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Livro 'Afrotopia' busca explicar motivos pelos quais o continente ficou para trás

Felwine Sarr expõe dados históricos e atualiza literatura pós-colonial da África em livro

Fábio Zanini
São Paulo

Seis décadas se passaram desde o início do maior processo de descolonização da história, que deu origem a dezenas de países africanos. Mas a receita para o desenvolvimento do continente ainda é gestada nas capitais ocidentais e, mais recentemente, na China. 

Para Felwine Sarr, 47, economista e escritor senegalês, foi proposto aos africanos, com a cumplicidade de intelectuais do próprio continente, uma espécie de “prêt-à-porter social”. Ou seja, parâmetros externos para definir o que seria a felicidade africana.

O conceito e suas implicações são centrais em seu livro “Afrotopia”, que está sendo lançado no Brasil pela editora N-1. 

Sarr, também músico de reggae e folk africano, é membro de uma geração que atualiza um dos movimentos intelectuais mais fortes da África nas últimas décadas, a “négritude”. 

Estabelecido no pós-guerra, misturou-se à luta pela independência africana e por isso carregou nas tintas do nacionalismo e na criação de uma identidade negra em oposição à do europeu opressor. 

Um de seus expoentes, o poeta Léopold Senghor (1906-2001), foi presidente do Senegal durante duas décadas.

Aquela geração, diz Sarr, lutava por liberdade. A atual, define ele de forma algo poética no livro, tem outro desafio: “Livrar-se do odor persistente do pai”. Em resumo, buscar caminhos próprios que não sejam apenas uma cópia do que se pratica em outras partes do mundo, muitas vezes importada com todos os seus defeitos, como a destruição ambiental e o consumismo desenfreado. 

Para isso, defende ele, é necessário haver uma mudança de mentalidade. “Os jovens africanos têm uma má imagem de si próprios, pois isso foi sempre dito a eles pelas lentes do economicismo, de que você está para trás na comparação com o Ocidente. Há muita riqueza, capacidade e frescor na sociedade africana, mas isso não é considerado um indicador de felicidade”, diz ele à Folha.

A formação econômica do autor se manifesta em dados históricos que buscam explicar por que o
continente ficou para trás. 

No livro, o impacto do tráfico negreiro fica ainda mais dramático ao ser quantificado. No século 16, a África tinha 20% da população mundial, parcela que baixou para 9% no fim do ciclo escravagista, 300 anos depois. O esvaziamento demográfico foi fundamental para retardar o desenvolvimento africano, argumenta Sarr.

Há também anedotas que põem em contexto a premissa de que o continente sempre foi associado à miséria e à instabilidade.

Ao contrário, são inúmeros os exemplos de referências à riqueza africana, da suntuosa corte da rainha Sabá, que chamou a atenção do rei Salomão, à saga do imperador do Mali, Cancam Muça, distribuindo ouro pelo Oriente Médio no século 14.

Tradicionalmente, as análises que são feitas sobre a África, sempre sob a ótica ocidental, obedecem a um movimento pendular de exageros de euforia e pessimismo. Ou a África está progredindo a olhos vistos ou
está entrando numa espiral de pobreza e violência.

“A tentação é grande de ceder ao catastrofismo ou a um otimismo ingênuo, seu duplo invertido”, escreve o autor.

Ele pende para um otimismo cauteloso, sobretudo ao apontar a revolução silenciosa que está em curso na educação, com índices de presença escolar que se aproximam de 90% entre crianças e adolescentes. Da mesma forma, despencou nas últimas décadas o número de ditaduras, golpes de Estado e guerras civis. 

Mas Sarr alerta para um passivo de incompetência administrativa e corrupção que afetou o continente desde a descolonização. 

Nisso, a geração dele se diferencia da anterior, por ter mais facilidade em aceitar que parte dos problemas africanos é autóctone. Não se pode sempre culpar a dupla praga da escravidão e do colonialismo, afinal.

“A maioria dos governos pós-independência fracassou, adotando péssimas escolhas econômicas e políticas, alguns deles pilhando as riquezas de seu país em benefício do próprio clã. [...] Eles não são, no entanto, responsáveis pelas condições iniciais que lhes foram legadas pela história”, escreve.

Morador de Dacar, capital do Senegal, Sarr é autor de nove livros e co-organizador, junto com o intelectual camaronês Achille Mbembe, de um fórum de autores para discutir a sociedade africana, o Ateliês do Pensamento.

A chave para a África deixar o ciclo de instabilidade, defende o autor, não é transformar suas cidades em cópias de metrópoles do mundo desenvolvido. É investir em educação, cultura, valores democráticos e uma relação aberta, mas equilibrada com o resto do mundo.

Só assim se pode chegar à “Afrotopia” do título, a utopia de um continente que não precisa alcançar ninguém. “Não precisa mais correr nos caminhos que lhe indicam, mas sim caminhar com presteza na trilha que escolher para si”, escreve.
 

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