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Benjamin Moser faz retrato sem concessões de Susan Sontag em biografia

Livro aborda fragilidades da menina que queria ser popular e se tornou a 'última estrela literária'

São Paulo

Aos 11 anos, Susan Lee Rosenblatt tomou uma decisão. Ela seria popular.

Não seria fácil. Sue, como a chamavam, era precoce e asmática, pouco afeita ao mundo fora dos livros.

Ela se tornaria Susan Sontag aos 12. Como escreve Benjamin Moser na biografia da escritora, o sobrenome emprestado seria a “contribuição mais duradoura” de Nathan, segundo marido de sua mãe, Mildred, à menina que perdera o pai aos cinco.

“Sontag”, a sair no Brasil no dia 29, mostra os caminhos pelos quais a ensaísta e ficcionista se tornou popular; como Sontag se tornou metáfora de Susan. Em seu singelo subtítulo, “vida e obra”, embute esforços e pretensões oceânicos.

Escolhido pelo espólio da escritora para escrever a biografia, Moser dedicou sete anos a diários, arquivos e entrevistas a respeito da “última estrela literária dos Estados Unidos”.

As cerca de 700 páginas seguem um fio cronológico. Mas, dentro dessa ordem linear, os capítulos respondem a temas que se desprendem da trajetória de Sontag.

A luta entre Susan e Sontag se expressa em um aspecto muito ressaltado por Moser, a dicotomia entre corpo, que a escritora tenta negar —esquecendo-se de tomar banho e limitando o sono— e mente. Se possível, ela seria só intelecto.

Intelecto que cobriu meio século 20, em ensaios sobre literatura e estética, como os de “Sob o Signo de Saturno”, em livros de influência permanente, como “Sobre Fotografia”, e em romances, entre os quais um best-seller, “O Amante do Vulcão”.

Sua vida vai de 16 de janeiro de 1933 a 28 de dezembro de 2004, quando foi vitimada por seu terceiro câncer, na mesma Nova York onde nascera. 

Vai da Segunda Guerra até o 11 de Setembro e a invasão do Iraque; passa pelo Verão do Amor e pela emergência da Aids; pela queda do Muro de Berlim e pelo cerco a Sarajevo. 

O contexto, histórico ou pessoal, é apresentado na biografia de Moser em detalhe, bem como suas repercussões na obra de Sontag, livro a livro.

Isso dá, mesmo ao leitor que não a conhece, uma introdução ampla a seus temas e ideias, mostrando seus pontos fortes —como sua erudição— e os fracos —como as ambiguidades de seu posicionamento político.

O biógrafo afirma que era um de seus objetivos que o livro tivesse esse caráter introdutório. Para muitos, o que se tornou popular foi só a figura de Sontag, sua mecha branca em meio aos cabelos negros.

“Eu vi as vendas dos livros dela; são parcas”, diz Moser, frisando que ela tem sido reeditada em vários países “por causa da biografia”. 

“Muita gente tinha opiniões sobre ela sem fundamento no que ela falou ou escreveu. Acho muito importante pôr ênfase na obra.”

Ênfase que, afinal, ela dava. Embora ambicionasse ser amada, seus relacionamentos —com a mãe, com amantes ou com o filho único, o também escritor David Rieff— foram sempre menos felizes para Sontag do que o trabalho.

O nó apertado entre escrita e intimidade pode ter contribuído para que parte da crítica não tenha notado no livro tal prioridade da obra.

“Tive duas principais críticas, de mulheres da geração dela.” Trata-se de rivalidade de quem quer dar sua “chave de ouro”, afirma Moser, acrescentando que seu alvo são os novos leitores. 

A escritora Vivian Gornick, 84, elogia a pesquisa e afirma que “Sontag” se esforça para mostrar a complexidade da biografada. Mas, escreve em resenha para o suplemento literário do New York Times, “Moser não a ama”. 

Ela vê ainda “reducionismo psicológico”. Em sua opinião, Moser se prende demais à “influência negativa do alcoolismo da mãe” de Sontag. 

Moser, de fato, apoia a leitura das dificuldades emocionais da filha na relação frustrante com a mãe.

“Entrevistei várias pessoas que pesquisaram isso nos anos 1970 e 1980; o modo como o alcoolismo afetava a família era um conceito novo”, diz o biógrafo.

Janet Malcolm, 85, indignou-se contra o livro na revista New Yorker. Ela também acusa Moser de desamor.

Mais do que isso, “ele deixa cair sua máscara de observador neutro” e se revela, diz a jornalista, “adversário intelectual de seu objeto”. 

“Não acredito muito nisso de o biógrafo não ter opinião; a minha é baseada em dados que explico”, diz Moser.

O retrato que surge não é lisonjeiro. Moser conta ter negociado por um ano um acordo que lhe desse “liberdade total” para lidar com as paixões em torno da biografada.

Se a autorização do espólio de Sontag abriu caminhos, em ao menos um caso foi um empecilho. Entre as 573 pessoas que ouviu, a fotógrafa Annie Leibovitz, companheira por 15 anos de Sontag, foi difícil de convencer.

Esse que foi o mais longo amor de Sontag nunca foi admitido publicamente pela escritora —sua recusa em se assumir homossexual é um tema crucial do livro.

Após a morte de Sontag, houve um cisma entre os que apoiaram a fotógrafa e os que se alinharam com David Rieff. Leibovitz temia que Moser tomasse o partido do filho. No livro, nenhum aparece como anjo ou demônio.

Ao final da obra, Moser lembra que, como tantas vezes escreveria Sontag, todo o esforço e representação, é vão; a metáfora não é a realidade. 

Como resume na entrevista, sua Sontag “é uma personagem, não é uma pessoa”. “Essa é uma distinção que às vezes as pessoas não entendem.”

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