Como a fé evangélica tem grudado em artistas a pecha de intolerantes

Artistas como Simone e Simaria e Márcia Fellipe enfrentam críticas por omitir outras religiões nos versos

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro
Santa de casa não faz milagre, não para a forrozeira Márcia Fellipe. "Santo, só o senhor Jesus Cristo. Não se deixem enganar (leiam a Bíblia)", tuitou a cantora do hit "Quem Me Dera" num post sobre a canonização pelo Vaticano da irmã Dulce.
Público de Simone e Simaria em show de retorno das cantoras no Centro de Tradições Nordestinas em São Paulo
Público de Simone e Simaria em show de retorno das cantoras no Centro de Tradições Nordestinas em São Paulo - Carolina Daffara/Folhapress

Guiada por sua fé evangélica, que vê a santificação de homens como pecado, acabou cutucando a turba católica com vara curta. Um show e até uma participação no "Encontro com Fátima Bernardes" viraram alvo de escracho.

Na internet, houve quem sugerisse: “Então, linda, não só leia e decore [a Bíblia]. Estude cada palavra”. Outro católico irritado questionou como alguém que "vive mostrando o corpo em todo lugar, essas músicas ridículas e vulgares, comenta uma coisa dessas”.

Márcia não está sozinha nessa trincheira religiosa das guerras culturais. Outros frequentadores das listas de mais tocadas no Brasil também causaram furdunço ao colocar o Evangelho à frente da arte. 

Em agosto, a dupla sertaneja Simone e Simaria cantou um hino gospel, "Deus de Promessas", e "Quero Ser Feliz Também", do Natiruts, num programa do Multishow. Nessa última, contudo, deixou de citar a divindade umbandista no verso "desejar para tudo que vem flores brancas paz e Iemanjá". 

Simone, que não esconde sua filiação evangélica, já disse que "seria uma honra cantar a Jesus de Nazaré". Mas eclipsar Iemanjá nada tem de intolerância com credos afrobrasileiros que norteia muitas igrejas evangélicas, defenderam-se ela e a colega. 

Ao UOL, portal do Grupo Folha, Simaria disse que se perdeu porque não sabia cantar a letra. Já Simone entoou o trecho da discórdia, dessa vez mencionando Iemanjá, e rechaçou a pecha de preconceituosa. “É a maior besteira do mundo! Meu amigo, se você quiser tocar o seu tamborzinho, toque o seu tamborzinho! Se quiser ajoelhar e ir pra igreja, vá pra igreja!”

A atração que sediou a polêmica, "Música Boa Ao Vivo", é comandada por Iza, outra artista que já teve o nome arrastado para esse debate.

Em 2018, ela cortou uma estrofe de sua música "Ginga" ao se apresentar em dois programas da Record, os de Fábio Porchat e Sabrina Sato. Ficou muda na parte em que pede "fé na sua mandinga", termo de origem africana popularmente associado a feitiço.  

Iza é religiosa. Ao jornal "Extra", em 2017, contou que cresceu na Igreja Católica e que sempre diz: "Minha carreira é um milagre, e meu empresário é Deus". 

À época suspeitou-se que o veto a mandinga não teria partido dela, que afinal de contas até ali nunca teve problema em incluir a palavra na canção. Teria vindo, na verdade, da emissora do bispo evangélico Edir Macedo.  

Ela não quis comentar o ocorrido, e a Record não respondeu à Folha.

Já Márcia Fellipe recorreu às redes sociais para se explicar. Claro que a freira baiana, como "ser humano", é um "exemplo para todos nós", disse sobre aquela que a Igreja Católica tem agora como Santa Dulce dos Pobres. 

Ela mesma, Márcia, não é "melhor que ninguém", afirmou. "Faço muita cagada na vida." Acrescentou: "Tem muita gente distorcendo que tô com intolerância à religião. Em nenhum momento!"

Mas persistiu no argumento de que a palavra de Deus é uma só —aquela interpretada por evangélicos. "Não vou negar Jesus pra agradar o homem, gente, desculpa. Mesmo que muita gente venha a me interpretar mal."

