Atacado por deputado, chargista tem histórico de críticas à repressão do Estado

Carlos Latuff teve charge em mostra que celebra Consciência Negra, e deputado vandalizou o trabalho sobre violência policial

Charge do cartunista Charles Latuff

Charge do cartunista Charles Latuff Divulgação/Charles Latuff

São Paulo

Não foi a primeira vez que o ilustrador Carlos Latuff criticou a polícia numa charge. O autor do quadro quebrado pelo deputado do PSL paulista Coronel Tadeu —o trabalho faz parte de uma mostra que comemora o Dia da Consciência Negra no Congresso e mostrava um negro morto por um policial— tem um histórico de trabalhos críticos à forças do Estado em todo o mundo.

Latuff diz que não é ligado a nenhum partido. Ele inclusive produziu em 2013, mesmo ano da charge vandalizada, um trabalho em que a petista Dilma Rousseff, então presidente da República, carregava um coronel no colo, de costas para um manifestante que questionava “e eu, Dilma?” enquanto era espancado pela tropa de choque.

Era referência a um comentário que a presidente fizera em apoio a um oficial agredido depois de um protesto em São Paulo, durante as manifestações de junho daquele ano.

Filho de uma dona de casa e de um auxiliar de portaria do extinto Instituto Brasileiro do Café, o carioca foi office boy na adolescência, iniciou carreira como chargista em entidades sindicais e, mais tarde, fez carreira em periódicos alinhados à esquerda.

Um de seus primeiros empregos foi no Sindicado dos Estivadores, no Rio de Janeiro. Com o correr dos anos, ele passou a produzir para publicações de esquerda como o portal Brasil de Fato. Desenhou não só para periódicos em território nacional, mas também nos Estados Unidos, no Oriente Médio e na Europa.

Latuff conta que já fez charges críticas aos governos Lula, Dilma, Fernando Henrique e Collor. “Nunca me furtei a isso, seja lá qual tenha sido o presidente”, diz. Ele não tem ligação com grupos ativistas. “Sou 'artivista'. Por meio da minha arte, acabo apoiando causas sociais pelo Brasil e pelo mundo.”

A expressão crítica ao governo ganhou mais terreno, porém, na gestão de Bolsonaro. Desde quando era candidato, o atual presidente é associado por Latuff à suástica, o símbolo máximo do nazismo. “O que determina o tom das charges é o tom das barbaridades políticas. Sejam as sandices do Bolsonaro e seus ministros, sejam os conflitos pelo mundo, Iêmen, Síria, Palestina, ou mesmo a violência policial. São assuntos que requerem um tratamento diferenciado”, diz.

Os conflitos em países árabes e no Oriente Médio são frequentes nas obras de Latuff. Ele enfrentou críticas duras quando foi premiado em uma exposição no Irã em 2006. A mostra era uma resposta à publicação de charges sobre o profeta Maomé por um diário dinamarquês —há segmentos do islamismo que não admitem representações do profeta. Latuff caracterizou um palestino do mesmo jeito que um prisioneiro de campo de concentração e foi tachado de antissemita.

“Tenho sido alvo de campanhas de difamação por parte de indivíduos e organizações pró-Israel por causa dessas charges. Eu recebo normalmente as críticas e refuto as acusações de antissemitismo, porque hoje qualquer crítica que se faça contra Israel em relação aos palestinos é tachada de antissemita”, diz.

“Trata-se inclusive de uma tentativa de criminalizar as críticas ao Estado de Israel. As questões raciais e religiosas são pano de fundo para mascarar a verdadeira natureza daquele problema, que é o neocolonialismo. O que se tenta fazer na palestina é uma limpeza étnica."

Sobre as técnicas de desenho que ele prefere, Latuff se vê como um “chargista da velha escola”. “Uso lápis, borracha, caneta. Hoje, fazem muita coisa no tablet, mas gosto das técnicas tradicionais dos cartunistas e chargistas do passado”, diz. 

Nesta quarta, deputados da bancada negra que organizaram a mostra da qual ele participou no Congresso imprimiram a mesma charge rasgada pelo coronel Tadeu e coloram diversas cópias nos corredores do Congresso.

O desenho, feito em 2013, mostra um jovem negro morto, vestindo uma camisa com estampa da bandeira brasileira e algemado com as mãos para trás aos pés de um policial com pistola fumegante deixando o local. É uma crítica ao fato de a maioria das vítimas da violência policial ser negra —75,4% dos mortos em intervenções policiais são negros, segundo dados deste ano do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Depois de uma conversa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com a bancada da bala e bancada negra, ficou acertado que a imagem retornará à mostra no Congresso, e ao lado será exibido um cartaz afirmando que "a bancada negra sabe que essa charge não representa toda a corporação e respeita os policiais que não corroboram para essas estatísticas e trabalham em prol do povo brasileiro".

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