Febre em torno da liberdade de Lula embala novo álbum de Francis Hime

Compositor fã do petista fala em ameaça de uma nova ditadura, mas se diz esperançoso em relação ao futuro

Rio de Janeiro

Aos 80 anos, completados em agosto, Francis Hime lança o álbum “Hoje”. A segunda faixa se chama “Sofrência”, palavra popularizada pelo sertanejo contemporâneo.

Parece, então, que o cantor e compositor está voltado para os tempos atuais. Não é bem assim.

Ele gravou o samba “Sofrência” sem saber que o termo está na moda e o porquê. Só depois Thiago Amud, autor da letra, lhe contou.

“Ouço música da minha geração. E jazz. Música clássica é o que eu mais escuto. Música menos sofisticada, digamos assim, não ouço tanto. Tem tanta coisa para ouvir. Mas achei interessante essa história da sofrência”, conta.

A afirmação soa esnobe, mas Francis, conhecido pela bonomia, não combina com esnobismo.

Ele é autor de concertos e sinfonias, mas é, antes de tudo, um compositor popular, coautor de sucessos como “Atrás da Porta” e “Trocando em Miúdos”, ambos com versos de Chico Buarque.

Trinta e cinco anos após da última parceria deles, “Vai Passar”, Chico aparece em “Hoje” cantando “Laura”, letra de Olivia Hime. O casal criou a música para a sua quarta neta.

Laura é filha de Luiza, cujo padrinho é Chico. Em 1976, os dois gravaram “Luisa” juntos, adotando a grafia dada por Chico e Marieta Severo à terceira filha.

“Se estivéssemos compondo juntos, já teria surgido antes a oportunidade de nos reencontrarmos em estúdio. Nossa parceria cobriu aquele período”, diz Francis, sobre os anos 1970 e início dos 1980.

Segundo ele, os dois costumam trocar emails, especialmente sobre política. Ambos são fãs de Luiz Inácio Lula da Silva.

Nos 74 anos do ex-presidente, Francis deu de presente uma nova versão do refrão de “Meu Caro Amigo”, outra que fez com Chico.

“Mas o que eu quero é lhe dizer/ que a gente tá te esperando/ Para o Brasil voltar de novo a ser feliz/ A luta continua, a gente quer democracia/ A gente quer de volta o maior dos presidentes/ A gente quer só Lula livre”, canta ele.

Na sexta (8), Francis fez vários posts no Facebook celebrando a soltura de Lula. “Às vezes me xingam um pouquinho. Mas faz parte. Quem está na chuva é para se molhar.”

O tempo é assunto que perpassa as 12 faixas do CD, o primeiro de inéditas em cinco anos. O ponto de partida no projeto foi “O Tempo e a Vida”, parceria com o português Tiago Torres da Silva que ganhou interpretação de Lenine.

O musico Francis Hime, 80, em sua casa no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro
O musico Francis Hime, 80, em sua casa no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro - Raquel Cunha/Folhapress

A melodia surgiu enquanto Francis dormia, o que nunca lhe acontecera. Balbuciou no celular os sons e no dia seguinte os consolidou.

Animado, enviou melodias para parceiros ou musicou letras deles que tinha guardado. Daí saíram “Desdenhosa” (com Hermínio Bello de Carvalho), “Mais Sagrado” (Ana Terra), “Soneto de Ausência” (Paulo Cesar Pinheiro), “Samba Funk” (Geraldo Carneiro) e três com Olivia.

“Quando estou compondo, fico muito alegre. A palavra é essa: alegria”, frisa ele, que vai começar um concerto para dois cellos (Hugo Pilger e Jaques Morelenbaum) e orquestra.

“Hoje” terá lançamento nesta quarta (13) na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, dentro do 57º Festival Villa-Lobos, que tem Francis como um dos homenageados em 2019.

O show chega a São Paulo em dezembro, no Sesc Pinheiros, com convidados: Lenine, Zélia Duncan e Zé Renato (dia 6); Dori Caymmi, Mônica Salmaso e Leila Pinheiro (7); Toquinho, Olivia Hime e Sérgio Santos (8).

Ao final, todos cantarão “Vai Passar”, samba composto em 1984 para celebrar o fim da ditadura.

“Agora tem ameaça de volta de ditadura. E já temos a censura de volta. Mas estou esperançoso. Essa fase difícil vai passar”, diz, bem ao seu estilo. “Eu me sinto como se estivesse com 60 anos. Menos do que isso, também não.”

Hoje

  • Preço R$ 36,15 e nas plataformas digitais
  • Autor Francis Hime
  • Gravadora Biscoito Fino
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.