Descrição de chapéu Cinema

Marco Nanini vive septuagenário gay em busca de amor em drama nacional

Diretor Armando Praça critica Ancine, que retirou apoio para que 'Greta' participasse de mostra LGBT

Leonardo Sanchez
São Paulo

Há cerca de um mês, Armando Praça viu seu filme chamar atenção —mas não pelos motivos que gostaria. Após ser exibido em Berlim e de vencer três prêmios no Cine Ceará, “Greta” perdeu uma ajuda de custo que havia sido liberada pela Ancine para que participasse de mais um festival.

Seriam R$ 4.600 para despesas com um voo rumo a Portugal, onde o longa seria exibido no Queer Lisboa, dedicado a títulos LGBTs. Ao saber do enrosco, a Secretaria de Cultura do Ceará entrou em contato com a produção e cobriu as despesas.

“Nossa, que bonito isso”, comenta o ator principal, Marco Nanini, ao saber da notícia, em conversa com o diretor e a reportagem dois dias depois do fim do Queer Lisboa.

Apesar do final feliz, Praça ainda se incomoda com a reviravolta e é incisivo. “Usamos a palavra censura para o que houve. Existe um desinteresse para que filmes como esse cheguem ao mercado internacional, o que é um absurdo, porque eles carregam nossa língua, nossos costumes e nossas histórias.”

Em “Greta”, Nanini interpreta o enfermeiro septuagenário Pedro, que tem na transexual Daniela (Denise Weinberg) a única figura capaz de aplacar sua solidão. Mas ela está muito doente e, para lhe garantir um leito no hospital em que trabalha, o protagonista ajuda um homicida a fugir de lá.

“Esse personagem chega nessa idade com uma fonte de ternura muito grande, mas que é reprimida, porque ele não tem com quem compartilhar isso”, afirma o ator.

Movido por esse sentimento, Pedro acolhe o criminoso em sua casa e eles logo se envolvem. Na cama, pede para ser chamado de Greta Garbo.

A trama é uma adaptação da peça “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Mello, que fez sua estreia no Rio de Janeiro nos anos 1970. “Eu gostava do texto, mas só o vi montado em 2008, quando me incomodei com os personagens caricatos”, diz Praça.

“Foi então que decidi fazer uma adaptação, saindo da comédia e indo para o melodrama, porque eu não achava mais correto rir do desejo absolutamente legítimo de amar e ser amado dos personagens.”

Foram dez anos até que “Greta” pudesse sair do papel. Quando finalmente captou o R$ 1,5 milhão de orçamento, Praça convidou Nanini, há quase dez anos longe do cinema, para protagonizar o filme.

Antes disso, em 2011, o ator já havia quebrado a imagem de pai da “família tradicional brasileira” que ganhou graças ao seriado “A Grande Família”. Em entrevista, assumiu ser gay e lamentou a crescente violência contra LGBTs no país.

“Naquela época aconteceu uma coisa que foi um sinal: um grupo de adolescentes agrediu um gay com uma lâmpada na cabeça. Uma covardia. Eu pensei: ‘a situação vai piorar e eu não posso deixar de me posicionar’. Agora veio ‘Greta’ e eu não podia dizer não, porque é um filme muito delicado.”

Praça ressalta que a trama serve de contraponto à perseguição da população LGBT no país. “Imagina uma figura de 70 anos, homossexual, no Brasil. Ele representa uma geração de sobreviventes”, diz. “Mas Pedro tem uma série de outras questões que o tornam invisível.”

Cineasta e ator destacam que a homossexualidade não é a única discussão posta à mesa por “Greta”, que trata ainda da velhice e de outros grupos relegados ao esquecimento.

“O personagem está em uma situação de exclusão muito triste e talvez muito comum. Não somente para enfermeiros gays, mas para várias criaturas com mais de 70 anos e que são tratadas como inúteis”, diz o ator de 71 anos. “Então ele representa uma classe de excluídos e, nessa solidão imensa, ele busca o amor.”

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