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Eddie Murphy vai trazer Eddie Murphy de volta, mas sem usar roupa de couro

Astro explica por que está retornando ao stand-up e ao cinema e por que se arrepende de ter parado

Jason Zinoman
Toronto | The New York Times

No meio da filmagem de uma cena da cinebiografia "Meu Nome é Dolemite", Eddie Murphy abandonou o roteiro. Interpretando o comediante Rudy Ray Moore em um show ao vivo, ele primeiro provocou um membro da plateia e depois lhe perguntou de onde vinha. O homem, um figurante, improvisou: "Da casa da sua mãe!".

Todo mundo que estava no estúdio caiu de rir, e Murphy desembestou, sem sair do personagem, disparando insultos e dizendo ao sujeito que ele era o tipo de cara que "peidaria na banheira e depois se viraria para morder as bolhas".

Em uma entrevista no Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde o filme estreou com ótimas críticas este mês, Murphy, 58, descreveu a cena, interpretando todos os personagens; ele parecia estar se divertindo muito. "Foi algo que ouvi Rudy usar", disse Murphy sobre o insulto, "mas ainda assim pareceu um momento real com um espectador enxerido."

Ao lado dele, o diretor do filme, Craig Brewer, acrescentou que, depois do fim da cena e depois de o astro sair do estúdio para uma troca de roupa, ele olhou para o elenco e disse: "Vocês sabem o que acabamos de ver?". Brewer fez uma pausa, e afirmou, mais como um fã do que como um colaborador: "Não dava para acreditar. E tínhamos acabado de ver".

O que eles viram era algo que estava ausente da cultura popular há mais de três décadas: Eddie Murphy, uma das pessoas mais engraçadas a fazer humor diante de um microfone, em uma apresentação de stand-up. Ao longo dos anos, Murphy provocou os fãs falando sobre uma possível volta, mas desta vez, inspirado por "Meu Nome é Dolemite", ele parece estar falando sério. Assinou um contrato com a Netflix para lançar um novo especial no ano que vem e tem uma turnê com apresentações em teatros engatilhada, o que significa que em breve poderá ser visto em clubes de comédia preparando sua apresentação.

"Eu não queria voltar sem preâmbulo", ele disse. "Queria um filme engraçado para lembrar às pessoas de que elas costumavam gostar de mim. E o filme provou ser tão forte que compreendi que serviria como uma ótima maneira de voltar."

O retorno dele ao stand-up será parte de uma retomada mais ampla da década que fez de Murphy um astro. Em dezembro, dois meses depois da estreia de "Meu Nome é Dolemite", ele apresentará "Saturday Night Live" pela primeira vez desde 1984 (antes disso, fez parte do elenco do programa por quatro anos). E Murphy está trabalhando em uma continuação, também dirigida por Brewer, de seu sucesso "Um Príncipe em Nova York" (1988), passada 30 anos depois do original, com os mesmos personagens. "Eu estou encarando esse período como uma fase com começo e fim", disse Murphy. "Nunca mais fiz o 'Saturday Night Live'. Hora de consertar isso. Hora de voltar ao stand-up. Assim, quando chegar a hora de eu sentar de vez no sofá, tudo estará em ordem".

É difícil exagerar quanto ao impacto que Murphy teve na década de 1980. Em dois especiais, "Eddie Murphy - Delirious" e "Eddie Murphy - Sem Censura", usando roupas de couro que terminaram famosas, ele se tornou o comediante stand-up mais influente de sua geração. Além de ser candidato à posição de membro mais influente do elenco na história de "Saturday Night Live" e de ter injetado alguma consciência racial em um programa que sentia falta disso, sua presença dinâmica evitou que o programa fosse cancelado, depois da saída de seus astros originais.

E enquanto isso ele foi se transformando em um dos maiores astros de cinema do planeta, graças a uma série de comédias de imenso sucesso ("48 Horas", "Trocando as Bolas", "Um Tira da Pesada"), carregadas por seu carisma incomum. Se Murphy fosse substituído por qualquer outro ator em "Um Tira da Pesada", a terceira comédia de maior faturamento em todos os tempos, o filme provavelmente seria um fracasso.

Mas mesmo esses créditos não bastam para retratar o seu singular sucesso. É difícil para um comediante ser engraçado e sexy, ou engraçado e inocente e doce, mas quase impossível ser todas essas coisas ao mesmo tempo. Ninguém teve o sucesso que Murphy teve na década de 1980. Quando vi "Eddie Murphy - Sem Censura", nos anos 1980 em Washington, em minha adolescência, a plateia ria tão alto que as pessoas que administravam o cinema pararam o filme para pedir que fizéssemos menos barulho.

