Ruínas e escombros em obras de Daniel Senise refletem tragédias atuais

'Todas as nossas transformações vão para o ralo', diz o artista sobre 'Todos os Santos', que ele apresenta no Tomie Ohtake

Clara Balbi
São Paulo

Daniel Senise gosta é de chão. Desde os anos 1980, o artista carioca imprime em suas telas o assoalho do próprio ateliê, misturando às suas composições marcas do relevo do piso e resquícios de pinturas anteriores.

Nas últimas décadas, no entanto, as impressões vêm conquistando novos territórios, compondo um numeroso acervo que inclui do piso de uma fábrica abandonada em Connecticut, nos Estados Unidos, ao chão do Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro.

Foram os pisos, conta o artista, que o levaram às ruínas e construções vazias retratados nas obras que ele agora apresenta no Tomie Ohtake.

Neles, encostos de cadeiras, barras metálicas e até mesmo mosquitos colhidos em locais como o Hospital Matarazzo, em São Paulo, ou o antigo galpão da Estrada de Ferro Sorocabana, em Sorocaba, são colados sobre imagens dos espaços.

Muitas das imagens foram realizadas em parceria com fotógrafos profissionais, como Mauro Restiffe. Mas Senise antecipa que esta não é uma exposição de fotografia. “É sobre a natureza da representação”, diz. Ele explica que, enquanto a fotografia visa reproduzir uma determinada realidade, os elementos adicionados aos quadros não substituem nada.

Também para se afastar do campo fotográfico, o artista, integrante da Geração 80  —grupo conhecido pela retomada da pintura naquela década—, incluiu uma obra da série “Biógrafo” na exposição. Nela, recortes de impressões do chão de seu ateliê compõem a imagem de uma sala de um museu em Nantes.

Como os demais trabalhos da mostra, diz Senise, também este é uma espécie de sudário, relíquia cristã que, segundo a tradição, envolveu o corpo ensanguentado de Jesus Cristo e guardou as marcas de seus ferimentos. É dessa metáfora, aliás, que vem o título da exposição, “Todos os Santos”.

Essa mesma obsessão com a materialidade aparece no painel de cinco metros de altura que completa a mostra.

A peça é formada por pedaços carbonizados do carpete do Teatro Villa-Lobos, no Rio, destruído por um incêndio em 2011 e até hoje interditado. Por baixo do restos de carpete, está um alumínio espelhado.

Senise chamou a composição de “Arranjo em Cinza e Preto” em homenagem a uma pintura do americano James Whistler. Ao não citar o fogo no título, ele diz querer evitar leituras “psicologizantes”.

“Não tenho a pretensão de dominar todas as instâncias do meu trabalho. Falar o que os outros devem ver corta a minha possibilidade de descobrir coisas novas”, justifica.

É difícil, no entanto, encarar o trabalho e não lembrar do Museu Histórico Nacional, cujo acervo de 20 milhões de peças foi reduzido a cinzas depois de um incêndio em setembro do ano passado.

Senise vê, no entanto, beleza nos tons de cinza e terra das ruínas que permeiam a exposição. “Todas as nossas transformações, esforços, tudo isso vai para o ralo. Mas as coisas vão continuar depois que ficarmos para trás.”

Daniel Senise

  • Quando terça a domingo, 11h às 20h, até 13/10
  • Onde Instituto Tomie Ohtake - r. dos Coropés, 88, Pinheiros
  • Preço Grátis

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