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Dramaturga que deu voz às mulheres, Leilah Assumpção lança autobiografia

Em 'Memórias Sinceras', autora de teatro mais bem-sucedida do Brasil rememora carreira de manequim e escritora

Foto do livro 'Memórias Sinceras'. A dramaturga paulista de 76 anos Leilah Assumpção lança autobiografia na qual revela suas múltiplas facetas. Autora de peças célebres sobre a opressão da mulher, a ex-modelo relembra histórias de sua intimidade Arquivo pessoal

São Paulo

“Memórias Sinceras”, a aparentemente despretensiosa autobiografia de Leilah Assumpção, iniciada há cinco anos, será lançada afinal neste sábado, pela Sá Editora. 

Abre com uma carta enviada por Antonio Candido, que foi professor na USP da jovem que se tornaria depois manequim e dramaturga.

Ele resume que Leilah “faz o seu modo de ser comunicar-se com naturalidade à experiência do leitor” e a descreve como autora de “qualidades pouco frequentes, como a sinceridade sem exibicionismo”.

Desde “Fala Baixo Senão Eu Grito”, que estreou há 50 anos, com Marília Pêra como Mariazinha, é como a veem. Miroel Silveira, professor e crítico, dizia não saber se ela era “muito ingênua ou superdotada”.

“Todo mundo fala que parece que estou conversando, pelo meu jeito de escrever teatro”, diz ela, em entrevista. “Sabe por quê? Porque tive formação de ver teatro e não de ler.”

Seu pai, também professor, foi ator amador no interior de São Paulo —onde ela nasceu há 76 anos, em Botucatu, e passou a adolescência, em São João da Boa Vista. A própria Leilah atuou em teatro infantil, desde logo. Mas o que a marcou foi a capital.

“Eu vim e assisti a ‘A Semente’, do [Gianfrancesco] Guarnieri. Depois mudei para São Paulo e vi ‘Pequenos 
Burgueses’ e desde então não perco uma peça, tenho uma formação de ver o Oficina. E da coxia também.”

Foi atriz na primeira montagem de “Vereda da Salvação”, dirigida por Antunes Filho, mas seu vínculo maior é com o teatro de Zé Celso. Foi namorada do diretor, estudou interpretação com Eugênio Kusnet no Oficina, foi amiga da atriz Liana Duval.

 

“A Liana me ensinou os principais palavrões da minha vida. Aprendi primeiro com ela e depois com Plínio Marcos.” E depois usou nas próprias peças.

Ela tira outras conclusões sobre o seu teatro, citadas esparsamente no livro, como quando afirma que a sua geração de dramaturgos deu voz a quem ainda não tinha, no Brasil dos anos 1960.

É a que ficou conhecida como Geração 69, de José Vicente, Consuelo de Castro e outros que passaram a chamar a atenção em torno de 1969, tendo Plínio como precursor.

Com peças de poucos personagens, ele deu voz à marginalidade e abriu o caminho. Leilah deu voz às mulheres.

“Foi por emoção, primeiro”, diz ela, lembrando de seus primeiros anos na cidade. “Eu era muito sensibilizada com as solteironas do pensionato. Porque não se adaptavam mais ao interior nem a São Paulo.”

Mariazinha, a personagem, surgiu num conto e depois na primeira peça de Leilah, mas não encenada até 1979, “Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que Eu Sou Donzela”, como Maria Angélica.

“Tudo isso serviu como preparação para escrever o ‘Fala Baixo’ em um dia e uma noite”, diz. “Não é que jorrou. Fiz o conto e outra peça antes.”

Mas foi só em 1975, com Irene Ravache, que ela se voltou conscientemente ao tema. “‘Roda Cor de Roda’ foi o rompimento com tudo, o oposto da Mariazinha. Aí escolhi escrever sobre a mulher, porque era o melhor que eu tinha para dar.”

Autora teatral brasileira mais bem-sucedida, ela escreveria outras peças de grande público nas décadas seguintes, como “Boca Molhada de Paixão Calada” e “Intimidade Indecente”, mas “Fala Baixo” é sempre a mais lembrada.

“Acho que às vezes atingimos o inconsciente coletivo”, diz ela. “Por isso a Mariazinha dura tanto. Foi montada há pouco na Alemanha, altos elogios.”

Leilah faz terapia desde os 30 anos, por si mesma, mas também pelo teatro. “Porque falo sobre o ser humano, a responsabilidade é grande. Tenho que me conhecer e depois conhecer o outro.”

Embora Guarnieri tenha sido seu amigo e uma de suas referências, ela conta uma passagem em que ele descreve Leilah e outros daquela geração, negativamente, como “intimistas”, sem consciência política.

A dramaturga não vê assim, sublinha a voz dada às mulheres e recorda a visita que fez à Polícia Federal, em Brasília, para liberar “Fala Baixo”. Os censores teriam resistido: “A senhora é tão jovem, tão bonita. O Plínio Marcos pode falar palavrão porque ele vem do cais do porto, mas a senhora é bem nascida, não pode”.

Escritora, mas também manequim, ela viajou com um tailleur do estilista Dener. “Eles ficaram perplexos”, ri.

As memórias denunciam que não só o teatro, mas também a moda, têm lugar especial para Leilah. Ela se concentra nos trabalhos, nos anos 1960 e 1970, para Dener e Clodovil.

“Eu dei um livro, ‘Sociologia da Moda’, para os dois. O Dener achou ‘maravilhoso’ e nunca abriu. O Clodovil leu inteirinho. Ele era mais intelectual. Mas eram artistas, os dois. Dener era mais criativo, pegava um pedaço de pano e fazia na hora. [...] O Clodovil detestava. Ele sabia o chapéu, a joia, sabia tudo antes.”

E o olhar de ambos era diferente. “O Dener, quando a gente se trocava, eu sentia olhar de homem em cima de mim. Clodovil, jamais. Ele falava, apontando a xoxota: ‘Odeio isso aí!’.”

O choque entre os lados da moda e do teatro, que era também da política, é explorado em diversas passagens. Uma delas relata que em 1968, saindo de um desfile, ela deu de cara com uma passeata liderada por José Dirceu, que conhecia desde os tempos em que ele, “ainda ginasiano”, havia namorado uma amiga.

“Eu vinha vestida no estilo Pierre Cardin do cabelo à bota”, escreve ela. “Como gritar ‘Abaixo a ditadura’ vestida de Cardin?! Dirceu me olhava... Comandava aquilo e me olhava... vestida de microssaia.”
Ela correu para casa, para trocar de roupa, mas se perdeu tentando tirar a bota às pressas e a passeata foi embora.

Memórias Sinceras

  • Quando Lançamento neste sábado (23), às 16h, na Livraria Cultura (av. Paulista. 2.073)
  • Preço R$ 49,90 (224 págs.)
  • Autor Leilah Assumpção
  • Editora
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