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Cinema

Diretor Fábio Barreto saiu do convencional com 'O Quatrilho'

Quando o cinema brasileiro se reerguia, após fechamento da Embrafilme por Collor, longa conquistou indicação ao Oscar

O melhor de si Fábio Barreto deu na partida. Depois de ganhar o prêmio de melhor direção no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1977, por seu curta-metragem “A Estória de José e Maria”, logo engatou um primeiro filme mais que animador: “Índia, a Filha do Sol”, de 1982.

Fábio, que morreu no Rio de Janeiro nesta quarta (20), aos 62, depois de uma década internado em coma por causa de um acidente de carro, narra ali  a história de uma bela índia que, num garimpo, se apaixonará por um branco. 

Havia algo de poético, irreal, em tudo aquilo, que a presença luminosa da atriz Gloria Pires acentuava.

Desde “O Rei do Rio”, de 1985, seu filme seguinte, no entanto, Fábio pareceu se conformar em fazer um cinema convencional, o que se repetiu no decepcionante “Luzia Homem”, de 1988, em que adaptou o romance do escritor naturalista Domingos Olímpio sobre a luta pela sobrevivência de uma mulher, Luzia, papel da atriz Claudia Ohana, conhecida por sua força.

Sua redenção veio com “O Quatrilho”, de 1995. Num momento em que o cinema brasileiro tentava se reerguer, depois do fechamento da Embrafilme no governo Collor, o longa conquistou a indicação para o Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 1996.

A ousadia vinha da história, que partia da convivência de dois casais sob o mesmo teto, no interior do Rio Grande do Sul, e evoluía para paixões extraconjugais e a realização contava novamente com Gloria Pires, agora ao lado de Patricia Pillar.

A indicação ao Oscar lhe valeu, no trabalho seguinte, a oportunidade de trabalhar com a atriz canadense Natasha Henstridge em “Bela Donna”. Era mais uma incursão regionalista, desta vez adaptando o romance “Riacho Doce”, do autor brasileiro José Lins do Rego. 

Henstridge faz a estrangeira que vem com o marido para trabalhar num empreendimento no Nordeste, mas acaba se apaixonando por um pescador. Também Florinda Bolkan, atriz brasileira com carreira na Itália, participa do filme, que, apesar das presenças ilustres, não conseguiu emplacar.

Fábio fechou a carreira com aquele que seria considerado seu filme mais polêmico —“Lula, o Filho do Brasil”, de 2010. A polêmica, na verdade, girava em torno de Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Brasil. O filme, no entanto, era muito mais um tributo à sua mãe, dona Lindu (ainda uma vez, Gloria Pires), do que ao filho propriamente dito. Ela é que, após ser abandonada, criou e educou seus filhos.

Quem atacou “Lula” em geral assinalava que, sendo lançado em ano eleitoral, tenderia a favorecer o candidato do PT, o partido de Lula —hipótese fartamente especulativa. Seu problema não era o ex-presidente —goste-se ou não dele— captado aqui em sua infância, mas o academismo da realização.

Foi pouco antes da estreia do filme, que aconteceu em 1º de janeiro de 2010, que Fábio se envolveu no terrível acidente automobilístico, depois do qual não voltou mais à consciência.

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