Alta dos aluguéis ameaça comunidades artísticas em Los Angeles

Gentrificação obriga jovens a deixar a cidade ou a se mudar para espaços de coabitação

Los Angeles

Uma cortina esconde metade do estúdio de Gina Han, no Distrito de Artes de Los Angeles. Sob o tecido, estão centenas de telas, trabalhos da artista e do marido que o casal levou meses para juntar, catalogar e empacotar.

Eles se preparam para deixar o local desde abril, quando foram avisados de que o preço do aluguel subiria em novembro. De US$ 979 (R$ 4.105), o valor saltará para US$ 2.264 (R$  9.469) —aumento de 131%.

“Não consegui fazer nada nos últimos dois meses, de preocupação. Trabalhamos aqui por 21 anos, então o acúmulo de obras de arte é enorme, mas esse aumento é impossível para nós”, conta Han. O destino das obras ainda é incerto.

Eles estão instalados desde 1998 na Colônia de Artes Santa Fé, uma das poucas comunidades de artistas que restaram na região, que passa por um intenso processo de gentrificação. Criada com recursos públicos e abrigada numa antiga fábrica de móveis, a comunidade tem uma restrição legal que impede grandes aumentos no valor dos aluguéis. Hoje ficam ali 72 artistas.

Em 2018, no entanto, o endereço foi comprado pela Fifteen Group, empresa de investimentos de Miami que planeja aumentar numa média de 137% os valores cobrados a partir deste mês, quando expiram as restrições legais sobre os aluguéis.

Han passou os últimos meses sentada, enfileirando e empilhando centenas de cubos coloridos, para lutar contra o estresse e a ansiedade. As peças, dentre as poucas que ainda não foram empacotadas, fazem parte de sua última obra.

“Alguns amigos já tiveram de ir embora e, no lugar deles, entraram pessoas que não são artistas. Hoje qualquer um que conseguir pagar o aluguel pode ficar”, diz Han.

Embora a artista não viva mais no apartamento, usado apenas como estúdio, outros locatários ainda fazem do prédio sua casa. Caso saiam, precisarão encontrar espaços onde possam morar e trabalhar, o que alguns declaram ser inviável na atual Los Angeles.

Cubos de Gina Han
Cubos de Gina Han - Gina Han/Divulgação

A associação de inquilinos da comunidade chegou a fazer uma proposta para comprar o prédio, mas os novos donos se recusam a negociar, o que, de acordo com a instituição, seria contra a lei. Procurado pela Folha, o Fifteen Group não se manifestou.

“A piada é que eles compraram a propriedade por US$ 15 milhões (R$ 63 milhões) há 14 meses, mas agora dizem que vale US$ 7 milhões (R$ 29 milhões) a mais, sendo que não fizeram nenhuma melhoria”, afirma a pintora Sylvia Tidwell, presidente da associação.

Longe de ser um caso isolado, a comunidade é um dos últimos bastiões da luta dos artistas para permanecer em uma vizinhança que parece ostentar seu nome de forma cada vez mais esvaziada. 

Nascido nos anos 1970, quando artistas ocuparam espaços em fábricas abandonadas na região, o Distrito de Artes sofreu uma valorização nos últimos anos. Com isso, muitos artistas não conseguiram arcar com os novos custos e precisaram deixar o bairro.

“As pessoas estão sendo expulsas sem nenhuma preocupação com o fato de Los Angeles ser uma capital artística”, diz Francesco Siqueiros, que trabalha com gravuras. “O uso do termo arte foi apropriado pelas construtoras, que promovem o estilo de vida do artista como luxuoso. É uma inversão da ideia do artista boêmio.”

Apartamento de Francesco Siqueiros
Apartamento de Francesco Siqueiros - Wild Don Lewis/Divulgação

Há cerca de dois meses, um vídeo com uma moradora de rua cantando ópera no metrô de Los Angeles chamou a atenção da comunidade internacional, tornando-se um exemplo de como a crise de moradia na cidade pode afetar os artistas.

Se os que estão estabelecidos há anos ainda têm dificuldade de se manter, poucos jovens que chegam hoje a Los Angeles têm recursos suficientes para bancar grandes luxos.

Não à toa, empresas de coabitação têm concentrado esforços na cidade. Nesses locais, em troca de aluguéis abaixo da média, os moradores dormem em espaços minúsculos e compartilham cômodos. Ainda assim, alguns cobram mais de US$ 1.000 (R$ 4.193) por mês.

A brasileira Victoria Pfeifer chegou em Los Angeles há quatro anos disposta a se lançar como cantora. Incapaz de arcar com os altos preços, viveu na casa de um amigo por meses até conseguir uma vaga no UP(st)ART, espaço de coabitação voltado para artistas.

“Procurei apartamento por muito tempo, mas não tinha nada abaixo de US$ 1.000. Quando você converte para dólar, nosso dinheiro vira nada, e aqui tudo é muito caro.”

A UP(st)ART é uma das únicas empresas de coabitação a oferecer moradia apenas para artistas. Seu criador, Jeremiah Adler, teve a ideia a partir de uma experiência própria.

“Vim para Los Angeles com o sonho de ser roteirista e diretor de TV. Atuei na área por três anos, mas meu dinheiro acabou e tive que arrumar outro emprego. Passei a trabalhar numa imobiliária, na qual via jovens ambiciosos e criativos tendo propostas de aluguel negadas todos os dias por não ganharem o suficiente.”

A empresa, que hoje mantém sete propriedades em Los Angeles, oferece, além de moradia mais barata, espaços onde os artistas podem se desenvolver, como estúdios de gravação, ateliês e salas de cinema.

Ali, Pfeifer paga US$ 700 (R$ 2.927) mensais para viver em um pod (cama embutida na parede), num quarto que divide com outras cinco jovens.

Artistas moradoras e espaço de coabitação em Los Angele - Apu Gomes/AFP

“É bom ter gente em volta, sempre há com quem conversar. O lado ruim também é ter gente em volta, porque você precisa aprender a conviver com pessoas e barulho mesmo quando só quer ficar sozinho ou ensaiar”, diz a cantora.

Além da Colônia de Arte Santa Fé, o Art Share LA é outro dos poucos espaços remanescentes no Distrito de Artes a abrigar artistas a preços baixos. São 30 apartamentos, todos ocupados. Na lista de espera constam 850 pessoas.

“Há uns dez anos, eu recebia diariamente emails de artistas vindos de vários locais pedindo um lugar para viver na cidade. Essas mensagens já não chegam mais com tanta frequência”, conta Cheyanne Sauter, diretora-executiva da instituição.

“As pessoas estão tão assustadas com os preços das casas e aluguéis que nem tentam mais vir. Se não investirmos mais nos indivíduos criativos que vivem aqui, eles encontrarão outros lugares, o que ameaça o status de Los Angeles como nossa principal capital da arte.”​

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