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Livros

Crise no mercado impulsiona os conglomerados editoriais

O que acontece se alguma editora independente se consolidar como marca forte dentro de um nicho?

Bruno Molinero

​Não é lá muito recomendado misturar livros com cerveja. Se você ficar bêbado, não vai poder ler bem. Se mergulhar na história, é pior: a bebida vai esquentar. Mas vamos dar um gole nessa combinação.

​Quando, em 1999, a Brahma e a Antarctica fizeram uma megafusão e se tornaram a Ambev, a maior produtora de cerveja do país, muita gente torceu o nariz para o que poderia acontecer. Hoje, 20 anos depois, a companhia se uniu a uma empresa belga, formou a AB InBev e virou a maior cervejaria do mundo.

Corta.

O mercado editorial global, sobretudo por causa da crise no setor, vem assistindo a processos de fusões e surgimento de conglomerados. 

No Brasil recente, o principal exemplo tem nome e sobrenome: Companhia das Letras, que acaba de adquirir a Zahar, já havia comprado a Objetiva e se uniu à Penguin Random House, maior grupo editorial do mundo, hoje sócio majoritário, com 70% do controle acionário.

E, é claro, isso fez muita gente torcer o nariz.

Para analisar qualquer competição de mercado, é bom se atentar sobretudo a cinco pontos: 1) o risco de entrada de novos competidores; 2) a intensidade da rivalidade entre empresas já estabelecidas; 3) o poder de barganha dos fornecedores; 4) a ameaça de produtos substitutos; 5) o poder de barganha dos compradores.

Em um mercado editorial em crise, que viu seu faturamento cair 14,5% no Brasil, se compararmos o primeiro semestre de 2019 com o de 2018, percebe-se logo que a maior parte desses pontos começa a ruir. É raro o surgimento de novas editoras, os fornecedores já não conseguem exigir nada e o produto substituto óbvio, o livro digital, não decola no país.

Os freios para o consequente poder dos grandes grupos podem surgir de dois lados. Primeiro, do próprio consumidor, ele também inserido dentro de um contexto de crise econômica duradoura e um dos pilares na hora de evitar aumentos abusivos no preço.

Segundo, das empresas que historicamente não foram vistas como competidoras. Mas que hoje são. Não é exagero dizer que boa parte da oxigenação recente do mercado editorial vem de editoras menores e de iniciativas à margem do mainstream. 

Não à toa casas como Patuá, Reformatório e Nós figuraram em prêmios importantes do ano passado, caso do Prêmio São Paulo e do Jabuti.

E aqui voltamos à cerveja. Um dos movimentos recentes da AB InBev foi a compra agressiva de marcas artesanais. São deles, hoje, rótulos como Colorado e Goose Island.

É claro que no mercado de livros é mais fácil esperar os contratos acabarem ou negociar diretamente com os detentores dos direitos. Foi o que a própria Companhia das Letras fez com títulos de Victor Heringer que eram da 7Letras.

Mas o que acontece se alguma editora menor se consolidar como marca forte dentro de um nicho disposto a gastar? E se ela virar a cervejaria que produz a IPA que virou fetiche?

Saúde.

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