É um legado difícil de manter, especialmente quando você se sente um pouco distanciado daquele astro risonho e cheio de panca que criou uma espécie de ícone do espertalhão "cool". Porque quando Murphy está procurando alguma coisa na TV e passa por "Eddie Murphy - Sem Censura", ele não gosta do que vê.

As brincadeiras agressivas sobre mulheres e relacionamentos o fazem recordar da separação que estava enfrentando na época. "Eu era jovem e estava tentando lidar com meu coração partido, e por isso, você sabe, me comportava de um jeito bem escroto", ele disse.

Usando uma jaqueta de veludo fechada por zíper, Murphy se recostou e abandonou sua fala ponderada para imitar a ele mesmo assistindo a "Eddie Murphy - Sem Censura" como se fosse um velho pudico. "Isso passa dos limites, meu Deus", ele disse, rindo, e depois mudando de registro e abaixando a voz em uma oitava para registrar uma ponta de reprovação moral: "palavra de honra!".

Ele volta rapidamente à voz ponderada de Eddie Murphy, astro inabalável, reconhecendo que aquilo que para ele é o retrato de um tempo e lugar, para as demais pessoas é algo de totalmente diferente. "É permanente", ele disse baixinho, como se estivesse dando de ombros verbalmente.

Murphy descreve o que ele é hoje como uma pessoa completamente diferente daquilo que ele foi, mas passar uma hora em sua companhia indica que nem tanto. Ele continua a ser deslumbrantemente rápido no humor, e é um imitador engenhoso e hilariante, capaz de colocar um grande elenco em ação em questão de segundos. Com a fala mansa e seu jeito tranquilo, ele pode parecer distanciado, mas basta que comece a fazer um personagem, o que é bem frequente, e sua velocidade e volume crescem; ele se coloca inteiro no papel, vive plenamente o momento.

Como fica claro no seu desempenho em "Meu Nome é Dolemite", um dos melhores de sua carreira, Murphy continua a ter todo o carisma de um astro. Mas há uma nova ternura e uma vulnerabilidade madura nesse papel, que também ficam visíveis em sua pessoa. Perguntado sobre as mudanças em seu senso de humor, ele reconheceu que 'sou mais sentimental do que costumava ser".

O novo filme oferece algumas provas. Murphy —que propôs a ideia, e o título, de “I’m Gonna Git You Sucka"(algo como "vou te pegar, otário"), paródia dos filmes de "blaxploitation" dirigida por Keenan Ivory Wayans em 1988— adota uma atitude muito mais calorosa e reverente com relação a Rudy Ray Moore, um astro da era do "blaxploitation". "Ed Wood" (1994), o carinhoso retrato de um cineasta de filmes B dirigido por Tim Burton, foi uma de suas inspirações. (Ele recorreu aos roteiristas daquele filme, Scott Alexander e Larry Karaszewski.)

Murphy viu pela primeira vez "Dolemite", o sucesso cult de Moore em 1975, quando era adolescente, por sugestão de seu irmão mais velho Charlie (que morreu em 2017 e a quem o novo filme é dedicado). Eddie Murphy ficou impressionado pela audácia do trabalho, mesmo que reconhecesse suas falhas artísticas. O gosto de Murphy sempre favoreceu o cinema comercial, e seus heróis eram Richard Pryor, Elvis e Bruce Lee. Quando menino, ele ficou magoado por ter sido proibido de assistir a "Amor, Sublime Amor" com sua família na TV, como castigo por mau comportamento, ele recorda —e se imita chorando enquanto ouve "I Feel Pretty" do outro lado da parede.

Mas Murphy disse que sempre teve um fraco pelos astros do "blaxploitation" porque era raro ver atores negros na tela. "Flip Wilson foi a primeira pessoa negra que vimos na TV comercial, e em seguida Hollywood começou a fazer filmes conosco", ele disse. "Mas não investiam muito dinheiro nesses filmes, e por isso não são trabalhos de alta qualidade. Mas nós, as pessoas negras, ficávamos empolgados por nos vermos. Jamais sentimos que esses filmes fossem uma forma de exploração."

Enquanto Murphy se tornou astro ainda na adolescência, Moore, em forte contraste, era um humorista gordinho e sem muito sucesso que precisou trabalhar fora do cinema convencional para se dar bem, e isso só aconteceu em sua meia-idade.

