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Cinema

'Afterlife' aborda morte e reencarnação pela chave de um humor laico

Primeiro longa do diretor holandês Willem Bosch imagina um além pop mas organizado, investindo na fantasia e no humor negro

Neusa Barbosa

Afterlife

  • Quando 17/10 às 20h (Espaço Itaú de Cinema - Augusta anexo 4); 19/10 às 15h (CCSP); 20/10 às 14h (Cinearte 2); 27/10 às 15h45 (Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 4)
  • Onde 43ª Mostra Internacional de Cinema de SP
  • Elenco Sanaa Giwa, Romana Vrede, Gijs Scholten van Aschat, Jan-Paul Buijs
  • Produção Holanda, 2018
  • Direção Willem Bosch

Em tempos de tantos fundamentalismos, não é de pequena monta fazer um filme laico a respeito de temas tão carregados de uma aura mística quanto morte e reencarnação.

Esta é uma das façanhas do criativo “Afterlife”, longa de estreia do diretor e roteirista holandês Willem Bosch, cujo traço mais explícito de espiritualidade é imaginar que há um além depois da vida, onde não se vê qualquer sinal de divindade.

Este outro mundo, aliás, pode ser inquietantemente parecido com este nosso, dependendo de transporte e comandado por regras e funcionários burocráticos —como Martin (Jan-Paul Bruijs), que esconde asas de anjo sob um terno escuro quando visita a Terra e começa a observar a rotina de uma família, formada pela adolescente Sam (Sanaa Giwa), seus pais, Erik (Gijs Scholten van Aschat e Romana Vrede) e seus dois irmãozinhos menores.

Apesar de sua aparente bonomia, Martin não costuma ser portador de boas notícias e é melhor não comentar qual dessas pessoas é seu alvo. Mas pode-se garantir que o diretor de primeira viagem é hábil no manejo do humor negro, infiltrando ironia em situações dramáticas com potencial de encharcar pilhas de lenços em outras condições de tempo e temperatura, como perdas e separações. 

A pegada pop do desenho de produção de Elza Kroonenberg sustenta com brilho este clima geral de leveza, afastando-se de referências religiosas e também da gravidade de outros filmes que abordam o além - como o poético japonês “Depois da Vida”, de Hirokazu Kore-eda. 

O tom geral de “Afterlife” aproxima-o bem mais de um Jim Jarmusch ao tratar de personagens fantásticos como os vampiros de “Amantes Eternos”. Roteirista experiente, principalmente em TV, Bosch também acerta nas nuances de um trio de personagens femininas muito marcantes e aguerridas —além de Sam e sua mãe, a amiga desta última, a imprevisível Joke (Ria Aimers). A riqueza das personalidades destas três, se comparadas aos personagens masculinos, permite imaginar que o diretor quis fazer um comentário sobre uma crise da masculinidade, A exceção, neste caso, é Martin— mas é anjo, então, tudo é possível.

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