Descrição de chapéu

Multiartista Patricio Bisso era ferino, bocudo, inteligente e culto

Sua morte aos 62 anos deixa a gente mais triste porque ele era muito engraçado

Joyce Pascowitch
São Paulo

Dizer que as pessoas mais ousadas, criativas e diferenciadas estão todas indo embora é meio patético. É patético mas é verdade.

A morte de Patricio Bisso aos 62 anos deixa a gente mais triste porque ele era muito engraçado.

Era ferino, bocudo, inteligente, culto. Patricio era parte de uma turma que incluía Antonio Bivar, Vania Toledo, Telmo Martino, Cesar Giobbi e tantos outros mais.

Com seus desenhos cheios de atitude, Patricio ilustrou durante um bom tempo a coluna que eu assinava na Ilustrada, entre 1986 e 1999. Mas, na verdade, eu o conheci antes, lá em 1980.

Patricio fazia TV, fazia teatro, escrevia, desenhava, era transformista e o que mais pintasse. Como a sexóloga Olga del Volga, seu maior hit, ele transgrediu bem mais que Fernanda Lima em "Amor e Sexo". Muito mais.

Tempos em que tudo podia, todo mundo transava com todo mundo e a vida seguia, sempre animada. Não tinha rede social e o dinheiro não contava tanto. O que valia era ser criativo, transgressor, único. E se divertir acima de tudo.

Também com Olga del Volga ele virou famoso na TV, cobriu até camarotes de famosos no Carnaval do Rio. Com seu microfone e figurinos femininos, sempre criados por ele mesmo, mirava o personagem escolhido e perguntava: "Você é alguém?".

Sim, porque naquela época começava o culto à fama: a pessoa simplesmente tinha de ser alguém— tempos premonitórios aqueles. Mas o que interessava é que todo mundo se divertia muito, inclusive ele.  

Apresentava-se em pequenos teatros, em espaços alternativos, no Madame Satã, inferninho mega cool daqueles tempos.

Nos últimos anos, Patricio estava morando em Buenos Aires com sua mãe, Elvira, uma mulher chique e fina. Mas Patricio se fazia presente principalmente pelo Facebook.

Nos anos 1980 e inicio dos 1990, ele foi capa duas vezes da revista alternativa em que eu trabalhava, na Around e na A-Z, editadas sempre por Antonio Bivar e em períodos alternados pelo português José Nogueira, pelo escritor Caio Fernando Abreu e pelo crítico Nelson Pujol Yamamoto. Que time era ​esse? Só gente que chacoalhava as estruturas, que fazia a diferença, como o próprio Patricio.

Ele deve estar bem puto de ter ido embora. E a gente, puta porque ele foi. 

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