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Cinema

Filme espanhol bancado pelo próprio diretor expõe falta de sutileza

Uma das chaves para fazer uma produção tão modesto, além de uma equipe enxuta, é ter o mínimo de locações possível

Francesca Angiolillo

O Enigma da Rosa

  • Classificação 16 anos
  • Elenco Ramiro Blas, Pedro Casablanc e Ignacio Fernández
  • Produção Espanha, 2017
  • Direção Josué Ramos

A sutileza não é valor comum nos tempos que correm. “O Enigma da Rosa”, diga-se desde já, é prova dessa asserção.

O longa de estreia do espanhol Josué Ramos foi realizado em dez dias, com um baixíssimo orçamento —15 mil euros, cerca de R$ 69 mil, do bolso do diretor. 

Para termo de comparação, um capítulo de novela das nove da Globo, em 2017, quando “O Enigma da Rosa” foi filmado, custava em média R$ 200 mil. 

A decisão de escrever e bancar uma história simples foi a resposta de Ramos a produtores que o deixaram na mão um mês antes de entrar em set para dirigir outro longa.

Uma das chaves para fazer um filme tão modesto, além de uma equipe enxuta, é ter o mínimo de locações possível.

Um “huis clos”, drama a portas fechadas, foi a solução encontrada, de resto adequada à premissa asfixiante —o desaparecimento de Sara, 10, filha caçula do casal Oliver e Julia, pais também do jovem Alex. 

Desesperada, sem notícias da polícia, a família recebe uma estranha missiva. Nela, uma pessoa que diz ter Sara pede para visitá-los de madrugada, em segredo. Se cumprirem suas regras, a criança volta. Se não, nunca mais a verão.

Um sequestrador que, em vez de resgate, quer conversar. O que poderia pretender? Informações, chantagem, vingança? É atrás de um segredo sujo, a ser revelado antes do raiar do dia, que está o indesejado visitante.

Ora, segredos todos temos e, se possível, os queremos bem guardados, seja para impedir a vergonha própria ou o sofrimento alheio. Esse benefício o algoz não dará à família. É um argumento clássico —ou, dito de outra forma, trilhado. 

Talvez suspeitando que pudesse arrancar de um suposto previsível atuações idem, Ramos escreveu para cada ator um roteiro, com o mínimo de informação. Sua expectativa era arrancar, a cada sequência, reações realistas. 

Mas o que pode dar o elenco diante de proposições frágeis e baseadas em clichês morais? Sutileza é que não. 

Porém, se os tempos são de pouca agudeza, como dito ao princípio deste texto, não devem faltar, lá fora, audiências sequiosas por verem na tela fábulas que, como esta, reafirmam seus temores e desejos mais crus.

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