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'Irmandade' é boa obra que parece ter perdido a chance de fazer história

Fraca, nova série da Netflix sobre facção criminosa peca por falta de adrenalina e ousadia

Rogério Pagnan
São Paulo

Irmandade

  • Quando a partir de 25 de outubro
  • Onde Netflix

A série ficcional “Irmandade”, que estreia no próximo dia 25 na Netflix, tem quase tudo que se exige de uma boa série policial, como trilha sonora, imagens e elenco de alta qualidade. Falta-lhe, contudo, aquilo que mais se espera de uma história ambientada no submundo de uma facção criminosa: fortes emoções.

Nos seis, dos oito, episódios vistos da primeira temporada, são raros os momentos de adrenalina. É possível listar três sequências de maior tensão, mas que somam cerca de 15 minutos em meio a cinco horas. De resto, não há quase nada nela que consiga provocar risos, choro, angústias ou um coração acelerado.

A fragilidade do roteiro também faz a protagonista (Naruna Costa) parecer ingênua demais, principalmente para uma “advogada do Ministério Público” (profissão, aliás, inexistente), e provoca situações inverossímeis, como a facilidade com que pessoas conseguem acessar uma presídio de segurança máxima, sem conhecimento ou autorização do preso.

Tudo isso não deveria ser problema para uma trama que mostra Cristina, uma “advogada honesta e dedicada” que é forçada pela polícia a virar informante e trabalhar contra o irmão, Edson (Seu Jorge), um chefe de facção como Marcola.

A menção a Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, não é fortuita. Ambientada em 1994, a história de “Irmandade” é uma clara referência ao PCC, mas a inspiração está mais nas regras adotadas pelos seus membros, como batismo de membros e tribunais do crime, e quase nada da própria história do maior grupo criminoso do país.

O nome da série nos leva a imaginar que pudesse ser mais da segunda opção, o que poderia ter sido, talvez, a melhor escolha e não uma versão piorada de "Carcereiros".

Mesmo diante de problemas, a série não pode ser considerada de todo ruim. Há boas coisas nela, como a ambientação dos anos 1990 (quase perfeita) e as interpretações de Seu Jorge e Pedro Wagner (Carniça), que só por elas valem a pena dar o play.

O chefão Edinho ficaria ainda mais realista se não tivesse o hábito de bater no rosto de outros presos e deixasse de usar a palavra “porra” no parlatório da prisão, ambos comportamentos não muito bem vistos no sistema prisional —mas isso é um detalhe.

Por estarmos em momento polarizado, é bem provável que a obra receba alguma crítica de integrantes da direita quanto à visão romântica sobre a facção criminosa, por tratar o surgimento do grupo como um ato de resistência ao “sistema opressor”.

Como a história remete ao surgimento do PCC, não há nenhum absurdo nisso. Há consenso de a quadrilha nasceu como uma espécie de sindicato do crime, em benefício da “classe”, embora tenha se transformado atualmente em uma “empresa” de venda drogas.

A não ser que surja um final genial e surpreendente nos dois últimos capítulos, o que parece muito pouco provável, “Irmandade” é uma boa obra da dramaturgia brasileira que parece ter perdido a chance de fazer história.

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