Descrição de chapéu Livros

Escritor da saga 'Millenium' se despede da menina que brincava com fogo

Recém-lançado, 'Garota Marcada para Morrer' é o fim definitivo da série

Thales de Menezes
São Paulo

Despedidas podem ser muito complicadas. Principalmente quando você se separa de alguém que foi muito importante, alguém que fez sua vida mudar completamente. Lisbeth Salander mudou de modo radical a vida do sueco David Lagercrantz, e chegou a hora do adeus.

Os caminhos dos dois se cruzaram no início de 2013, quando Lagercrantz foi convidado a continuar escrevendo os livros da série "Millennium", depois que a trilogia inicial lançada na Suécia havia se transformado em best-seller mundial.

Lisbeth é uma jovem hacker, com muitos talentos para investigações digitais e nenhuma habilidade na vida social. Ela se envolve com um jornalista investigativo, Mikael Blomkvist, em tramas de crimes que resgatam passado de abusos sexuais sofridos por Lisbeth e uma disputa mortal com a irmã criminosa.

Lagercrantz é um jornalista que trabalhou cobrindo noticiário policial nos anos 1980 e 1990, escreveu alguns livros de mistério, fez sucesso com uma biografia do maior jogador sueco de futebol, Zlatan Ibrahimovic, e escreveu mais três livros da série "Millennium", o último recém-lançado no Brasil, "A Garota Marcada para Morrer".

 

O volume marca definitivamente o fim da série? "Sim, é último que escrevi e não vejo movimentação dos herdeiros de Larsson para que continue com outro autor", conta Lagercrantz por telefone, pedindo desculpas por atrasar o horário marcado para a entrevista. Estava pondo as crianças na cama.

Ele se refere a Stieg Larsson, o criador da série que só começou a ser lançada em 2005, um ano depois da morte do autor, aos 50 anos, de infarto fulminante. Ele planejava uma sequência de dez livros, mas deixou prontos só os três primeiros. Escolhido para continuar a obra, Lagercrantz conseguiu construir mais uma trilogia.

"Todo mundo pergunta qual foi a minha reação ao receber o convite. Claro que fiquei assustado. Mas isso foi só no começo, depois fiquei mais assustado ainda!" Ele diz que o desafio de escrever histórias com personagens criados por outra pessoa é só uma parte da intimidação que sentiu. "Escrever uma série best-seller tem um lado secreto, de fazer reuniões sem que ninguém saiba, de manter sigilo total sobre o que está escrevendo. Tem o assédio da mídia e dos fãs, loucos para saber o que vai acontecer com seus personagens queridos. Não estava acostumado com nada disso."

Lisbeth e Blomkvist não cativaram o autor logo de cara. "Eu fui me familiarizando com eles. Eu reli, reli, reli e reli os livros e as notas de Larsson. Convivi com uma preocupação dupla, que era não transformá-los em algo diferente do que Larsson imaginara, mas sem ficar preso a uma cópia dos primeiros livros."

Lagercrantz acha que chegou ao sexto livro dando sua versão de Lisbeth. Para encerrar a saga da hacker que faz justiça se vingando de estupradores de modo bem agressivo, ele centrou o foco da história final no confronto definitivo entre Lisbeth e sua irmã gêmea, Camilla, que herdou os negócios escusos do pai.

"Não posso dar spoilers, claro, mas vou dizer uma coisa que serve para as duas: não é fácil matar alguém do mesmo sangue", diz o escritor, em debochado tom solene. No livro, Lisbeth está em Moscou, buscando o acerto de contas com Camilla, quando recebe um pedido de ajuda de Blomkvist. O jornalista investiga a morte de um sem-teto que, talvez, tenha ligação com o ministro da Defesa da Suécia.

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O escritor David Lagercrantz - Divulgação

Mais uma vez, crimes e escândalos políticos se misturam numa trama de "Millennium". A complexidade dos enredos pode indicar que Lagercrantz é um escritor de método rigoroso, daqueles que se cercam de centenas de anotações. "Não, nunca tomo notas. Vou escrevendo, o texto vai ganhando corpo e vou aumentando aqui, mudando ali. Claro que existe um mínimo de pesquisa para checar dados, mas a trama cresce na minha mente."

Ele acha que a experiência como jornalista policial aproxima seus textos de uma certa realidade, de entender até onde podem chegar os criminosos em sua crueldade. Lagercrantz reconhece que nos últimos anos vários autores nórdicos surpreenderam com livros bem violentos. Uma lista que tem, entre outros, o norueguês Jo Nesbo, o dinamarquês Jussi Adler-Olsen, o islandês Arnaldur Indridason e uma turma de suecos que inclui Henning Mankell, Camilla Lackberg, Liza Marklund e "Lars Kepler", este o pseudônimo do casal Alexandra e Alexander Ahndoril.

"Acho que Larsson foi uma espécie de Borg para essa turma toda", sugere Lagercrantz, lembrando Bjorn Borg, primeiro sueco a se destacar no tênis mundial, nos anos 1970. "Depois de Borg, outros suecos foram até o topo do tênis, como Mats Wilander e Stefan Edberg. Larsson mostrou o caminho para os outros." O escritor insiste nas comparações com o mundo esportivo. "Acho que não adianta teorizar muito. É assim: vocês, brasileiros, revelam jogadores de futebol. Nós, suecos, escritores de romances policiais."

Lagercrantz vai continuar no gênero. Já assinou contrato para três livros, que devem começar a sair no final do ano que vem. "Agradeço demais a Larsson, Lisbeth e Blomkvist, mas não dá para ficar muito tempo com os personagens de outro autor."

O escritor diz que Lisbeth Salander é uma personagem atraente demais e que talvez retorne em mais livros, com outros autores e fora da série. E ele diz ter gostado muito das adaptações de "Millennium" para o cinema.

Na Suécia, foram rodados filmes para a primeira trilogia da série, com Noomi Rapace interpretando a hacker. Nos Estados Unidos, foram duas produções, do primeiro e do quarto livro, com atrizes diferentes —"Os Homens que Não Amavam as Mulheres", de 2011, com Rooney Mara, e "A Garota na Teia de Aranha", do ano passado, com Claire Foy.

"Gosto de todas, mas adorei Claire Foy como Lisbeth. Gostaria de ver outros filmes com ela", diz Lagercrantz. Os dois últimos livros que fez com a personagem, "O Homem que Buscava Sua Sombra" e este "A Garota Marcada para Morrer", devem chegar às telas.

 

Cinco vezes Lisbeth

Stieg Larsson - A personagem dos três primeiros livros é misteriosa, desconfiada e amargurada

David Lagercrantz - Os livros seguintes exibem uma Lisbeth com mais habilidades atléticas, como James Bond

Noomi Rapace - A atriz sueca faz a mais vulnerável das versões

Rooney Mara - A americana cria uma Lisbeth mais sedutora. É a versão mais hollywoodiana

Claire Foy - A britânica faz a versão mais fria de Lisbeth, que foi aclamada pelos críticos

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