Presidente da Biblioteca Nacional põe cargo à disposição após trocas na Secretaria de Cultura

Em carta, Helena Severo diz que ficou sabendo de sua substituição pela imprensa

Bruno Molinero
São Paulo

A presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo, colocou nesta sexta-feira (29) o seu cargo à disposição. Ela comunicou o secretário da Cultura, Roberto Alvim, por uma carta.

A decisão ocorre após uma série de mudanças na Secretaria Especial de Cultura nas últimas semanas. Há a expectativa em Brasília de que ela seja substituída por Rafael Nogueira na presidência da instituição.

"Foi para mim motivo de perplexidade ter tomado conhecimento de minha substituição através da imprensa, sem qualquer comunicação dos órgãos competentes, como manda o protocolo", escreveu Severo na carta.

"Esclareço que entendo perfeitamente que todos os governos têm direito de formar suas equipes de acordo com suas orientações políticas e programáticas. Entretanto, não posso concordar com a forma desrespeitosa com que esse processo de mudança vem sendo conduzido. Fato que fica claro no trato dispensado a mim, à minha equipe e, principalmente, a esta instituição bicentenária da relevância da Biblioteca Nacional", diz em outro trecho. 

Helena Severo, que colocou o cargo de presidente da Biblioteca Nacional à disposição
Helena Severo, que colocou o cargo de presidente da Biblioteca Nacional à disposição - Raquel Cunha/Folhapress

Tanto a Biblioteca Nacional quanto Helena Severo, que está na presidência da instituição desde 2016, disseram que ainda não foram comunicadas oficialmente sobre qualquer mudança. O Diário Oficial tampouco trouxe a nomeação de Nogueira até o momento.

Severo afirma que o que motivou a sua decisão foi o mal-estar gerado pelo governo. "Essa é uma instituição bicentenária com mais de 400 servidores. Qualquer governo tem o direito de trocar cargos de confiança a qualquer momento. Mas não concordo com a forma como isso tem se dado", disse ela à Folha.

Além da presidente do órgão, a historiadora Maria Eduarda Marques, diretora-executiva da Biblioteca Nacional, também colocou seu cargo à disposição.

Embora a indefinição ronde a biblioteca, Severo afirma que nenhuma atividade foi cancelada até o momento. Ela cita dois eventos que ocorrerão na próxima semana: na terça-feira (3), ocorrerá o lançamento da Brasiliana de literatura infantil e juvenil; na quinta (5), está marcada a cerimônia de entrega do prêmio literário da instituição.

A servidora acredita que até segunda-feira haverá uma definição do novo presidente da Biblioteca Nacional e que ela já não dará expediente no posto. "De repente o secretário vem ao Rio para tocar as atividades previstas para a semana", afirmou.

Desconhecido no meio literário e cotado para o lugar de Helena Severo, Rafael Nogueira é um nome próximo ao movimento conservador brasileiro e simpático ao grupo monarquista. Seguidor de Olavo de Carvalho, ele se autoproclama "aspirante a filósofo" em suas redes sociais. 

Em sua conta no Twitter, na qual conta com mais de 40 mil seguidores, ele declara apoio incondicional a Jair Bolsonaro, compartilha críticas ao MBL (Movimento Brasil Livre) e se mostrou contrário à decisão do Supremo Tribunal Federal que impediu prisões após julgamento em segunda instância. 

Na época em que Glenn Greenwald foi agredido ao vivo pelo jornalista Augusto Nunes, Nogueira defendeu Nunes nas redes sociais e compartilhou hashtags como #AugustoNunesHeroi. 

A atual presidente da instituição ​diz preferir não fazer previsões sobre os impactos da nomeação de Nogueira. "Ninguém tem bola de cristal."

Outras trocas

Além da Biblioteca Nacional, o comando do Iphan e da Funarte deve ser trocado até segunda-feira (2), seguindo uma reforma no quadro da Secretaria Especial da Cultura e órgãos subordinados à subpasta do Ministério do Turismo, hoje sob comando do dramaturgo e diretor Roberto Alvim.

No Iphan, o nome mais cotado para substituir Kátia Bogéa é o empresário Olav Schrader, formado em relações internacionais e ligado à Associação de Moradores de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Há menções a seu nome em eventos pró-monarquia no país.

Cotado para assumir a Funarte, Dante Mantovani é maestro e doutor em estudos da linguagem pela Universidade Estadual de Londrina. Em seu site oficial, ele afirma ter participado de grupos como o Coro Sacro da Paróquia Nossa Senhora da Paz, além de corais religiosos da Igreja Católica.

Bolsonaro tem ainda uma nova secretária do Audiovisual: Katiane de Fátima Gouvêa, membro da Cúpula Conservadora das Américas. 

Chegam ainda ao governo um novo secretário-adjunto e secretários responsáveis pela promoção de diversidade cultural, de fomento e incentivo à cultura (à frente da Lei Rouanet), de economia criativa e da Fundação Palmares —este último, Sérgio Nascimento de Camargo, se define como “negro de direita, é contrário ao vitimismo e ao politicamente correto” e já afirmou que o Dia da Consciência Negra é “uma vergonha e precisa ser combatido” e que cotas raciais “são mais do que um absurdo”.

OS RECÉM-NOMEADOS

Katiane Gouvêa
Membro da Cúpula Conservadora das Américas, assumiu a Secretaria do Audiovisual. Seu nome é associado a documento que fez Bolsonaro cogitar extinguir a Ancine. Em reunião, defendeu a ‘valorização do belo e da arte clássica’

Reynaldo Campanatti Pereira
O novo secretário da Economia Criativa é doutor em história econômica pela USP e professor de ensino superior. Paulista, foi candidato a deputado federal pelo Patriota, mas não foi eleito

José Paulo Soares Martins
Após liderar a secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, assume como secretário especial adjunto da Cultura. Entrou para o governo na gestão Temer. É ex-diretor do Instituto Gerdau e da Fundação Iberê Camargo

Sérgio Nascimento de Camargo
‘Negro de direita, contrário ao vitimismo e ao politicamente correto’, como ele se define em seu perfil nas redes sociais, é o novo presidente da Fundação Palmares, responsável por promover a cultura de matriz africana

Camilo Calandreli
À frente da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, se define como cristão, conservador e
seguidor de Olavo de Carvalho. É formado em música pela USP e já disse que a Lei Rouanet era usada pelo ‘marxismo cultural’

OS QUE JÁ FORAM EMPOSSADOS

Roberto Alvim
Nomeado como secretário da Cultura, subpasta que substituiu o ministério extinto, o diretor teatral chegou a chamar a atriz Fernanda Montenegro de ‘sórdida’ e convocou, nas redes sociais, ‘profissionais conservadores’ para ‘criar uma máquina de guerra cultural’

Edilásio Barra
Conhecido como Tutuca, o apresentador, pastor e colunista social chegou a ser cogitado para assumir a Secretaria do Audiovisual, mas assumiu a Superintendência de Desenvolvimento Econômico da Ancine, com a tarefa de gerir os recursos do Fundo Setorial do Audiovisual

Letícia Dornelles
A roteirista e atriz assumiu a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, responsável por manter acervo de intelectuais e escritores de destaque no país, e foi criticada por não ter perfil acadêmico nem ter sido indicada pelos funcionários do órgão

Erramos: o texto foi alterado

Dante Mantovani é doutor em estudos da linguagem pela Universidade Estadual de Londrina, e não em música. O texto foi corrigido.

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