Dolemite era o alter ego de Moore, um sujeito que fazia rimas e às vezes é descrito como o avô do rap; suas especialidades eram o kung-fu e insultos estranhíssimos ("você é inseguro, desocupado e come sopa de rato", principiava um desses insultos.)

Os filmes dele vinham repletos de erros risíveis (microfones apareciam na tela o tempo todo), e quando ele derrubava um bandido com um chute, sua perna mal se erguia do chão. Isso fez de "Dolemite" um excelente filme para as madrugadas. Universitários chapados de múltiplas gerações sempre o adoraram.

Murphy vê Moore como alguém que satirizava os heróis de "blaxploitation" de filmes como "Superfly" e "Shaft", e não como alguém que os imitava. "Eu conversei muitas vezes sobre isso com humoristas", ele disse. "Eles comentavam que Moore era muito ruim, e nem percebia o quanto era ruim, e eu respondia que pelo contrário, ele sabia que aquilo era engraçado".

Quando Murphy decidiu voltar ao stand-up, ele também decidiu apresentar "Saturday Night Live". Ele passou décadas afastado do programa, irritado com algumas piadas feitas à sua custa, entre as quais uma de David Spade, ainda que isso já não pareça incomodá-lo. Ele compareceu ao especial de 40º aniversário, mas não se apresentou. Desta vez, as coisas serão diferentes. "Eu vou fazer Buckwheat", ele disse, também mencionando Gumby e Mr. Robinson, sua paródia de Mr. Rogers, seus personagens mais conhecidos daquela era.

O programa recentemente causou controvérsia ao contratar e em seguida demitir um integrante, Shane Gillis, porque surgiram gravações dele fazendo declarações racistas em um podcast. Murphy, que nunca teve computador e se descreve como "o mais próximo que se pode chegar da tecnofobia", disse que as crítica mais acirradas ao seu humor não o incomodavam. Ele foi criticado por piadas em seus especiais nas quais falava de seu medo de contrair Aids caso beijasse homens gays, e por usar expressões homofóbicas. No passado, ele mencionou essas reações adversas como motivo para ter deixado de fazer shows de stand-up.

Ele também disse que fazer humor stand-up deixou de ser divertido. Mas agora ele lamenta ter parado e diz que, quando voltar, não pretende parar mais.

"Passei por tudo aquilo, e por isso não me assusto", ele disse sobre controvérsias quanto a suas piadas. Disse que foi alvo de piquetes e que havia se desculpado por suas referências à Aids, que agora define como "ignorantes", antes de acrescentar, sobre as ansiedades dos comediantes atuais, que "todas essas coisas sobre as quais eles estão falando... olha, bem-vindos ao clube".

Murphy disse que jamais deixou de preparar material, e que há três anos vem gravando ideias para seus monólogos. Ele disse que deve ter cerca de 15 a 20 minutos de material preparado, e acha que precisará de cerca de oito meses para chegar aos 90 minutos. Os espectadores podem antecipar que ele falará sobre a vida como pai: afinal, Murphy tem 10 filhos.

"Tenho toda uma vida de experiências a aproveitar, agora. Houve época em que eu era o centro de tudo, aquilo que eu fazia era o centro de tudo, e eu era engraçado e popular", ele disse. "Agora não estou mais no centro. Agora meus filhos estão, e tudo gira em torno deles".

Uma coisa de que você pode estar certo sobre o stand-up de Murphy: ele não pretende voltar a usar couro. "Não, cara, não dá para usar uma roupa de couro aos 58 anos", ele disse.

Brewer se apressa a acrescentar que couro faz suar, mas Murphy diz que é uma exceção a isso. "Se você assistir a 'Sem Censura' ou 'Delirious', vai perceber que não suo", ele diz, com a voz de um revisor meticuloso.

Eddie Murphy continua a ter a ginga e a confiança que são um tema importante de "Meu Nome é Dolemite".

"É o maior talento dele, e é difícil reproduzir", disse Murphy sobre a fé de Moore em si mesmo.

Perguntado se ele de vez em quando perde um pouco a confiança, ao pensar em voltar aos palcos, Murphy busca contato ocular direto, dizendo que continua tão confiante quanto no passado.

"Continuo a ser Eddie", ele diz. "A maneira pela qual vejo as coisas e pinto quadros com as minhas palavras... ainda sou o mesmo cara. Vou ser o que sempre fui. E um pouco mais."
 
 

Tradução de Paulo Migliacci

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