Entre ruínas pós-industriais, Bienal de Lyon vive fetiche por tempos esquecidos

Exposição em usina desativada na França exibe obras contagiadas pelo estado distópico do mundo

Obra 'Prometheus', de Thomas Feuerstein, exibida na Bienal de Lyon
Obra 'Prometheus', de Thomas Feuerstein, exibida na Bienal de Lyon - Divulgação
Silas Martí
Lyon (França)

Lá, onde as águas se misturam, poderia ser uma lembrança explícita de Lyon, uma das maiores cidades francesas, abraçada pelo encontro de dois rios num vale perto dos Alpes.

Mas é também onde outra espécie de líquido passa a fluir desde que uma antiga fábrica de máquinas de lavar se tornou o espaço central de uma exposição de arte.

Uma massa branca viscosa escorre pelos cabos de aço e ganchos enferrujados da velha linha de montagem. Toda a gosma plástica enche duas piscinas, espelhos d’água opacos remexidos por estranhas garras metálicas —o movimento lembra uma transa robótica que ignora a paisagem pós-apocalíptica ao seu redor.

Essa obra da sul-coreana Mire Lee, uma das dezenas de artistas a mostrar seus trabalhos naquilo que sobrou da antiga usina Fagor, onde operários montavam os eletrodomésticos até quatro anos atrás, dá o tom desta Bienal de Lyon, uma das exposições mais tradicionais do planeta.

Uma nostalgia despudorada pela indústria que se foi, aliás, atravessa essa mostra contaminada pela lembrança dos operários demitidos, o murmúrio de máquinas obsoletas.

Os vastos galpões da fábrica se tornam um terreno do fetiche, em sintonia com a estetização de relíquias de uma era mecânica que orientou a vida noturna e grande parte do circuito das artes visuais no mundo todo ao longo das últimas décadas, do mítico Berghain, em Berlim, aos estaleiros da Bienal de Istambul.

Tanto a velha usina energética da capital alemã transformada em boate quanto os armazéns do porto turco já foram cenário de baladas e exposições com pegada mais rústica. E, quando Daria de Beauvais, uma das organizadoras da mostra em cartaz até janeiro, entrou pela primeira vez na fábrica abandonada em Lyon, ela logo entendeu que aquele era um lugar perfeito para uma festa sem limites.

Ou uma exposição de arte que não esconde sua queda por ruínas pós-industriais, espaços marcados pela fúria elétrica das linhas de montagem que deram lugar ao desemprego e ao esquecimento total.

Beauvais ao lado de um time de outros seis críticos de arte, todos eles à frente do Palais de Tokyo, um centro cultural parisiense tão cavernoso e labiríntico quanto a usina de Lyon, querem falar de um tempo no futuro próximo em que humanos deixam de mandar no mundo. No lugar deles, algoritmos, bactérias e bichos, juntos ou não, passam a controlar as máquinas que moldam todas as coisas e a vida.

O atual estado distópico do planeta serve de pano de fundo fértil para essa mostra de arte intoxicada por uma estética de ficção científica, um imaginário todo oxidado, ao mesmo tempo fabril e febril. Tão febril que as obras derretem no próprio suor corrosivo.

Decomposição, dissolução ou morte lenta por agentes incontroláveis marcam grande parte dos trabalhos.

Enquanto o austríaco Thomas Feuerstein mostra uma estátua dilapidada a olhos nus por larvas que comem pedra, a holandesa Isabelle Andriessen irriga suas esculturas, estranhas formas roliças, com outra espécie de ácido, que amolece as formas antes sólidas.

O mesmo acontece na obra do marroquino Khalil El Ghrib, que parece uma ruína ready-made. Suas estruturas de plástico estraçalhado, como que amordaçadas por fios de tecido ao longo de um corredor, mais lembram os vestígios do que um dia foram do que algo em plena forma.

Essas coisas que não param em pé, frágeis e diluídas, deixando pingar a própria carne, estão por toda parte. O francês Nicolas Momein mostra uma enorme poça de sabão derretido, uma mancha cor de pele rosada que se alastra pelo chão de fábrica cinzento.

A suíça Pamela Rosenkranz também criou uma poça de maquiagem irrigada com água Évian, num comentário pouco sutil sobre a enganosa promessa de pureza e juventude vendida pelas farmácias.

Há um erotismo às avessas nesses dejetos que lembram a carne humana, uma espécie de pornografia do abjeto emoldurada pelas máquinas. 

O ápice disso, também uma das obras mais potentes da mostra, é uma performance criada pela sueca Malin Bülow, em que dançarinos tentam se rebelar contra longas faixas de tecido elástico que os prendem às estruturas da velha fábrica, como se dessem carne e osso aos fachos de luz que vencem a casca grossa do telhado para iluminar a usina.

O francês Morgan Courtois dá um passo além ao transformar em grandes muralhas de gesso visões quase indecifráveis de partes do corpo masculino, uma axila ou uma barriga que se torna uma abstração esbranquiçada gigante. São ruínas do que seriam estátuas clássicas vistas de um ponto de vista nada clássico.

Sua alusão à ruína antiga, fragmentos de mármore que povoam o imaginário há séculos, abre alas para uma série de trabalhos mais óbvios ainda presos à ideia de ruína romântica, à melancolia cenográfica que nunca deixou de rondar a arte contemporânea.

O escritório cheio de areia, como que tragado por uma duna, onde os arquivos estão cheios de ossos humanos, obra do coletivo francês Bureau des Pleurs, as ervas daninhas metálicas do também francês Jean-Marie Appriou, a cozinha mergulhada em sal da sul-africana Bianca Bondi e os canos de esgoto transformados em templos budistas pela tailandesa Pannaphan Yodmanee insistem à exaustão nessas ideias.

Mas tudo isso passa ao largo de uma raiva cada vez mais materializada por artistas de todo o planeta. Os instrumentos de destruição —e também de gentrificação— saíram do armário em trabalhos que beiram o barroco, dramáticos e intensos até não poder mais.

O irlandês Sam Keogh, por exemplo, criou uma plantação de espécimes pós-apocalípticos ao redor da cabeça de um tatuzão, a furadeira gigante usada para abrir túneis de metrô, enquanto a britânica Holly Hendry construiu tubos de ventilação obstruídos por massas de gordura como artérias de um hipertenso e a também britânica Rebecca Ackroyd encenou os restos carbonizados de uma queda de avião, de poltronas flamejantes a restos de corpos.

Toda essa fúria, que pode vir de uma catástrofe acidental ou da já conhecida crise do clima, ganha força política no trabalho de Randolpho Lamonier, o único artista brasileiro escalado para a exposição.

Ele transformou a sala de um museu de Lyon numa espécie de QG da rebelião, com coquetéis molotov espalhados pelo chão e estranhos bordados pendurados nas paredes, algo entre o fim de uma festa selvagem e o início da revolução. Ali, dois vídeos ainda mostram dançarinos negros entregues à catarse de uma festa de rua —todos parecem estar a um passo de começar uma guerra hedonista e querem que o povo dance junto.

O jornalista viajou a convite da Bienal de Lyon

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