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Documentário examina Brasil que migrou do futebol para a política

Diretores Francisco Bosco e Raul Mourão mostram efeitos dos protestos de junho de 2013 nos campos da direita e da esquerda

Clara Balbi
São Paulo

Uma onda de documentários nacionais recentes busca decifrar o período entre 2013 e 2014 no Brasil. O momento é visto como chave para entender o Brasil de hoje, marcado pela renovação maciça dos congresso e pelo flá-flu político.

“O Mês que Não Terminou”, documentário do escritor e filósofo Francisco Bosco e do artista plástico Raul Mourão que estreia na Mostra de Cinema de São Paulo nesta terça (22), é mais um deles.

Ao contrário de seus antecessores, títulos que vão da esquerda (a produção do Netflix “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa) à direita (“Não Vai Ter Golpe”, de Alexandre Santos e Fred Rauh, fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL), no entanto, a narrativa não foca o impeachment de Dilma Rousseff.

Para os diretores de "O Mês que Não Terminou", tudo começou sob gritos de “não é só por 20 centavos”, nas manifestações de junho de 2013.

“O impeachment é provavelmente o marco mais traumático de todo esse processo, mas é ele mesmo um efeito indireto de junho”, justifica Bosco.

É do filósofo o ensaio que originou o filme, intitulado "Junho de 13 foi de sonho democrático a pesadelo autoritário" e publicado na Ilustríssima no ano passado. Nele, Bosco mapeava os eventos que levaram o Brasil a se transformar do "país do futebol" para o "país da política".

O convite para adaptá-lo para o cinema veio do canal Curta!.

Apesar de manter a estrutura original do ensaio –muitas de suas frases aparecem na narração em off da atriz e escritora Fernanda Torres, colunista da Folha–, o documentário aproveita para atualizá-lo de modo a refletir a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) e o "devir conservador" generalizado de junho.

Antes de chegar lá, no entanto, ele passa pela ascensão do antipetismo, descrito como um “afeto de ódio” dominante na política nacional, o fortalecimento das pautas identitárias das mulheres, negros e LGBTs e o mapeamento dos movimentos à esquerda e à direita do espectro político.

Aí está, aliás, outra diferença do documentário em relação a seus pares. Equilibrando as narrativas dos dois lados, Bosco e Mourão não deslegitimam nenhum deles, apesar de os apresentarem sob um viés crítico. "Sem essa visão plural, acho difícil compreender a divisão do país", observa Mourão.

Assim, diz Torres em dado momento, "o MBL não é menos junho do que o MPL (Movimento Passe Livre). O Escola sem Partido do que os estudantes secundaristas que ocuparam as escolas públicas do país”.

A narração em off e as entrevistas com especialistas –alguns deles, nomes que Bosco já havia citado no ensaio, como a economista Laura Carvalho e o filósofo Marcos Nobre– são entremeados com registros das manifestações cedidas pelo coletivo Mídia Ninja, outra cria dos protestos, e videoartes contemporâneas.

As últimas foram selecionadas a partir de uma pesquisa de Mourão, cujo "Plano Acaso", que percorre os andares de um edifício-garagem vazio a bordo de um elevador, abre e fecha o filme.

O artista diz ter visto no documentário uma oportunidade de mostrar ao público trabalhos que vivem "encastelados em salas de museus e galerias".

"Fui selecionando obras que me interessam por uma certa violência poética ou estranhamento e que, deslocadas, ganhariam outro sentido."

A colagem incluiu nomes como Lenora de Barros, que em um vídeo perfura, com cortes secos, retratos da própria língua, ou Cadu, que filma dezenas de bandeiras brancas tremulando ao gosto do vento.

Se o documentário fosse finalizado hoje, Bosco mudaria alguma coisa? "Trataria da degradação sem precedentes da democracia liberal que ocorre sob Bolsonaro", responde o filósofo.

"E contudo isso só confirma a posição política do filme, que aponta para a necessidade de desativar a dinâmica demonizadora de direita e esquerda, lavajatistas e lulalivristas. Mais do que nunca é preciso desativar essa retroalimentação centrífuga, cujo maior beneficiário, aliás, é o próprio Bolsonaro.”

 

O Mês que Não Terminou

  • Quando Exibido nesta ter. (22), às 21h30, no Espaço Itaú Augusta (r. Augusta, 1.475); qua. (23), às 14h, no Cinesala (r. Fradique Coutinho, 361); sex. (25), às 15h30, no Espaço Itaú Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569)
  • Preço R$ 20 a R$ 24
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Fernanda Torres, Laura Carvalho, Marcos Nobre
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Francisco Bosco e Raul Mourão
 
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