metade de “Ad Astra” é justamente um “2001” atualizado, com uma noção de futuro ainda 
plausível, já que não passou pela prova da realidade. Veremos como isso nos parecerá daqui a 20 ou 30 anos.

No futuro que vemos no filme, fazemos viagens espaciais como se fôssemos à Argentina e temos a possibilidade de escolher a companhia espacial (e os serviços de bordo continuam caros).

A Lua é povoada por terráqueos. A base lunar parece um shopping center. E, fora da base, há o perigo dos saqueadores, como vemos numa brilhante cena de perseguição até o lado escuro. 

Marte se tornou viável, e já existe a possibilidade de chegar a Netuno em busca de vida inteligente. A conquista do espaço é real no futuro de “Ad Astra”. Mas o homem sempre quer mais. E as viagens pelo Sistema Solar custam caro para a saúde mental dos astronautas.

Roy McBride, papel de Pitt, é escalado para uma dura missão —procurar seu pai, astronauta pioneiro vivido por Tommy Lee Jones que, após muitos anos em Netuno, resolve tiranizar seus tripulantes ansiosos pela viagem de volta e provoca, acidentalmente, um circuito de crescentes explosões que podem destruir todo o universo.

A primeira parte é o conhecimento do problema, a viagem de Roy a Marte, com escala na Lua, e a crise com a informação de que seu pai, presumidamente morto anos atrás, pode estar vivo, e pode ter se tornado um vilão insano (algo em que ele a princípio não acredita).

É um primor de adequação e ritmo, de enquadramentos e sucessão de imagens. Contemplativa e muito bem construída, essa parte comprova o talento do diretor para criar narrativas a anos-luz de distância do habitual em Hollywood.

A segunda parte é a missão de fato. Do encontro com o pai em Netuno, tema spielberguiano que Gray relata evitando o sentimentalismo, embora de forma um pouco corrida (eis um filme que 
poderia durar três horas).

Não é possível dizer mais. Só que nessa parte surgem momentos de rara beleza, em pé de igualdade com a primeira, mas também pequenas gorduras, como uma breve (ainda bem) cena de ação que parece pertencer a outro filme.

E é na junção das duas partes que Gray se mostra apto a atualizar a filosofia de Kubrick, mas com sua própria e fascinante poética, fazendo a ponte mais didática com o Zemeckis de “Contato” como forma de se comunicar com o público atual. 

É o confronto do homem com seu destino cósmico, como esse extraordinário cineasta já havia mostrado em sua obra-prima, “Era Uma Vez em Nova York”, de 2013, e no mais recente “Z – A Cidade Perdida”, de 2016.

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