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Cinema

Filme busca equilíbrio ao reconstituir investigação sobre torturas praticadas pela CIA

'O Relatório' conta história de Daniel Jones, que passou quase seis anos examinando milhões de páginas de documentos internos

Ricardo Balthazar

O RELATÓRIO

  • Quando Estreia na quinta (7)
  • Elenco Adam Driver, Annette Bening, Jon Hamm
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Scott Z. Burns

No início de "O Relatório", quando a senadora Dianne Feinstein manda um assessor investigar a prática de tortura na guerra dos Estados Unidos contra o terror após os ataques de 11 de setembro de 2001, ela avisa que seu trabalho é buscar os fatos e sugere que ele deixe os sentimentos pessoais em casa.

O diretor e roteirista Scott Z. Burns seguiu à risca os dois conselhos ao contar a história do assessor encarregado da missão, Daniel Jones, que passou quase seis anos examinando milhões de páginas de documentos internos da CIA, a agência central de espionagem americana, à procura da verdade. 

Praticamente nada é dito no filme sobre a vida pessoal do protagonista, exceto por uma breve menção ao rompimento com uma namorada no início da investigação. O relacionamento poderia impedi-lo de se dedicar integralmente ao trabalho, é tudo o que ele diz ao se reunir com um advogado.

Baseado em fatos reais, o filme segue passo a passo a investigação conduzida por Jones e não esconde o seu lado. Ainda assim, oferece um relato equilibrado ao contrapor o tempo inteiro os fatos descobertos pela equipe de Jones e os argumentos usados pelos funcionários envolvidos com a tortura. 

As cenas que recriam os brutais interrogatórios conduzidos pela CIA descrevem as técnicas empregadas com didatismo, expondo não só sua desumanidade como sua ineficácia para alcançar os objetivos proclamados por seus defensores, que esperavam impedir novos atentados terroristas.

A exposição minuciosa das descobertas de Jones pode ser exaustiva em alguns momentos, mas o acúmulo de informações cumpre bem a função de tornar convincentes as conclusões do relatório, que apontou o envolvimento dos EUA com a tortura de pelo menos 39 pessoas na guerra ao terror. 

O filme é feito de contrastes, como o estabelecido pelo vaivém constante entre os diferentes ambientes em que a trama se desenvolve —das masmorras da CIA aos corredores de Washington e à sala asséptica reservada pela agência para a equipe de investigadores.

Adam Driver desempenha o papel principal com precisão. Ele revela aos poucos a tensão entre o desejo de Jones de fazer direito o seu trabalho e a crescente indignação provocada pelos documentos —e pelos esforços do governo americano para desacreditá-lo e deter a publicação do relatório.

Annette Bening, como a senadora Feinstein, ilumina a complexidade do problema que ele enfrenta. Não há dúvida sobre seu apoio à investigação. Mas cabe a ela explicar os limites impostos pela política e a necessidade de buscar compromissos para preservar o trabalho do assessor.

Como em alguns dos melhores thrillers políticos produzidos pelo cinema americano nos anos 70, "O Relatório" mostra que muitas vezes o mais difícil não é desvendar um segredo, mas fazer com que a verdade venha à tona e sua revelação tenha consequências. 

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