Quando situações do tipo têm mulheres na berlinda, é comum lembrar que as mesmas que evocam a fé abusam de roupas sensuais. Caso do macaquinho laranja bem curto que Márcia usou em foto recente sobre uma moto, ou dos fartos decotes de Simone e Simaria —que num de seus maiores hits, "Regime Fechado", a dupla adoça uma prática que a Bíblia condena: "Sua sentença é viver na mesma cela que eu/ Já que nós dois estamos sendo acusados de adultério".

O visual dos homens costuma ser poupado, mas nem por isso eles estão isentos da controvérsia religiosa. Xanddy, vocalista do Harmonia do Samba, foi acusado de ser intolerante pela atriz Luana Xavier, neta da também intérprete Chica Xavier.

Ela disse que o baiano foi de um "desrespeito sem tamanho” ao omitir "por questões religiosas, morais, sei lá", a palavra "candomblé" em "Raiz de Todo Bem", que cantou numa festa no Rio, a Oxente, em agosto. Melhor seria se tivesse limado a música do repertório, afirmou Luana. 

Xanddy e a esposa, a ex-dançarina do É O Tchan Carla Perez, são evangélicos. O cantor reclamou na internet que teve seu caráter reduzido "de forma irresponsável e tóxica" e que respeita e ama o ser humano, "seja ele católico, espírita, umbandista, candomblecista, judeus, budistas, evangélico". 

Recebeu o apoio da amiga candomblecista Anitta: "Todo mundo sabe que sou do batuque, e tá lá Xanddão cantando na minha casa todo ano. Deu esse abraço gostoso aí em meu guia do candomblé, e a festa seguiu com gente de todo tipo". 

Show da cantora Anitta no palco Mundo, no penúltimo dia do festival Rock in Rio, realizado no parque olímpico, na zona oeste do Rio de Janeiro
Show da cantora Anitta no palco Mundo, no penúltimo dia do festival Rock in Rio, realizado no parque olímpico, na zona oeste do Rio de Janeiro - Adriano Vizoni/Folhapress

Para o historiador Luiz Antônio Simas, especializado em sambas e crenças afrobrasileiras, fenômenos afins vêm na esteira do avanço neopentecostal num país que, até os anos 1980, tinha menos de 10% de evangélicos (hoje são 30% da população).

O que tinha às pencas —e ainda tem— é músico que se converteu e aposentou o cancioneiro do "mundão", como evangélicos costumam se referir a hábitos que consideram profanos. Gente como Mara Maravilha, Rodolfo Abrantes (ex-líder do Raimundos) e até Bezerra da Silva. 

Famoso por dizer que ia "apertar, mas não acender agora" um baseado, em "Malandragem, Dá Um Tempo", ele entrou na Igreja Universal em 2001 e chegou a gravar um samba-gospel de Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro e sobrinho de Edir Macedo. A letra fala de um “dizimista fiel maluco por Jesus".

Simas lembra de Mauro Diniz, compositor que nem o pai, Monarco, da Velha Guarda da Portela. Quando se voltou a Jesus, ele parou de cantar "Meu Lugar", parceria sua com o sambista Arlindo Cruz, para não citar o verso "é caminho de Ogum, Iansã".

Autor de "Geografia do Samba Carioca" e coordenador da Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, Luiz Fernando Vianna resgata a conversão de Baden Powell, que parou de cantar parte dos afro-sambas que fez com Vinicius de Moraes, como "Canto de Iemanjá", "pois as letras do Vinicius louvam os orixás".

Em 1999, um ano antes de morrer, o violonista disse à Folha desdenhar uma fatia desse repertório. "Só alguns não posso gravar, né? O 'Samba da Bênção', por exemplo. Não digo mais saravá. Posso tocar o 'Samba da Bênção', mas não falo saravá, porque é um louvor a satanás."

Saravá é, na realidade, uma saudação típica da umbanda que equivale a "salve!" e, segundo linguistas, a forma como alguns escravos africanos misturavam o português "salvar" com sua língua nativa.

A moda não é só brasileira. O rapper Kanye West, que lançou o álbum "Jesus is King" (Jesus é rei), disse que ajustará letras antigas à sua fase gospel.

Por WhatsApp, o jornalista, produtor e compositor Nelson Motta dá seu pitaco sobre a atual onda de rejeição a credos que divirjam da linha evangélica. "Você acha que Iemanjá se importa com Simone e Simaria? kkkkk". Elas não foram encontradas para responder.

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