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Cansei de ver meu rosto de homem branco refletido nesses prêmios

Começo desde já uma campanha para Conceição Evaristo no Nobel do ano que vem

O problema está no "ão". Creio. O Prêmio Nobel de Literatura vai para Conceiçaum Evaristo. Conceisouau. My God. Desisto.

Por isso João, o Guimarães Rosa, não ganhou. Nem João Cabral. Nosso português atrapalha. Melhor um José, o Saramagô. Só ganhou porque era José. E José é José (Joseph) em qualquer canto. Já o "ão" não. É muita humilhação para um estrangeiro.

A mesma humilhação quando a gente, brasileiro, tenta pronunciar Tokarczuk. Handke. Eu, pernambucano, mal sei falar shopping center e olhe lá. Toda vez que sai o anúncio do Prêmio Nobel (se diz Nóbel ou Nobél?), eu tenho de ficar treinando o maxilar.

Aquela poeta mesmo, a Wislawa Szymborska, polaca laureada no ano de 1996, virou a autora que fuma na capa do livro, aquela "velhinha" da foto com um cigarro na mão.

Quem ousa dizer seu nome?

E o da Conceição?

Por aqui mesmo, ela só teve um voto em disputa para a ABL. Como explicar isso ao mundo se o prêmio sueco, por exemplo, tivesse ido para ela, agora? Uma negra mineira, ora, longe de cogitação.

Toni Morrison, morta este ano, foi a primeira mulher negra a levar para casa mais de um milhão de euros. Isso no ano de 1993. E o prêmio existe desde 1901.

Fui dar um Google (aliás, é o Google quem sempre nos salva quando queremos saber mais sobre os desconhecidos ganhadores do Nobel) para saber sobre o Prêmio Camões.

Alguma negra já ganhou o Camões? E isso não tem nada a ver com crítica ao nosso amado Chico Buarque (que não é de Holanda, é filho de paulista, neto de pernambucano, bisneto de mineiro). Chico Buarque é para todos e para todas uma exceção.

Na verdade, falei do Camões só para fazer uma pressão, pô. Cada vez eu fico mais de olho nessas coisas. Cansei de ver meu próprio rosto de homem branco. Refletido, incansavelmente, nesses prêmios. Por aí, pelas estantes, ao montão, desde sempre. Na página deste jornal, é o que mais dá.

Nem sei por que estou assinando este texto. Vai ver, para começar desde já uma campanha para Conceição Evaristo no Prêmio Nobel do ano que vem.

Con-cei-ção.

Não é difícil.

Não custa tentar, não é naum?

Marcelino Freire, 52, é autor, entre outros, do livro "Bagageiro", obra finalista do Prêmio Jabuti de 2019

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