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Bastidores de casos de assédio sexual em Hollywood têm ritmo de thriller em livro

'Ela Disse' esmiúça reportagem que escancarou crimes de Harvey Weinstein mudou a indústria cinematográfica americana

Alexandra Moraes
São Paulo

Jovem vai à suíte de um hotel para tratar de trabalho. Encontra garrafas de champanhe. Surge homem de roupão exigindo uma massagem. Corta. Advogados entram em cena para comprar o silêncio da vítima.

As cenas se repetem uma, duas, dezenas de vezes —não diante das câmeras, mas ainda assim bem embaixo do nariz da maior indústria cinematográfica do mundo. 

O homem do roupão era Harvey Weinstein, um dos principais executivos de cinema das últimas três décadas. Ao lado do irmão Bob, fundou a Miramax no fim dos anos 1970 e, em 2005, a Weinstein Company, empresas que lançaram filmes como “Sexo, Mentiras e Videotape” (1989), “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (1994), “Shakespeare Apaixonado” (1998) e “Bastardos Inglórios” (2009).

 

Depois de quase 30 anos de práticas de crimes sexuais escondidas por advogados com contratos de confidencialidade e cala-bocas que iam de US$ 80 mil a US$ 150 mil, Weinstein se tornou alvo de uma 
investigação do jornal The New York Times, agora contada nas páginas de um livro. 

Com um detalhe: “Ao contrário de algumas investigações jornalísticas que lidam com segredos governamentais ou corporativos, aqui falamos de experiências que muitas de nós reconhecemos de nossa própria vida, do ambiente de trabalho, da família e da escola”, dizem Judi Kantor e Megan Twohey, autoras de “Ela Disse - Os Bastidores da Reportagem que Impulsionou o #MeToo”.

Em ritmo de thriller, a obra narra como as jornalistas conseguiram transformar os rumores de assédio e abusos sexuais que rondavam o nome de Harvey Weinstein havia décadas numa reportagem investigativa, publicada em 5 de outubro de 2017, que “provava a existência de um padrão de comportamento com base em relatos pessoais, documentos financeiros e legais, memorandos de empresa e outros materiais reveladores”, como enumeram as autoras. 

Cinco dias depois da publicação do jornal, ia ao ar uma investigação paralela feita por Ronan Farrow, repórter da New Yorker, filho de Mia Farrow e Woody Allen —acusado de abuso sexual pela filha Dylan. Os textos deram cara às denúncias contra Weinstein —a atriz Ashley Judd falou ao New York Times, enquanto Asia Argento, Mira Sorvino e Rosanna Arquette deram depoimentos a Farrow— e provocaram uma cascata de cerca de 80 relatos de mulheres famosas e anônimas sobre ataques do produtor.

“Queríamos guiar as pessoas pelos bastidores dessa história, fazê-las sentir o que sentimos no processo de apuração. Desde os primeiros telefonemas, de como chegamos às atrizes, até o confronto final com Weinstein”, conta Kantor. 

A revelação do caso também deu combustível para que o movimento #MeToo se espalhasse mundo afora. 

“O #MeToo acabou significando muito para muitas pessoas. Mas, naqueles primeiros momentos, não tínhamos certeza de como iríamos contar aquelas histórias”, diz a jornalista, que começou a investigação a partir de comentários feitos pela atriz Rose McGowan no Twitter. 

A repórter se uniu a Twohey, que vinha de uma cobertura a respeito da conduta duvidosa do presidente Donald Trump em relação às mulheres, e as duas passaram a buscar outros casos parecidos que envolviam o produtor. Conseguiram falar com Ashley Judd. Chegaram a outras atrizes e ex-funcionárias da Miramax. Reuniram os relatos das vítimas, mas sabiam que faltava algo para que o material que tinham nas mãos fosse praticamente inquestionável. Foi quando receberam uma dica a respeito de um ex-funcionário da cúpula da Miramax que odiava Weinstein e sua conduta. 

Irwin Reiter, que era vice‑presidente executivo de relatórios contábeis e financeiros da Weinstein Company, queria tentar parar o produtor. E viu no interesse das jornalistas a possibilidade de fazê-lo. 

Numa das passagens eletrizantes, Kantor encontra Reiter para uma conversa em Nova York. Ele providencia uma ida ao banheiro e larga seu celular na mesa, para que Kantor pudesse consultá-lo. Nele, estava um memorando interno em que uma das vítimas de Weinstein detalhava o comportamento do chefe, além de registrar que a empresa era um ambiente tóxico para mulheres. Kantor copia todo o 
documento, e Reiter volta como se nada tivesse acontecido.

