Descrição de chapéu The New York Times Cinema

Estúdio de Igreja mórmon cresce como uma mini-Hollywood nos EUA

Seja na Jerusalém cenográfica ou numa série que reproduz cenas da Bíblia, há sempre uma reza antes das filmagens

Elizabeth A. Harris
The New York Times

No silêncio pesado do deserto do estado americano de Utah, depois de deixar para trás as plantações de alfafa e frutas, o estacionamento de trailers e uma grande fazenda de pecuária, os domos de Jerusalém se erguem por sobre a grama esparsa.

Distante da estrada, esse labirinto de becos a céu aberto e pátios tem tamanho semelhante ao de dois campos de futebol e representa uma visão incomum de construções em pedra calcária no limite das montanhas Rochosas do Utah. O local recebeu Maria e José, João Batista e Jesus, além de Lehi, Amulek e Alma, a Jovem.

Estamos falando da Motion Picture Studio South Campus, propriedade da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

O cenário que representa Jerusalém é parte da substancial divisão de cinema e TV da igreja mórmon, que conta com produtores, editores e artistas de animação que trabalham em período integral e com um estúdio completo, repleto de áreas para filmagem, ilhas de edição e cenários que simulam casas americanas do século 19.

A igreja é parte importante do ecossistema do cinema e televisão no norte do Utah, que inclui um pequeno mundo de filmes independentes que atendem ao mercado mórmon e à BYUtv (parte da Universidade Brigham Young, também afiliada à igreja).

Há também unidades de produção de comerciais, televisão e cinema convencionais que realizam suas produções no estado por conta de um generoso programa de benefícios fiscais e de sua proximidade em relação a Los Angeles.

Tudo isso representa uma espécie de pequena Hollywood nas montanhas. Para os 7 milhões de mórmons dos Estados Unidos —6,7 milhões de acordo com a igreja—, isso também é uma resposta a uma cultura que frequentemente não fala seu idioma e uma maneira de reforçar valores conservadores que os mórmons não encontram na maioria das produções de entretenimento popular.

Aqui, os fiéis podem ver suas próprias histórias —filmes sobre figuras proeminentes da igreja ou uma série que reproduz cenas da Bíblia— sem a zombaria (às vezes gentil, às vezes nem tanto) à qual costumam ser submetidos, como no musical da Broadway "The Book of Mormon". E todas as produções têm censura livre.

set de filmagem
Cenografia do estúdio da igreja mórmon - Kim Raff/NYT

Ben Hoopes, um carpinteiro de fala lenta e voz melodiosa, constrói cenários em Utah. Em dezembro, ele criou o cenário para um concerto de Natal da igreja mórmon. Depois preparou os cenários de um dos programas de entrevistas produzido pela BYUtv, antes de começar a trabalhar na cenografia de "High School Musical", uma série da Disney que é filmada na região.

Em seguida, começou a trabalhar no mais recente dos grandes projetos da igreja: uma série de vídeos que visualizam (sem dramatizar) os episódios do "Livro de Mórmon". Os episódios começaram a ser veiculados em 20 de setembro.

Em uma manhã ensolarada de setembro, Hoopes estava em um dos cenários da igreja perto de Goshen, reparando as muralhas de "pedra calcária" depois de diversos dias de filmagem do "Book of Mormon Videos".

A Jerusalém cenográfica (ou Belém, ou Mesoamérica —o que quer que a igreja precise) tem uma base de concreto e estruturas de madeira, mas a fachada é feita de isopor revestido de estuque e depois pintada de cor de areia. Pássaros gostam de bicar o estuque.

Há toda uma comunidade de membros da equipe técnica, diretores e produtores que, como Hoopes, ganham a vida com trabalho freelancer em Utah. "Sempre tive muito trabalho por aqui", disse Chantelle Squires, diretora e produtora radicada no Utah que trabalhou com a igreja mórmon, com a BYUtv e em filmes independentes locais. "Sempre me pareceu que não existia motivo para sair daqui."

Uma câmera estava voltada para um grupo de mulheres que dançavam, usando saias largas que chegavam aos tornozelos e lenços de cabeça, em uma concessão amena à sedução. Outra estava fixa no rei Noé, que estava bebendo vinho e flertando com suas concubinas, tudo isso sob um chapéu complicado.

filmagem
Filmagem do projeto 'Book of Mormon Videos', produzido em um estúdio da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias - Kim Raff/NYT

Um produtor chamado Aaron Merrell, que trabalha em período integral para a igreja, estava lá, com uma cópia bem desgastada do Livro de Mórmon no colo. A inscrição em cor forte na lombada do livro dizia "temporada três".

