Descrição de chapéu

A graça de Mauricio Sherman ganhou tom de deboche inapropriado

A transformação do 'Zorra Total' dá uma dimensão da distância que separava o modelo de criação do diretor do mundo atual

São Paulo

A transformação do antigo “Zorra Total” no “Zorra” que hoje ocupa as noites de sábado da Globo dá uma dimensão da distância que separava o modelo de criação de Mauricio Sherman, morto nesta quinta (17), do mundo atual.

O “Zorra Total”, encerrado em 2015, com resquícios de piadas sexistas e alguma misoginia, foi o último trabalho de Sherman na TV. Daqueles esquetes puxados pela travesti Valéria (Rodrigo Sant’Anna), sob o bordão “Ai, como eu tô bandida” (que a audiência adorava) só restou parte do título do humorístico, agora dedicado a sátiras políticas e comportamentais.

Não vai aí nenhum julgamento. Mulheres de corpos esculturais sob a cobiça de olhares masculinos, assim como a caricatura da bicha afetada e da mulher burra (vide Ofélia e Fernandinho), por décadas integraram a receita de programas que servem como referência do riso na TV, como “Faça Humor, Não Faça Guerra”, “Chico City” e “Os Trapalhões”, sem que isso significasse má qualidade de produção e texto —ao contrário, havia diálogos afiadíssimos, e Sherman trabalhou com os melhores, como Chico Anysio, Jô Soares e Max Nunes.  

Mauricio Sherman com atrizes do Zorra Total (Samantha Schmütz, Miriam Martin, Katiúscia Canoro) em 2009 - Alex Carvalho/TV Globo

Não que a cena da mulher gostosa, tão bem explorada pelo diretor em seus trabalhos ao longo de seis décadas de televisão, não tenha mais espaço. Está aí a audiência de “A Praça é Nossa” para desmentir a ideia de que ninguém mais se diverte com aquilo.

Para quem busca novas gerações, no entanto, boa parte da graça do passado ganhou tom de deboche inapropriado. As premissas que tanto êxito renderam a Sherman estão em processo de profunda mutação, mas, sem os seus pilares, a edificação dos valores que hoje regem os melhores talentos não seria possível.

Mesmo porque boa parte da atual safra de redatores e comediantes teve seu caminho aberto na TV por ele, um dos raros diretores da velha guarda a frequentar salas de teatro, incluindo espetáculos alternativos, em busca de sangue novo. Gostava de encontrar autores fora do eixo Leblon-Jardins que soubessem fazer graça para a massa. 

Como alguém que deu seus primeiros passos na TV ainda nos primórdios da Tupi, nos anos 1950, Sherman integra o time dos profissionais que aprendeu a pilotar o veículo enquanto errava a marcha. Ele era de uma geração que descobria o certo e o errado com base na repercussão das ruas e dos auditórios lotados, o que lhe deu créditos para trafegar por terrenos diversos, indo de Xuxa à dramaturgia e ao humor.

Foi ele quem convenceu Adolfo Bloch a entrar na seara de novelas, a começar pela minissérie “A Marquesa de Santos” (1984), gênero que renderia seu maior troféu dali a seis anos, a inovadora “Pantanal” (1990), sob os méritos de outros diretores, como Nilton Travesso e Jayme Monjardim.

A atribuição de ter revelado Xuxa veio no rastro do posto que ocupava na Manchete, como diretor, e na certeza, de novo, que mulher bonita é ponto infalível para a audiência (o que, não sejamos ingênuos, ainda é um ímã no controle remoto, embora não mais válido para o público infantil).

“As meninas se refletiam na Xuxa, que era muito querida pelos garotos, e as meninas, no fundo, só querem saber de namorar”, disse ele em entrevista ao canal de Fernando Borges no YouTube. Que as meninas desta geração não o ouçam, mas desde a Tupi ele sabia que a fórmula dava certo, tendo feito programas infantis com “moças bonitas” como Neide Aparecida, profissional nascida dos comerciais, e a então vedete Virginia Lane, “que se vestia de coelhinha”.

Desta forma, está claro, atraía para a frente da TV não só as crianças, criando um ambiente de feliz convivência com os pais.

Assim que Xuxa foi para a Globo, apareceu Angélica, que também cumpria os requisitos de beleza, evidentemente, mas, como menor, ainda aos 13 anos, adotava um figurino mais adequado à idade.

A filosofia de Sherman não era, em absoluto, um conceito isolado na TV, que no Brasil se construiu com base nas experiências do rádio. Tampouco destoava de um mundo que até bem pouco tempo martelava o papel da mulher subserviente até nos intervalos comerciais.

Não é à toa que as beldades que exibiam competência em sensualizar estão em todas as suas realizações em segmentos diversos, sem esquecer as antigas aberturas do Fantástico, programa que ajudou a criar.

O uso desenfreado desse recurso, é bom que se ressalte, não diminui seus méritos, apenas fornece subsídios para as transformações necessárias de um mundo que valoriza o show, sem perder a piada, mas também a plateia feminina.

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