SPFW inicia edição morna e mais enxuta, mas atualiza discursos globais da moda

Apenas 26 marcas e estilistas devem cruzar as passarelas do evento paulistano

Pedro Diniz
São Paulo

Excluídas as edições itinerantes do passado recente, quando a temporada de desfiles paulistanos trocava de lugar como quem troca de roupa, sempre para ajustar calendários de lançamentos no varejo, a 48ª edição da São Paulo Fashion Week será a mais enxuta dos últimos anos.

Apenas 26 marcas e estilistas devem cruzar as passarelas montadas pela cidade nos cinco dias da SPFW, sendo as duas instaladas no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no parque Ibirapuera, as principais do circuito. Em tempos de bonança econômica e criativa, esse número chegava a quatro dezenas e seis dias.

A organização demorou a divulgar uma programação que, embora deficitária de nomes fortes da ala intelectual do evento, como Ronaldo Fraga e Flávia Aranha, conseguiu manter grifes de alcance, como a Cavalera, e trazer de volta a Ellus —cuja apresentação abre a semana neste domingo (13), no Farol Santander.

Curiosamente, a debandada se concentrou nas grifes diretamente atingidas pelo episódio da morte do modelo Tales Cotta. Além de Aranha, as marcas Piet e Ocksa, que desfilaram naquele sábado de abril passado, preferiram não participar desta temporada.

O que se analisa é uma tentativa de reforçar ainda mais a veia autoral do calendário. Os estilistas Isaac Silva e a cabo-verdiana Angela Brito, que carregam discursos vinculados à diversidade racial e temas que flertam com a herança africana, entraram na programação.

Radicada no Rio de Janeiro, Brito levará à passarela, na quarta (16), uma pesquisa sobre o blues, feita a partir de documentários sobre o estilo e memórias de sua infância.

Ela pesca desde elementos do estilo setentista registrado nos estados americanos de Mississipi e Louisiana até o campestre, que, segundo ela, remete ao estado de fuga proporcionado pelo ritmo musical.

Essas referências se traduzem em formas mais leves, construídas com materiais naturais. O viés sustentável, em voga nas passarelas da última temporada internacional, permeia o desfile comemorativo de dez anos da marca homônima de Fernanda Yamamoto, na quinta (17).

Num esforço de dar vida nova às suas criações emblemáticas, como as que bebem na fonte do origami, ela pegou 300 peças de um acervo de 450 itens de coleções passadas para refazê-las com a ajuda de medalhões da moda.

Um deles é Reiko Sudo, designer têxtil japonesa que ganhou mostra recente na Japan House, em São Paulo.

A uruguaia Agustina Comas, talvez o nome mais atuante da indústria nesse ato de reciclar tecidos para dar a eles vida nova —técnica de “upcycling”, no jargão da moda— conduziu a missão ao lado de Yamamoto e criou looks para ela.

O artista plástico Nino Cais e o arquiteto Daniel Corsi também integram a lista de convidados da estilista neste flerte da moda com outras vertentes da produção do design.

“É um desapego total da minha produção. Acho que o desfile serve para esse propósito, de desafiar os limites da criação de moda”, explica. Todas as peças irão compor uma retrospectiva de sua carreira, marcada para fevereiro de 2020.

Olhar pelo retrovisor é um movimento que, a julgar pelas primeiras informações dos desfiles, será uma constante para os nomes da SPFW.

A mineira Patricia Bonaldi, da grife PatBo, quer reforçar na quarta (15) sua história de imitar traços da tropicalidade dentro de uma estética barroca, comum aos vestidos de festa pelos quais ficou famosa.
Em uma nova coleção de moda praia ela mostrará como essas referências brasileiras podem ser aplicadas e misturadas. “Trago pela primeira vez elementos geométricos, em vez dos florais das coleções passadas. Tenho essa vontade de quebrar a imagem de elementos orgânicos e, mesmo assim, ter um apelo tropical”, diz Bonaldi.

Sete bolsas de marchetaria feitas em parceria com uma comunidade de artesãs de Novo Airão (AM) devem compor a imagem do desfile e as prateleiras da grife pelo mundo.

E se moda tem muito a ver com impacto visual, o estilista André Boffano procurou um cartão-postal para servir de cenário para a coleção da Bobstore, primeira a desfilar na terça (15) —não qualquer um, mas a Pinacoteca do Estado, cenário da coleção desfilada por Lenny Nimeyer na edição passada da SPFW.

O universo abstrato e místico da sueca Hilma Af Klint é um dos nortes da coleção carregada de elementos
gráficos, mangas quimono e volumes que, para ele, remetem à obra da artista visual.

“Quando falamos em abstracionismo na moda, imediatamente se pensa em Mondrian ou Kandinsky, mas a obra de Hilma é tão ou mais carregada de simbologias e detalhes visuais ricos”, explica Boffano.

Estilista mais prolífico do cenário atual paulistano, Boffano desenha, além das cinco coleções anuais da Bobstore, outras duas para sua própria marca Modem, cujo desfile ocorre na mesma terça.

Para a passarela autoral, ele colará nas roupas estampas inspiradas nas ilustrações que a artista botânica Margaret Mee ez a partir de espécies da floresta amazônica.

Mesmo frisando que a coleção foi construída antes dos recentes incêndios na Amazônia, Boffano entrará, ainda que sem querer, na brigada de socorristas chamada para esquentar o calendário morno.

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