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Cinema

Filme sobre transtorno de personalidade borderline fica entre o que é e o que poderia ser

Como os personagens, filme é capaz de ser intenso, desajeitado e inesperado

Inácio Araujo

Eu Sinto Muito

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Wellington Abreu, Marcelo Pelucio e Rocco Pitanga
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Cristiano Vieira

“Eu Sinto Muito” começa por ser um filme estranho já no assunto que pretende abordar: as pessoas com transtorno de personalidade borderline. Para citar algumas definições médicas, trata-se de pessoas com alta instabilidade emocional, tendências autodestrutivas, variações de humor etc. De início, uma jovem começa a falar dirigindo-se à câmera, começa a rir compulsivamente, pede para interromper a filmagem e começar outra vez.

Somos logo apresentados a algumas personagens (ficcionalizadas): para começar, Isabelle (Juliana Schalch), capaz de passar de momentos de ternura extrema à rejeição radical a seu namorado; uma intensa capacidade de contenção profissional (é enfermeira) e idêntica capacidade de produzir o caos em sua vida pessoal.

Depois aparece a policial Marta (Carolina Monte Rosa, que tem uma estranha e simpática semelhança com Barbara Steele), casada com um pintor. Eficiente no trabalho, Marta sofre com problemas muito semelhantes: ora se mostra apaixonada pelo pintor, ora o acusa de ser um vagabundo (o que não é tão surpreendente, arte e polícia não costumam se dar bem). Mas o marido suporta tudo tenazmente.

A policial chega a ter um enfrentamento com um jovem, o terceiro borderline da história, que anda armado e, embora pareça ter tendências homicidas, é na verdade alguém com propensão acentuada ao suicídio.

Saberemos depois que um cineasta (Rocco Pitanga) pretende fazer um documentário a respeito deles, mas encontra certa dificuldade. Lida com pessoas dificilmente abordáveis e, pior, que têm tudo a perder no caso de seu problema vir a público.

Essa apresentação um tanto torta pode predispor quem vê o filme a desenvolver certa má vontade. Porém, o fato é que a exposição incomum deixa os fatos um tanto no ar. Por que se salta de uma história a outra, por exemplo? Cria-se certa curiosidade: quem são eles, o que acontecerá afinal aos personagens do filme?

Essa evolução aos saltos (que pode por vezes produzir elipses audaciosas) faz o interesse do filme. Seu ponto fraco é a evolução das personagens propriamente ditas. Todas elas têm um desenvolvimento um tanto unidimensional, o que engendra repetições ociosas dos mesmos atos e o uso de uma música bem pobre para encobrir esses vazios.

Em contrapartida, existe um bom aproveitamento da fotogenia de Brasília nos exteriores. Em poucas palavras, um filme que fica entre o que é e o que poderia ser, que interessa mais pelo que se apontaria habitualmente como defeitos. Enfim, um filme borderline como seus personagens. Como eles, capaz de ser intenso, desajeitado, inesperado. Mas por isso mesmo nunca desprezível (apesar da direção tão irregular também dos atores).

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