Descrição de chapéu

Como mulher, artista Patricio Bisso era muito fina e elegante

Lilian Pacce escreve sobre multiartista argentino, com quem conviveu na redação da Folha

Lilian Pacce

Patricio Bisso era tão misterioso quanto divertido. Eu o conheci na redação da revista Around, de Joyce Pascowitch, no começo dos anos 1980, e depois convivi muito com ele na redação desta Folha, onde ele ilustrou a coluna da Joyce na Ilustrada e depois foi colunista da Revista D, da qual fui editora substituindo Matinas Suzuki Jr.

Patricio sempre chegava quietinho, como um garoto pronto para levar uma bronca pelo que tinha aprontado ou pronto para aprontar alguma. Até que começava a falar soltando frases hilárias, bem baixinho, e quase sempre de um realismo cortante, embora bem embaladas em fantasias ou deboche, com uma pegada nonsense. Em uma de suas colunas, o subtítulo era: “Embora a Revista D não seja do tipo musical, sempre tem alguém dançando”.

Enquanto Patricio, ele se vestia como um homem comum, quase sem graça. Como transformista, era um grande criador, com referências profundas de moda e de Hollywood. Chegou a se vestir até com lâmpadas, muito antes de Katy Perry usar candelabro ou Claire Danes acender no baile do Met. Criou vários personagens em espetáculos dignos da melhor tradição dos cabarés.

Até que surgiu a sexóloga russa Olga del Volga, sua criação mais famosa, sempre de preto, com looks glamurosos, colares de pérola, bem anos 1950. Sem dúvida Olga del Volga era inspirada na então sexóloga Marta Suplicy e seu quadro no programa TV Mulher, da rede Globo —e ela em si também teve seu quadro na TV Abril, mas ia além, participando de outros programas (muita gente acreditava que ela existia de verdade!) e até de novela (“Um Sonho a Mais”, TV Globo, 1985), além de escrever aqui na Folha.

Patricio era um talento precoce, enciclopédico e multidisciplinar. Sabia tudo de cinema e de musicais —não dava nem para discutir com ele. Ele sempre tinha razão com sua memória de elefante. Desde que chegou ao Brasil, aos 17 anos vindo de Buenos Aires, sua cidade natal, trabalhou como ilustrador.

Um dos episódios que ficaram famosos foi quando ele trabalhava para o Jornal da Tarde, onde ia pessoalmente entregar sua ilustração. Virava e mexia, ele se vestia de mulher e aparecia como quem não quer nada na redação de um dos prédios mais conservadores da imprensa. Até que um dia ele sobe no elevador com Ruy Mesquita, diretor e sócio da empresa...

Para se dar o respeito, sua persona feminina era sempre fina e elegante, como sua mãe Elvira, quebrando tabus num período em que o Brasil ainda vivia sob o impacto da ditadura. Estávamos a décadas do orgulho LGBT de hoje, que dá espaço e popularidade a nomes como Pabllo Vittar ou Laerte, para citar apenas dois casos.

Para ele, Olga tinha sido um sucesso porque era uma mulher real e “não uma bichinha de salto alto”. Pena que não conseguiu realizar seu projeto de leva-la para o cinema, por falta de financiamento. Bom frasista, uma das máximas de Olga era: “Orgasmo é que nem ponto de ônibus. Perdeu um, passa outro”.

Patricio estava sempre lutando contra a balança. Quando emagreceu, adorava contar qual era “dieta revolucionária do dr. Bisso”: ele abria a geladeira e via o retrato de uma das apresentadoras de TV mais populares da época... E por declarações como essa, nada politicamente corretas, colecionou inimizades no meio artístico.

Patricio cantava, desenhava, escrevia, atuava, encarava todo tipo de arte. Foi seu conterrâneo Hector Babenco que o chamou para assinar o incrível figurino do filme “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), onde também atuou no papel de Greta. “O Beijo”, aliás, deu a William Hurt o Oscar e o Bafta de melhor ator em 1986. Quase dez anos depois, ele voltou a trabalhar com Babenco no figurino de “O Passado” (2007). Já de volta à Argentina, ele dizia que passava suas tardes pensando no sapato que usaria em Gael Garcia Bernal.

No teatro, um de seus maiores sucessos foi o espetáculo “Louca pelo Saxofone”, com os músicos de Os Bokomokos (gíria que significava cafona), onde ele provava que realmente dominava tudo. Chegou até a gravar um disco homônimo cantando ao lado de nomes como Rita Lee, Wanderléa e Lolita Rodrigues, um cult.

Achei muito triste quando Patricio saiu de cena do Brasil no fim dos anos 1990. Mas, mal ou bem, ele se manteve ativo, embora dissesse que estava indo “se aposentar” em Buenos Aires e nunca mais voltaria para o Brasil nem se vestiria de mulher... Fica a história e o legado dele para inspirar a geração de RuPaul’s Drag Race.

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