Japonesa enreda 4.000 folhas de papel em teia suspensa no CCBB

Apelidada de 'mulher-aranha', Chiharu Shiota apresenta retrospectiva no centro cultural e instalação na Japan House

São Paulo

Há quatro anos, a japonesa Chiharu Shiota convocou os paulistanos a escreverem cartas de agradecimento.

As respostas vieram a bordo de diversas mídias —papel, email, redes sociais, ao vivo. E somaram exatas 3.713 mensagens, enredadas em mais de 350 quilômetros de lã negra numa sala do Sesc Pinheiros.

Desta vez, ambos os papéis e a lã são brancos, numa teia de aranha que, com 13 metros de altura, escala quatro andares do Centro Cultural Banco do Brasil. “Não se pode escrever tudo”, diz a artista. “Ao deixar os papéis em branco, as ideias flutuam no ar.”

A instalação, que abre ao público agora, foi construída ao longo de 11 dias. Nove pessoas teciam a trama durante a montagem, seus braços se movimentando numa coreografia ágil.

Quando uma camada era concluída, um sistema de roldanas a erguia através dos andares, e mais pessoas prendiam a urdidura aos corrimãos que circulam a rotunda do prédio.

A quantidade de indivíduos envolvidos na produção da obra não é incomum na prática de Shiota, conhecida pelas instalações monumentais.

Ela conta que os brasileiros a fazem se sentir em casa. “Moro na Alemanha há 20 anos e sou fluente em alemão, mas lá só se dirigem a mim em inglês. O Brasil é o único país  além do Japão em que os outros falam comigo na  sua língua materna.”

Apelidada de “mulher-aranha” pelo jornal britânico The Guardian, ela estourou na 56ª Bienal de Veneza com um trabalho em que 180 mil chaves pendiam de uma nuvem vermelha sobre dois barcos —mesmo que a peça não esteja aqui agora, um registro dela abre um dos cinco núcleos desta retrospectiva no CCBB, chamada de “Linhas da Vida”. 

Então, muito se falou de como as embarcações faziam referência à crise migratória. Naquele ano de 2015, o número de refugiados buscando asilo no continente europeu foi de quase 1,3 milhão, um recorde segundo o Pew Research Center.

Mas Tereza de Arruda, que organiza a mostra e trabalha com ela há uma década, afirma que política não orienta o trabalho de Shiota.

“Se um artista usa barcos, vão dizer que aborda questões migratórias. Se usa vestidos, será chamada de feminista. Mas ela cria pelo impulso. Não quer ser partidária, e sim autobiográfica”, afirma Arruda.

Os barcos voltam numa obra inédita, que ocupa o antigo cofre do CCBB. Desta vez, no entanto, eles mesmos se transfiguram em teias, tiras largas de feltro negro amarradas em estruturas metálicas que flutuam no breu.

A japonesa despe as esculturas de qualquer especificidade para criar símbolos, como já fez com camas, malas, cadeiras, vestidos, sapatos. Muitos deles foram encontrados na rua ou doados por estranhos para as instalações.

Shiota diz que essa coleta é uma maneira de se conectar com as pessoas. “Os objetos guardam memórias. Posso não conhecer quem esteve em contato com eles, mas sinto que conheço esses indivíduos ao tocar seus pertences.”

Também as linhas evocam esse desejo de conexão, sejam elas de algodão, como nas instalações ou nos desenhos em que liga vultos negros uns aos outros, sejam rabiscadas sobre papel com lápis ou giz de cera, formando redemoinhos e padrões que lembram células.

“Se você vive nesse planeta, está ligado a algo, a alguém. Mas essas conexões costumam ser invisíveis. Eu as torno visíveis”, diz Shiota, que ainda apresenta uma instalação em que interliga três vestidos vermelhos na Japan House. 

Questionada sobre quando começou a empregar os fios nas suas criações, Shiota conta que, quando estudante, pintava com tinta a óleo, mas sentia que alguém já tinha feito aquilo antes. “Queria usar meus próprios materiais. Quando teço os trabalhos, é isso que acontece.”

Mas ela diz que nunca largou a pintura. “Meus olhos ainda pintam, só que no espaço.”

Outro elemento constante no trabalho da japonesa é a memória. Enquanto os objetos coletados são uma maneira de acessar o inconsciente alheio, suas teias de lã parecem congelar as coisas no tempo.

A ironia é que, no caso dessas instalações monumentais, a memória também é sua forma de sobrevivência. Ao término das duas mostras, em fevereiro do ano que vem, afirma Arruda, os 800 novelos de lã e 4.000 folhas de papel que formam a instalação monumental serão jogados fora.

 

Linhas da Vida

  • Quando Quarta à segunda, 9h às 21h. Abertura quarta (13). Até 27/1
  • Onde CCBB, r. Álvares Penteado, 112.
  • Preço Grátis

Linha Interna

  • Quando Terça à sábado, de 10h às 20h. Domingos e feriados, de 10h às 18h. Até 2/2. Abertura quarta (13)
  • Onde Japan House, av. Paulista, 52
  • Preço Grátis
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