Comédia de Israel quebra recordes e tabus ao fazer troça do Mossad

Maior bilheteria da história do cinema local, o filme se inspira em pastelões dos anos 1980

Daniela Kresch
Tel Aviv

“Não se preocupem, vocês estão nas mãos dos serviços de defesa de Israel!”, avisa um agente do Mossad durante uma festa interrompida por terroristas. Após um segundo de silêncio, os convidados, incrédulos, gritam e correm como baratas tontas.

A cena de “Mossad”, do diretor israelense Alon Gur Arye, arranca gargalhadas do público em uma sessão de cinema em Jerusalém. Maior bilheteria da história do cinema local, o filme faz troça do quase mitológico serviço secreto de Israel, retratando os agentes como incompetentes, e seus comandantes como torpes.

A comédia israelense mexe com um tabu —o Instituto para Inteligência e Operações Especiais de Israel (HaMossad LeModiin UleTafkidim Meyuhadim, em hebraico). Criado em 1949, o serviço e suas missões secretas no exterior pareciam, até recentemente, imunes a piadas. Mas Gur Arye prova que nada mais é sagrado na Terra Santa.

“Chaplin dizia que em qualquer piada há um fundo de dor. As coisas que nos incomodam são as que mais nos fazem rir”, diz o diretor, que se prepara para o lançamento mundial do filme, em outubro, após bilheteria de 600 mil ingressos em dois meses, em Israel. Ainda não há data para o Brasil. “Minha ideia foi fazer os israelenses rirem se si mesmos. Espero que, no mundo, eu consiga a mesma reação”.

O diretor diz ter se inspirado em pastelões dos anos 1980 como “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” e “Corra que a Polícia Vem Aí!”, de David Zucker —que, aliás, foi consultor do filme israelense.

O longa gira em torno do espião Guy Moran, que é expulso do Mossad após uma missão fracassada. Ele é vivido pelo ator, músico e modelo Tsahi Halevi, da bem-sucedida série “Fauda” e do filme “Belém: Zona de Conflito”. Em ambos, interpreta papéis dramáticos em obras sisudas, que têm como pano de fundo o conflito entre israelenses e palestinos. Já em “Mossad, the Movie”, o tom é outro.

“Até hoje, só atuei em dramas que fazem as pessoas pensarem sobre a realidade”, diz. “Mas a comédia é uma ótima linguagem nesse sentido. Sociedades confiantes precisam ter capacidade de rir sobre si próprias sem tabus”.

Não é de hoje que o Mossad é tema de roteiros. Mas, em geral, rende obras de ação e espionagem sobre missões quase impossíveis. As mais recentes são duas minisséries baseadas em fatos lançadas pela Netflix —“O Espião”, com Sacha Baron Cohen, e “Missão no Mar Vermelho”, sobre a retirada de milhares de judeus da Etiópia. 

Outros dos temas comuns incluem o resgate de reféns de um avião em Uganda em 1976, que deu origem ao filme “7 Dias em Entebbe”, do brasileiro José Padilha, e o rescaldo após o atentado contra atletas do país na Olimpíada de 1972, mostrado em “Munique”, de Steven Spielberg.

A mitologia em torno do serviço de inteligência israelense —que emprega mais de 7.000 pessoas e só perde para a CIA— é mantida em filmes mais ou menos ficcionais sobre outras missões, como a captura do nazista Adolph Eichmann na Argentina e a busca pelo criminoso de guerra Josef Mengele no Brasil.

Na última década, no entanto, a seriedade tem sido substituída pela irreverência —algo que parece acompanhar uma maior abertura do próprio Mossad, que até fez, em 2015, um recrutamentos por meio da divulgação em jornais de um enigma —das 25 mil pessoas que tentaram decifrar, algumas dezenas conseguiram e foram recrutadas.

O ator britânico Sacha Baron Cohen também subverteu a imagem do Mossad na sátira “Who Is America?”, inventando o personagem Erran Morad, um ex-agente.

Um dos primeiros filmes a brincar foi o americano “Zohan: O Agente Bom de Corte” (2008), no qual Adam Sandler interpreta um espião atrevido que foge do Mossad para ser cabeleireiro em Nova York. Os israelenses entenderam o potencial em 2013, com “Kidon”, comédia baseada no misterioso assassinato, em Dubai, de Mahmoud al-Mabhouh, do alto escalão do grupo islâmico Hamas.

O ator Tsahi Halevi lembra que o cinema israelense passou por uma fase de chanchadas, nas décadas de 1970 e 1980, com comédias, hoje cults, sobre o exército —o alistamento militar e as guerras das primeiras décadas do país haviam deixado sequelas que deram origem a anti-heróis no cinema.

Mas “Mossad” é ainda mais despachada. Um dos personagens, Aaron (vivido pelo comediante Tal Friedman), sofre um acidente e é transformado em um robô chamado Aaron-Man (piada com Iron-Man, o Homem de Ferro).

No filme, a única personagem que parece sã é a agente Linda Harris, da CIA . Em determinado momento, diante de tanta incompetência dos agentes do Mossad, ela pondera que “a idiotice deve ser uma estratégia para enganar os inimigos”. A resposta de Guy Moran, no entanto, não deixa dúvidas: “Não, somos um bando de idiotas mesmo”. 

Os vilões, não menos caricatos, são membros da RBG (“Really Bad Guys”, caras bem malvados), organização de um país árabe fictítio, a Sugiria. 

O diretor diz que o retrato cômico de um evento tão sério, como conflito entre Israel e o mundo árabe-muçulmano, parece não ter chocado.

“Fui entrevistado por uma rádio árabe e eles disseram que gostaram”, diz Alon Gur Arye, que, nos últimos meses se viu enfrentando uma avalanche de emails direcionados ao Mossad. Isso porque o site do filme (mosad.co.il) é parecido com o da agência verdadeira (mossad.gov.il). “Tivemos que traduzir o site para outras línguas na tentativa de explicar que é só um filme.”

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