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Cinema

Longa traz contradições entre comunismo totalitário e capitalismo não menos controlador

No filme chinês 'Viver para Cantar', protagonista lidera uma trupe de teatro cuja sobrevivência entra em risco

Viver para Cantar

  • Quando 18/10, às 17h10 (Petra Belas Artes - sala Villa Lobos); 19/10, às 19h20 (Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca – sala 2); 20/10, às 16h50 (Cinearte 1); 25/10, às 15h45 (Cinesesc); 29/10, às 21h45 (Cinesala)
  • Onde 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
  • Classificação 16 anos
  • Produção China/França/Canadá, 2019
  • Direção Johnny Ma

Um olhar hiperexpressivo sob a máscara de ópera chinesa é a primeira, mas não exclusiva, imagem de impacto de “Viver para Cantar”. Se a maquiagem estilizada nos projeta num universo de fantasia e de beleza, a sucessão de casas demolidas à beira da estrada disparam os sinais de um fim próximo.

Em seu segundo longa, Johnny Ma narra a destruição inevitável para a construção da novidade, o declínio de uns para a ascensão de outros. Seguindo o caminho traçado por Jia Zhang-ke, Johnny Ma filma como quem tenta evitar o apagamento.

A protagonista, Zhao Li, lidera uma trupe de teatro e dança cuja sobrevivência entra em risco quando ela recebe a notificação que deve desocupar o espaço onde o grupo vive e se apresenta. Ela se esforça para convencer o administrador local a proteger a atividade, enquanto vê a modernidade corroer uma forma de expressão que é também modo de vida individual e coletivo.

O resumo sugere um drama fiel ao tradicionalismo e uma visão desencantada do presente. Mas é a outra tradição chinesa, mais persistente, à qual o longa se filia, a que valoriza a capacidade realista do cinema, seu poder de capturar o impacto das transformações no chão da vida.

A posição de Zhao Li permite ao filme desvendar as contradições entre liberalismo econômico e liberdade individual, entre a China do comunismo totalitário para a do capitalismo não menos controlador e excludente.

No papel de líder, Zhao Li protege, mas também controla o grupo, como mostra sua relação com a jovem sobrinha que, atraída pela sereia moderna, tenta escapar. Por outro lado, Zhao Li tem de se curvar ao poder local para tentar preservar a atividade.

Esta encruzilhada prolonga-se no filme nas articulações contrastadas entre, por exemplo, o teatro mambembe e a boate, entre os velhos da plateia da atração tradicional e os jovens movidos a hiperestímulos.

As contraposições confirmam, afinal, a incapacidade de a tradição ser preservada em um mundo no qual o passado é considerado entulho. Sendo assim, só resta celebrar a fantasia numa espécie de último ato em meio às ruínas, numa afirmação final que sobreviver é insistir.

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