Descrição de chapéu

Nina Horta gostava de fazer comida simples para gente chique

Seus textos revelam a capacidade de evocar e transmitir cheiro, gosto, temperatura e sabor

Luiza Fecarotta
São Paulo

Nina Horta gostava mais de comida do que de flor. Um mercado de flores é bonito, dizia, mas preferia ver brócolis, laranjas, maçãs. "A beleza das flores é gratuita, comida é coisa útil." Até as gardênias ela passou a achar decadentes e excessivas pois não se podia fazer omeletes com elas.

Nossa cronista-mor, morta neste domingo (6) em decorrência de infecção generalizada, traduziu experiências sensíveis e sensoriais em narrativas meio proustianas, que reconstroem as memórias pelos cheiros, recuperam a "história das pequenas coisas". Todo mundo quer reminiscências, dizia. 

Contou-me que nunca aprendeu o melhor jeito de criar, mas que sabia direitinho como deveria ser. "Você lê qualquer coisa, sem nada a ver com comida, depois vai tomar um banho. Banho de banheira. E, de repente, ploft, sai o assunto. Você relaxa e o inconsciente trabalha."

Com ela, porém, não fluía assim. Ia escrever sobre arroz, lia três livros sobre o grão e, no fim, usava uma frase. "Lê, lê e sobra só um arroz, ninguém acha graça."

Ninguém acha graça? Nina Horta influenciou —e influencia, é constante— toda a geração de jornalistas de comida e cozinheiros leitores desde que começou a escrever no jornal. 

Estreou com uma coluna de receitas, "uma coluninha assim, receita de panquecas", nos anos 1980. "E quem quer escrever receita, né? Precisa ser muito burro para querer [risos], mas eu tinha esperança de mudar." 

Foi abismada com as bobeiras que lembrava com perfeição e narrava em suas crônicas que elevou a gastronomia a uma dimensão cultural mais ampla, afetiva, cotidiana –como em "Omelete de Amoras", em que o filósofo Walter Benjamin (1892-1940) conta a história de um rei muito poderoso, mas infeliz, que desafia o seu cozinheiro a reproduzir a receita que havia saboreado na infância.

Ainda que Nina tenha insistido na ideia de reencantamento alimentar —a comida como fonte de encanto, que você procura, gosta, se interessa e quer que o filho prove, explicava—, filosofava pouco quando estava com fome. Queria sobre a mesa a "comida que ninguém botava pensamento em cima, só comia e achava boa ou ruim". 

Nina pensava muito melhor por escrito. Se dizia "extremamente mal articulada" e recomendava: "Fiquem com os meus livros". A escritora desenvolveu um estilo literário particular para abordar a comida, aquilo que garante identidade a um grupo, a uma classe, que gera o sentimento de pertencimento ou de exclusão. 

Seus textos, ricamente descritivos, próximos ao leitor e com traços de oralidade, revelam a capacidade de evocar —e transmitir— cheiro, gosto, temperatura sabor. 

Nina Horta enxergava no ato de cozinhar um modo de se amarrar à vida com simplicidade. E replicava essa simplicidade num exercício ilimitado de rememorar o cotidiano. 

"A memória só acode subitamente, quase brutal, quando, ao se regar o jardim, por exemplo, pisa-se no tomateiro, o cheiro traz de volta a menina de tranças, frágil, nua, quase uma polpa trêmula. E, na página de um jornal, não há possibilidade de representar a força onírica e lírica de um tomateiro machucado." 

Mas ela transpunha, com prosa, poesia, onomatopeias (gafanhotos caramelados, croc croc; o tlim-tlim da louça), o tato, o olfato, a audição, a visão, o paladar. 

Ler receita, dizia, é o de menos. Nina conta uma receita como conta uma história. É preciso mesmo ler livros de arte —"sem querer, lá no fundo, você vai ter um Van Gogh, um Matisse te dando uma mãozinha". Ler romances —cozinheiros fazem feijoadas mais gostosas depois que vão à Flip.

Adorava foie gras, mas o que mais gostava era de fazer comida simples para gente chique. Colhia figos no pé para comê-los ainda mornos do sol; afastava os assuntos que não lhe traziam felicidade para preservar a alegria de suas manhãs com cheiro de jasmim; e, se pudesse escolher, morreria por um torresmo que desmancha como algodão doce, "lágrimas suaves de banha escorrendo pelo canto dos olhos". 

Da jabuticaba destacava a cor de luto, mas brilhante de vida --"talvez guarde as tristezazinhas de menina, quiçá os grandes pecados, mas sua carapinha transforma tudo numa alegria negra, doce, funda". A jaca, nem sabia direito o que era. "Um rinoceronte, um elefante que virou fruta?"

Que línguas você fala?, um dia perguntei a ela. "Que línguas eu leio, né? Porque falar, não falo bem nem português", respondeu. Pois meu colega Luiz Américo Camargo, autor de “Pão Nosso”, que Nina escreveu ser para sempre o "nosso melhor livro de pães", disse o avesso.

Nossa cronista-mor é uma "poliglota em português". "Domina o caipira, o caiçara o cosmopolita, o antigo, o pós-moderno." Sua referência não é sobre o manejo da gramática e da fonética. "Ela interpreta a alma e os apetites."

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