Merrell estava de olho no texto das escrituras mórmons, durante uma filmagem do "Book of Mormon Videos"; o papel dele era garantir que a ação respeitasse o material original.

A igreja ensina que, no começo do século 19, seu fundador, Joseph Smith, encontrou placas de ouro marcadas por inscrições, em uma colina perto de Palmyra, Nova York, a cidade em que ele vivia. Smith traduziu as inscrições para o inglês, criando o "Livro de Mórmon".

Entre outras proclamações, o livro dispõe que Jesus Cristo foi parar na América, depois de sua ressurreição. O livro distingue os santos dos últimos dias das demais denominações cristãs, que até hoje veem essa fé relativamente nova como suspeita ou como apostasia.

Os vídeos do "Book of Mormon Videos" estão sendo subidos para o YouTube (em porções fáceis de digerir de dois minutos cada uma), para que todos que assim quiserem possam vê-los.

E a igreja espera que até mesmo pessoas não religiosas mas curiosas sobre a fé mórmon venham a assistir aos vídeos. A igreja também produz vídeos de autoajuda e inspiração sobre assuntos como vícios, bullying e como se recuperar depois de descobrir que seu cônjuge assiste a vídeos pornográficos, tudo isso disponível no YouTube.

Há vídeos para uso em seus templos, bem como vídeos educativos sobre tópicos como o procedimento dos pregadores para proteger crianças contra abusos, dicas sobre dietas, higiene e exercício e até mesmo como cuidar do estacionamento de uma igreja.

"O objetivo de todas as nossas produções é criar mensagens que convidem todos os filhos de Deus a seguir Jesus Cristo", disse Scott Smiley, diretor de filmes e vídeos da igreja. "Isso vai de vídeos sobre manutenção de estacionamentos até vídeos de estudo da Bíblia e do Livro de Mórmon."

"Na verdade, o que isso significa é que devemos agir como Cristo agiu", ele disse.

set de filmagem
Um Livro de Mórmon no set de filmagens - Kim Raff/NYT

​Randy Astle, autor de "Mormon Cinema: Origins to 1952", disse que o primeiro trabalho cinematográfico patrocinado pela igreja foi um filme mudo chamado "One Hundred Years of Mormonism", produzido em 1913, e que esses esforços vêm sendo mantidos de 1953 para cá.

Agora, com filmes e vídeos como parte regular da instrução religiosa e das atividades culturais da igreja, "eles permeiam todos os aspectos da cultura mórmon", diz o crítico.

"A igreja também se posiciona como uma instituição que ofereça alternativas a Hollywood." Ao oferecer conteúdo próprio e afastar seus integrantes do que ela vê como problemático, é como se dissesse aos seus fiéis que "vocês precisam procurar bom conteúdo moral", ele disse.

Mas as produções da igreja, ele diz, dificilmente serão elogiadas efusivamente pelos críticos de cinema.

"Os filmes que vemos como clássicos nos desafiam", disse Astle. "Investigam assuntos escuros, desafiam nossas crenças. Quando a igreja os faz, as pessoas que pagam para assistir não querem isso. Querem que os filmes afirmem suas crenças. Que respondam perguntas, não as proponham."

A produção técnica é impressionante, porém, ele disse, e os filmes às vezes se parecem com filmes de Hollywood.

Mas no estúdio fica claro rapidamente que não se trata dos estúdios de Los Angeles. Para abrir cada dia de rodagem, a equipe e o elenco se reúnem em torno das câmeras ou dos monitores para rezar.

E todos oram do mesmo jeito porque praticamente todas as pessoas nas produções da igreja são da Igreja de Jesus Cristo do Santos dos Últimos Dias. Merrill, o produtor da igreja, disse que exceções podem ser aceitas se uma determinada especialidade precisar ser preenchida, mas que "em geral a preferência" é de que os membro das equipes sejam membros da igreja. 

As pessoas em boa situação recebem uma chamada "recomendação de templo", um cartão que atesta seu status —uma porta-voz disse que existem isenções para organizações religiosas que tornam legais essas preferências na contratação.

Becky Swasey, gerente do departamento de cabelo e maquiagem no projeto "Book of Mormon Videos", trabalhou em filmes feitos para o canal AMC e de Francis Ford Coppola. Ela disse que o senso compartilhado de missão e propósito cria um clima especial no estúdio. Mas as filmagens parecem incomuns também de outras maneiras.

"As pessoas não falam palavrões, tenho que cuidar do que digo", ela afirmou. "Não há café ou chá. E as pessoas tendem menos ao estrelismo."

Tradução de Paulo Migliacci

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