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Defesa de ditador parecia impeditivo para Peter Handke ganhar o Nobel

Com prosa marcada por descrição minuciosa, austríaco venceu o prêmio de Literatura em 2019

Artur Kon

Quando, em 2004, Elfriede Jelinek se tornou a primeira escritora austríaca a receber o Nobel de Literatura, disse que teria preferido se o laureado tivesse sido Peter Handke, descrito por ela como “o grande clássico autor de língua alemã” —​o escritor ganhou o Nobel nesta quinta-feira (10).

Um dos motivos para se preterir o escritor mais velho e reconhecido poderia ter sido seu posicionamento político controverso, sobretudo no contexto da Guerra da Iugoslávia, em defesa da Sérvia e do seu antigo presidente Slobodan Milosevic.

Handke chegou a discursar em seu funeral, quando a morte do ex-ditador interrompeu seu julgamento em Haia como criminoso de guerra. Se a Academia Sueca parece ter superado esse impedimento, ainda em 2014 o caso foi lembrado para criticar a outorga do Prêmio Ibsen Internacional para o autor, tachado de fascista por manifestantes em Oslo.

Peter Handke em Paris nesta quinta (10), após vencer o Nobel de Literatura
Peter Handke em Paris nesta quinta (10), após vencer o Nobel de Literatura - Alain Jocard/AFP

A ideia de que esse fator contasse contra ele na escolha do Nobel ultrajava Jelinek, que, apesar de seu conhecido engajamento à esquerda, se dizia disposta a defender “raivosamente” o conterrâneo, admirado pelo seu modo “absolutamente belo” de escrever.

Jelinek e Handke fazem parte de uma tradição literária austríaca que, diferentemente da alemã com que divide o idioma, coloca no centro da atividade do escritor um corpo a corpo com o campo linguístico, trabalhando antes de mais nada com as palavras em sua materialidade. Se, como disse outro compatriota dos dois autores, o filósofo Ludwig Wittgenstein, “o limite da minha linguagem é o limite do meu mundo”, Handke fez da exploração dessa dupla fronteira o mote de sua obra. 

Não se trata apenas de reconhecer seus interesses variados, que o fazem alternar romances, ensaios e diários, prosa, poesia e dramaturgia, além de roteiros para rádio e cinema (sobretudo em parcerias com o diretor Wim Wenders, cuja parceria mais célebre foi “Asas do Desejo”) e até mesmo a direção de seus próprios filmes. Mais do que isso, Handke explorou em cada uma dessas linguagens caminhos e procedimentos contrários às convenções de cada uma e às separações estritas entre elas. 

No teatro, criou tanto “peças faladas” (seus primeiros trabalhos, da década de 1960, mas só muito recentemente publicados no Brasil), quanto “peças mudas”. As primeiras negavam qualquer drama, apresentando discursos desprovidos de ação ou personagens, próximos à prosa ou à poesia. Já criações posteriores ofereciam apenas rubricas com descrições de figuras e ações que ocupariam a cena, sem dizer nada (o que aproximava a experiência do espectador de teatro com a que se tem no cinema).

Vale ainda citar peças radiofônicas igualmente sem diálogos, só restando sons e ruídos para pintar paisagens na imaginação do ouvinte. Procedimentos distintos com idêntico efeito antidramático: assim Handke se tornou um dos primeiros representantes das tendências hoje reconhecidas e teorizadas de um teatro contemporâneo. E, no entanto, em nota a “Insulto ao Público” e “Auto-acusação”, suas primeiras e mais radicais criações dramatúrgicas, Handke diz que as peças “não querem revolucionar, mas apenas despertar a atenção”.

Esse parece ser o mesmo motor de sua prosa, marcada pela descrição minuciosa de imagens e paisagens, pelo interesse nos detalhes e nas percepções ínfimas, na pequenez do cotidiano e dos gestos aparentemente menos significativos.

O narrador se torna uma câmera que desliza pelo mundo captando imagens sem impor sobre elas sua compreensão ou qualquer hierarquia. Handke não tem interesse em emoções ou estados de alma interiores. Mesmo cada vez mais autobiográficos, seus romances só partem de sua própria experiência de escritor para em seguida desmontar qualquer "eu" idêntico a si mesmo, mergulhando o leitor numa subjetividade constituída justamente pela impessoalidade da linguagem e seus ritmos.

O diretor francês Claude Régy notava que Handke é ”extremamente sensível aos sofrimentos do mundo e aos traumas do nosso tempo” e que, “ao falar da sua família e de si, ele na verdade está falando sobre a história”. Contudo, sem negar o horror, a guerra, a violência e as crises que constituem o presente, o austríaco recém-laureado também insiste que esse agora é tudo o que temos, e que é preciso vivê-lo apesar de tudo.

Ou, como ele colocou em “O Peso do Mundo”: “Não me deixar ser definido pela história, não tomá-la como desculpa (odiar quando escondem suas insignificâncias pessoais atrás dela), e no entanto conhecê-la, para entender as pessoas e sobretudo ver através delas”.

Artur Kon é ator, dramaturgo e pesquisador na área de filosofia da arte. ​

Artur Kon é ator, dramaturgo e doutorando na área de filosofia da arte.

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