Descrição de chapéu Artes Cênicas

Shakespeare é mote para peça fazer estudo da violência crua e da implícita

'Insônia - Titus Macbeth', nova peça dirigida por Guerreiro Lopes, fica em cartaz até outubro

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Em um trabalho de juventude e noutro maduro, tido como obra-prima, Shakespeare contrapôs dois estados de violência. 

“Titus Andronicus”, peça de início de carreira, é repleta de crueza e barbárie e retrata uma sociedade desumanizada. Já em “Macbeth”, a violência surge implícita. O que se vê em cena é a gestação do crime, uma busca pelo poder e na qual, imaginam os personagens, os fins justificam os meios.

“São dois tempos que se justapõem e também são dois tempos de Brasil: o violento que estamos vivendo; e outro que sempre vivemos, no qual, em nome do poder, se atravessa qualquer coisa”, diz o diretor André Guerreiro Lopes.

Não à toa, são as duas obras do bardo que compõem “Insônia - Titus Macbeth”, nova peça dirigida por Guerreiro Lopes. Aqui, as tramas são guiadas por dois personagens, o imperador romano Titus Andronicus, que retorna vitorioso da guerra, e Lady Macbeth, que arquiteta jogos de poder para que seu marido ascenda ao trono da Escócia.

Tudo acontece numa espécie de instalação, na qual o público pode circular livremente, observando diferentes ângulos das histórias. Na dramaturgia, assinada pelo diretor e por Sérgio Roveri, há um casamento das duas tragédias, que se aproximam cada vez mais. 

De início, Titus (Helena Ignez, musa do cinema novo) surge numa das pontas do espaço cênico, e Lady Macbeth (Djin Sganzerla, filha de Helena), na outra. Intercalam suas falas, se sobrepõem e até respondem a indagações. E vão circulando pelo espaço —assim como os demais atores, que transitam pelas tragédias— até que suas histórias parecem se fundir numa só.

“É um espetáculo construído sob o signo do caos, que vai espiralando”, diz Guerreiro Lopes. “‘Titus’ é a peça mais sanguinolenta de Shakespeare, alguns analisam como uma obra ‘Tarantino’. Tem esse ciclo de ódio e violência que você não consegue controlar, só consegue testemunhar, e é muito terreno, físico.

Já ‘Macbeth’ tem uma elaboração de linguagem muito incrível é uma história regida a partir de forças evocadas, sobrenaturais.”

Tanto que a interpretação de Titus busca o lado mais bruto do personagem, enquanto a de Lady Macbeth vai pelo mítico e telúrico. Essa ideia de equilíbrio e desequilíbrio também está no cenário de Simone Mina, que lembra uma exposição. 

Há elementos suspensos por cordas, que criam movimentos pendulares, e outros terrenos, como pedras e madeiras. O material também dá corpo a outra imersão. Com microfones espalhados pelo espaço, criam-se efeitos de som, com barulhos de água e pedras.

São elementos estranhos, no limite entre a beleza e a virulência. Mas espelham a dicotomia dos personagens, que não se sabe bem se são vilões ou heróis, se fazem o bem ou o mal. Ou, como resume Shakespeare em “Macbeth”: “O belo é feio e o feio é belo”.

Insônia – Titus Macbeth

  • Quando Até 20/10. Qui. a sáb, às 21h. Dom., às 18h. Sessão extra em 16/10, às 21h
  • Onde Sesc Avenida Paulista, av. Paulista, 119
  • Preço R$ 6 a R$ 20
  • Classificação 14 anos
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