Descrição de chapéu Cinema

Novo filme de Bruno Dumont sobre Joana D'Arc troca o metal pela música eletrônica

O diretor francês já levou a personagem à tela duas vezes, a primeira foi em 2017

Bruno Ghetti
Cannes

O cinema tem um fascínio peculiar por Joana d’Arc. A heroína francesa, que no século 15 foi para a fogueira após tentar expulsar os ingleses da França (e depois virou santa), já inspirou mais de uma centena de produtos audiovisuais.

Só o francês Bruno Dumont já levou a personagem à tela duas vezes. A primeira foi em 2017, com “Jeannette: A Infância de Joana d’Arc”, contando os primeiros anos da Donzela de Orléans. Agora, retoma a personagem em “Joana d’Arc”, destacando seus momentos finais. Com tantas Joanas, qual o sentido de mais uma no cinema?

“É preciso dar modernidade a essa história universal”, disse Dumont à Folha, no último Festival de Cannes, em maio, quando o longa estreou fora da competição. “Joana é a mais espiritual das metáforas sobre a condição humana. É por isso que os cineastas tanto se interessam por ela. Teve uma vida cheia de misticismo. Minha tarefa é tornar esse mistério palpável, dar forma a ele.”

E é justo na forma como sua vida é revisitada que as Joanas de Dumont se diferenciam das demais. “Jeannette” era uma espécie de ópera-rock de fundo de quintal, com Joana cantando (seríssima) suas motivações religiosas enquanto fazia movimentos com o corpo com coreografias heavy metal.

Esteticamente, era tão experimental que colocava o espectador na embaraçosa posição de nunca saber se estava diante de uma obra-prima ou de uma fraude.

No novo filme, o francês volta a um estilo igualmente audacioso, só que agora com música eletrônica em vez do metal. É novamente uma aposta em uma inusitada mescla em que a sofisticação fílmica divide espaço com uma encenação simplória.

Se o longa por vezes sugere teatrinho de colégio, em alguns momentos atinge a excelência dos melhores dramas de tribunal. E a convicção com que Dumont expressa suas ousadias é sempre admirável —não fica muito distante da fé que a própria Joana d’Arc tinha em sua luta.

“O real, o histórico, não me interessam em absoluto. O que realmente importa é o que a história de Joana tem de universal. As atuações não são realistas justamente porque quero que o público jamais ache que está vendo algo histórico, algo que soe exatamente como aconteceu”, diz o diretor.

Prova disso: para a protagonista, escolheu uma garota de dez anos —sendo que, na época em que se passa o filme, Joana já tinha 19. É a pequena Lise Leplat Prudhomme, que interpretou a personagem criança em “Jeannette”. Segundo Dumont, a ideia inicial era escalar a amadora Jeanne Voisin, que tinha sido a Joana adolescente naquele mesmo filme.

“Mas ela mostrou reservas. Não quis cortar os cabelos, andar a cavalo... desisti. Aí a ideia de usar a pequena me apareceu. Ela encarna ainda melhor a inocência, a energia incontida. E o fato de ser tão fisicamente diminuta amplia o lado poético do filme”, diz.

De fato, a idade nunca impediu personificações convincentes da heroína. Em “O Martírio de Joana d’Arc” (1928), de Carl T. Dreyer, Maria Falconetti já tinha 35 anos, e Ingrid Bergman já beirava os 40 quando filmou “Joana d’Arc” (1954), de Roberto Rossellini. “Poderia até mesmo ser vivida por um garoto. É uma questão simbólica, não histórica”, explica Dumont.

O clímax do longa, a magistral sequência do julgamento, foi filmado na imponente catedral de Amiens, no norte da França. Ali, em meio ao elenco amador, surge um ídolo francês: o cantor Christophe, célebre nos anos 1960 com o hit “Aline”. Algumas das canções são assinadas por ele.

O roteiro adapta uma peça do escritor nacionalista francês Charles Péguy. “Pode ser um autor difícil, mas em forma cantada, fica mais palatável. Desde sempre, a música foi usada pela Igreja para ajudar pessoas mais simples a ter acesso a uma vida espiritual”, diz o cineasta, dando pistas sobre suas intenções musicais.

Pode até ser que, para alguns, a tentativa surta um efeito oposto, cortando qualquer chance de vínculo com o longa. Mas para quem embarca na aventura artística, a experiência é rica. Dumont mais uma vez prova que, criativamente, o cinema ainda é uma arte longe de se esgotar.

Joana d’Arc

  • Onde Mostra de SP: qui. (24), às 15h45, no Reserva Cultural (av. Paulista, 900); seg. (28), às 16h40, no Espaço Itaú - Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569); ter. (29), às 19h15, no Petra Belas Artes (r. da Consolação, 2.423); qua. (30), às 21h20, no Espaço Itaú - Augusta (r. Augusta, 1.475)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Lise Leplat Prudhomme, Annick Lavieville e Justine Herbez
  • Produção França, 2019
  • Direção Bruno Dumont

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