Descrição de chapéu

Show de Daniel Johnston foi um dos mais bonitos que a rua Augusta já viu

O coração que matou o artista foi o que o fez ficar adorado: dele saíram profundas e simples canções de amor e (des)esperança

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O cantor e compositor americano Daniel Johnston - Bryan Schutmaat/The New York Times
Lúcio Ribeiro

Daniel Johnston, um dos mais lendários e complexos músicos da cena alternativa americana, morreu de um ataque do coração aos 58 anos na última terça-feira (10), como divulgado pela imprensa americana, a partir de uma notícia dada pelo jornal texano The Austin Chronicle.

Imediatamente o anúncio teve reverberação maciça e consternada dos meios musicais do mundo todo.

O coração que matou Johnston foi o que o fez ficar adorado. Dele saíram as mais profundas e simples canções de amor e (des)esperança da música independente. Simples nas guitarras solitárias, frágil na sua voz triste e trêmula, como o que marcou “Hi, How Are You”, seu sexto e mais cultuado disco, lançado em 1983 e considerado pelo artista um “trabalho inacabado”.

Prolífico, outsider e até com um jeitão infantil de se portar, o portanto excêntrico Daniel Johnston gravou 20 discos em sua carreira, boa parte nos anos 1980.

Sua “fama” para além dos subterrâneos do rock se deu quando, no comecinho dos anos 1990, Kurt Cobain, no auge do Nirvana, era visto para cima e para baixo usando uma camiseta de seu principal álbum, o citado “Hi, How Are You”, que tinha na capa o desenho de um sapo cósmico, imagem icônica criada por Johnston, que também era um exímio desenhista e quadrinista indie.

Além de Cobain, os integrantes de bandas como Sonic Youth, R.E.M., Arcade Fire e até artistas como David Bowie e Tom Waits eram fãs declarados de Daniel Johnston. 

O coração o matou, mas sua mente já praticamente o havia tirado deste mundo. Um pouco antes dessa exposição de notáveis, o músico recebeu um diagnóstico de fortes distúrbios mentais de várias ordens, após literalmente derrubar um avião de dois lugares após um surto psicótico. O pequeno avião levava ele e o pai depois de um show seu no Texas e ambos saíram dele vivos.

Quando o “aval” de Kurt Cobain causou uma correria aos discos de Daniel Johnston, ele mal pôde aproveitar a fama, porque estava internado numa instituição mental.

O americano, que por anos precisou conviver com sua esquizofrenia incontrolável e com seus demônios (ele achou que era o fantasma Gasparzinho no avião que derrubou), foi tema de um premiado documentário em 2005, o perturbador e emocionante na mesma medida “The Devil and Daniel Johnston”, laureado em festivais independentes como o Sundance.

Capa do disco 'Hi, How Are You', de Daniel Johnston
Capa do disco 'Hi, How Are You', de Daniel Johnston - Reprodução

Em 2012, ele lançou seu último disco, “Space Ducks: Soundtrack”. Os patos espaciais eram outros de seus desenhos mais famosos. Há dois anos, Daniel Johnston embarcava em sua turnê final no ano de 2017, com cinco shows especiais com convidados, pelos Estados Unidos. 

Em 2013, Daniel Johnston fez sua única apresentação no Brasil, em São Paulo, trazido pelo selo de shows Popload Gig, no qual estou envolvido. Era um concerto adiado. Meses antes, a caminho de São Paulo, o músico se recusou a subir na escada rolante do aeroporto, para embarcar. Decidiu voltar para casa. Não era hora de pegar avião, segundo ele.

Quando finalmente veio, na noite de seu show, Johnston se recusou a ir antes a um “restaurante bom” oferecido para jantar. Queria ir a um McDonald’s. Chegou ao clube com a camiseta branca manchada de ketchup e mostarda. E subiu ao palco com ela.

Estava extremamente nervoso, a ponto de o público achar que ele iria sair de cena sem conseguir cantar nada, tocar acorde nenhum. 

E, dentro da simplicidade nervosa do que foi Daniel Johnston naquele dia, a mesma que pautou boa parte de sua vida, acabou saindo um dos shows mais bonitos que a rua Augusta já presenciou. E eu sai dalí com uma tatuagem de sapo cósmico no corpo.

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