Andreia Horta volta aos palcos em papel que foi de Kate Winslet nos cinemas

Atriz estrela 'Jardim de Inverno', adaptação do romance 'Revolutionary Road'

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Bruno Cavalcanti
São Paulo

A trajetória de Andréia Horta tem sido marcada pelo caráter forte e contestador das personagens que desempenha. Foi assim em novelas como “Cordel Encantado” e “Liberdade, Liberdade”, quando deu vida a Joaquina, a filha do inconfidente Tiradentes, e, claro, no filme “Elis”, de Hugo Prata, quando interpretou a cantora Elis Regina no desempenho mais elogiado e premiado de sua carreira.

“Elas me perseguem”, se diverte. “Eu já pensei em passar a aceitar só mulheres submissas, frágeis, mas os convites chegam e eu não tenho como negar”. E foi justamente um convite inesperado para viver uma nova mulher de perfil libertário que a fez voltar aos palcos sete anos após sua última aparição em cena em “Breu”, de Pedro Brício.

Infeliz com a vida tediosa e conformada que vive ao lado do marido, April Wheeler decide lutar contra as pressões sociais para tentar seguir um novo caminho com sua família na peça “Jardim de Inverno”, adaptação do romance “Revolutionary Road”, de Richard Yates, que deu origem ao filme “Foi Apenas um Sonho”, com Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, e estreou na última sexta-feira, 11, no Teatro Raul Cortez.

“A peça poderia se chamar April, porque ela condensa toda a ação do espetáculo”, conceitua Fabrício de Pietro, ator e produtor responsável pela adaptação inédita do romance para os palcos. “É um livro rico para atores, e eu vislumbrava que seria incrível contar essa história no teatro”, diz Pietro que, no processo, recebeu negativas de alguns dramaturgos antes de decidir assinar o texto, um recorte da vida de April e Frank Wheeler.

O casal, morando no subúrbio de Connecticut, em Nova York, se percebe infeliz e entediado. Frank tem um bom emprego e April é uma dona de casa dedicada, que, com o tempo, se vê insatisfeita com o conformismo do marido.

“Ela tem essa força interna, um desejo de mudar e sair da mesmice, do cotidiano sufocante, da frustração. Mas existe a força de uma organização social no entorno que é muito mais poderosa”, acredita Marco Antônio Pâmio, diretor do espetáculo.

“A gente busca um ‘hoje’ nos recursos, e mantemos uma fidelidade. Acredito que a história soaria anacrônica se transferida para os dias atuais, porque o papel da mulher se modificou tremendamente nesses sessenta anos. A gente fala de uma personagem que se percebe frustrada no papel de mãe, dona de casa e esposa, reconhece a infelicidade e tenta mudar”, diz o diretor sobre o espetáculo ambientado em 1955.

Pietro reforça: “A gente se engana com a felicidade. Tudo ao redor nos vende uma receita falsa de felicidade e nós compramos, crescemos com isso. Às vezes vamos tendo a chance de reconhecimento em um trabalho que não gostamos, vivemos um casamento infeliz e nunca nos paramos para perguntar como chegamos ali. Às vezes não é consciente, e é disso também que a peça trata”.

O rompante de April foi o que conquistou Andréia Horta, que assume o papel após a desistência de Regiane Alves que, por problemas de agenda, deixou a produção e indicou a colega, num coro imediatamente endossado por Pâmio, que trabalhou com Horta durante as gravações da minissérie “JK”, de Maria Adelaide Amaral, exibida pela Rede Globo em 2006.

“A Andreia tem uma capacidade de comover ao falar um texto que é muito interessante. Parece que a personagem foi pensada para ela, é incrível. A April escolheu a Andréia porque tem um vulcão dentro dela, uma sensibilidade imensa”.

Andréia vê em April um paralelo com as personagens marcantes que viveu anteriormente. “São mulheres que, cada uma no seu tempo, questionaram: que merda é essa, o que está acontecendo aqui? Essa vida não tem sentido, e nós vamos dando sentido a ela. De repente ele caduca, e temos que encontrar outro, e corremos o risco de nos enquadrar naquilo que a sociedade sempre nos pôs. Essa ideia tenebrosa do positivismo, de precisar estar feliz, ser bem-sucedido, te coloca numa infelicidade imensa, porque é um conceito falido. Infelizmente a peça se passa em 1955 e ainda faz sentido, sempre vai fazer”.

Jardim de Inverno

  • Quando Sex.: 21h30. Sáb.: 21h. Dom.: 20h. Até 17/11.
  • Onde Teatro Raul Cortez - R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, tel. 3254-1631
  • Preço Ingr.: R$ 50 p/ sympla.com.br
  • Classificação 14 anos
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