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Cinema

Documentário sobre deficiência física não tem nada de autoajuda

Diretor de 'Meu Nome é Daniel' contra sua própria história e é ele quem decide o que vai entregar de sua própria vida

Meu Nome é Daniel

  • Quando Estreia nesta quinta (17)
  • Classificação 12 anos
  • Direção Daniel Gonçalves

É necessário um questionamento prévio quando se resolve abordar algum problema de saúde no cinema.

O risco da comiseração ou do sentimentalismo excessivo pode fazer o filme afundar num mar de lágrimas. A não ser que se acerte o tom no melodrama, o que é difícil de ser alcançado.

"Meu Nome é Daniel", longa que chega com alguns prêmios de diversos festivais, aqui e no exterior, começa um tanto enfadonho. As imagens antigas parecem ter um tratamento mais descuidado em relação ao recente "Os Jovens Baumann", com a diferença que este último é uma ficção.

A impressão, contudo, vai diminuindo enquanto o filme encontra seu eixo, mostrando um jovem com uma deficiência que limita bastante seus movimentos, e que médico algum conseguiu diagnosticar.

Acontece que esse jovem é o próprio diretor do filme, Daniel Gonçalves, que aparece em 99,9% dos planos.

É o primeiro longa brasileiro dirigido por um deficiente, diz o material para a imprensa. Mas Daniel supera essa deficiência com determinação e inteligência.

E, deve-se dizer que, confirmando a bela história de superação, soube evitar os riscos desse tipo de filme, criando uma narrativa sensível a respeito de um tema de difícil tratamento.

Ele arregimenta uma série de vídeos de seu cotidiano, atuais e passados (a maioria), em qualidades distintas (alguns em VHS estão sofríveis, o que contribui com o tom memorialista): as crises, a relação com os familiares, a sorte de ter nascido em uma família abastada, os amigos de escola, o primeiro beijo, a primeira transa.

Em meia hora, o cinéfilo mais antenado deve lembrar de "Tormento" (Jonathan Caouette, 2003), pelo tom corajoso na exposição de um álbum de família e no enfrentamento das situações. Mas "Meu Nome é Daniel" me parece superior.

A coragem é evidente, já que o próprio diretor, como protagonista de seu filme, é quem decide o que vai entregar de sua própria vida, de suas angústias e decepções, para o espectador mais distante. E entrega bastante.

É graças a essa coragem que Daniel consegue expurgar suas frustrações e suas dúvidas, ao mesmo tempo em que convida o espectador a partilhar de seu drama. Não para provocar piedade, pois o filme não tem nada de autoajuda. Mas para convocar para um debate acerca dessa condição e de como superá-la.

Filme de montagem, realizado com algum brilho por um personagem-diretor carismático, que sabe conduzir sua narrativa na frente e por trás da câmera.

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