“Sou uma profissional e tentei agir assim; contudo, não é como sou tratada. Em vez disso, sou sexualizada e diminuída. Sou jovem e estou começando minha carreira; tive medo de falar e continuo tendo. Mas permanecer em silêncio e continuar me sujeitando ao comportamento ultrajante dele me causa grande sofrimento.” 

O documento secreto com o depoimento da executiva Lauren O’Connor era a chave para publicar a denúncia, já que envolvia diretamente a Weinstein Company e evidenciava como Harvey Weinstein usava funcionários e estrutura de suas empresas para encobrir suas atividades criminosas.

No meio disso, Weinstein tentava manipular a investigação. “Não sofremos ameaças diretas”, diz Kantor. “Mas ele contratou espiões, que tentavam enganar as nossas fontes, se passavam por outras pessoas, faziam de tudo para arrancar informações delas, sobre em que ponto estávamos e do que já sabíamos.” O produtor chegou a fazer um contrato em que se comprometia a pagar US$ 100 mil se os agentes conseguissem barrar a publicação da reportagem. 

Não deu certo, e um dos homens mais poderosos da história da indústria cinematográfica foi transportado dos quartos de hotel onde atacava mulheres para o banco dos réus —onde deve se sentar em 6 de janeiro de 2020, com a possibilidade de pegar até prisão perpétua se condenado pelos até agora cinco crimes sexuais de que é formalmente acusado. 

“Acho que pudemos fazer as pessoas enxergarem problemas como o assédio, além de abrir espaço para que outras mulheres tomassem coragem para denunciar”, diz Kantor.

Ela Disse

  • Preço R$ 49,90 (376 págs.)
  • Autor Megan Twohey e Jodi Kantor
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Denise Bottmann, Isa Mara Lando, Julia Romeu e Débora Landsberg

Antes, durante e depois da investigação

  • Rose McGowan publica uma mensagem no Twitter sobre por que as mulheres não denunciam abusos sexuais, em 13 de outubro de 2016: "Porque é um segredo de polichinelo em Hollywood e na mídia, e me fizeram passar vergonha enquanto adulavam meu estuprador” #WhyWomenDontReport 
  • Tido como apoiador de causas sociais, Harvey Weinstein participa da Marcha das Mulheres em Park City, Utah, em janeiro de 2017
  • Em maio de 2017, Rose McGowan responde a um pedido de conversa feito pela repórter Jodi Kantor, do New York Times, e conta que fora abusada por Harvey Weinstein nos anos 1990 e que, quando soube que havia procurado um advogado, o produtor providenciou um acordo de confidencialidade no valor de US$ 100 mil
  • Em junho de 2017, Gwyneth Paltrow começa a colaborar com a investigação das jornalistas do New York Times
  • Em setembro, Ashley Judd, que, sem mencionar Weinstein, havia relatado ter sido vítima de assédio sexual em Hollywood num artigo para a revista "Variety" em 2015, decide que deve ir a público e falar sobre o assunto no texto do New York Times
  • Alguns dias depois, Irwin Reiter, vice‑presidente executivo de relatórios contábeis e financeiros da Weinstein Company, entrega o celular à repórter Jodi Kantor para que ela copiasse um memorando da empresa em que uma executiva júnior, Lauren O'Connor, relatava formalmente assédio e abusos cometidos por Harvey Weinstein contra ela e outras funcionárias
  • As repórteres conseguem um número: o produtor havia feito entre 8 e 12 acordos com suas vítimas
  • Em 4 de outubro, Harvey Weinstein vai pessoalmente à sede New York Times com seus advogados e se reúne com as jornalistas e com a cúpula do diário, numa última cartada. O produtor afirma que as mulheres que o acusavam eram "mentalmente instáveis"
  • Em 5 de outubro de 2017, o New York Times publica a reportagem sobre os pagamentos feitos para comprar o silêncio das mulheres

Efeitos do Metoo

Boicotes
Celebridades acusadas de assédio passaram a ser boicotadas pela indústria, caso de Woody Allen e Kevin Spacey

Caça às bruxas?
Cem francesas, entre elas Catherine Deneuve, acusaram o MeToo de puritanismo; movimento parece ter menos impacto na Europa em geral

Leis
Nos EUA, NY, Califórnia e Nova Jersey criaram leis que proíbem termos de confidencialidade em acordos sobre casos de abuso e de assédio sexual
 
Time’s Up

Fundo voltado para a defesa de vítimas de assédio sexual ajudou quase 4.000 pessoas a receberem aconselhamento legal

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