Descrição de chapéu Artes Cênicas

Miguel Falabella quer popularizar Municipal com opereta traduzida

Cantada em português, 'A Viúva Alegre' busca tirar imagem elitista de teatro de SP

São Paulo

Não é bem a estreia de Miguel Falabella em óperas. O popular ator, autor e diretor de musicais e televisão esteve em várias delas, no início da carreira.

Jovem aluno de Sérgio Britto, então diretor do Municipal do Rio, foi levado por ele para fazer figuração em “Turandot”, entre outras. “Eu vi [a soprano búlgara] Ghena Dimitrova cantando aqui, assim [a meio metro], eu fazendo o guarda do palácio chinês”, lembra, rindo. Hoje é do fã-clube da sul-coreana Sumi Jo, que correu para ver em Paris.

Ele aprecia ópera —gosto que diz ter herdado do “avô Falabella” e seus discos— e não necessariamente opereta, gênero mais leve, uma das fontes do musical.

Mas ao ser convidado pelo diretor do Municipal de São Paulo, o também comediante Hugo Possolo, para ajudar a romper a imagem considerada ainda elitista do teatro, Falabella sugeriu dirigir a opereta “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár.

“Como era uma coisa de popularizar, de fazer as pessoas perderem o medo do Municipal, ‘ah, não tenho roupa para ir’, eu falei da ‘Viúva’, que tem uma das músicas mais lindas e ao mesmo tempo mantém a sua origem, da comédia de bulevar”, explica.

Não estava previsto, mas além da direção cênica Falabella acabou cuidando também da tradução, inclusive das letras, como parte do esforço de aproximar a obra do público. Possolo argumenta que “em português tem um humor mais vivo, para além da ópera montada com legendas, que nem sempre permitem que a comédia pulse tanto”.

Também parte desse esforço, a temporada terá duas récitas, nos próximos dias 17 e 24, com preço único de R$ 20 para todos os setores —e venda exclusiva na bilheteria, no dia da apresentação.

O regente e diretor musical é o italiano Alessandro Sangiorgi, há três décadas trabalhando com ópera em Roma, Belgrado, Tóquio e, mais recentemente, Curitiba. Sobre “Viúva”, diz que, “pela riquíssima invenção, a beleza das melodias, a própria orquestração, ela acabou fazendo parte dos repertórios dos grandes teatros do mundo inteiro”.

Depois de meses de trabalho em conjunto, diz que “o Miguel é realmente o elo que faltava” para juntar a ópera ao teatro. “A parte do teatro faz muita falta [à ópera], não só no Brasil, mas no mundo inteiro.”

Falabella diz que o maior apelo popular da opereta está em sua própria trama. Ao longo de três festas em Paris, em 1905, o embaixador de Pontevedro e outros tentam evitar que uma jovem e bela viúva, Hannah, se case com alguém que não seja também do pequeno reino, que depende do dinheiro que ela herdou.

“Na verdade, é o Baile da Ilha Fiscal na Europa”, diz Falabella, lembrando o exuberante último baile do Império, no Brasil. “A Europa que eles conhecem vai terminar dali a pouco”, na Primeira Guerra Mundial.

Pensando em “como fazer uma ‘Viúva’ que já não tenha sido feita”, ou seja, menos realista e sem recorrer às imagens costumeiras da belle époque, ele chegou à exposição fauvista de 1905. Daí o cenário de 50 mil flores, com paleta de cores que é uma explosão, na descrição do diretor. Isso visa a retratar a tensão por trás da comédia.

“É violenta, capitalista. Quem manda é a viúva, quem tem o dinheiro é ela. ‘Quanto pesava aquele teu velho e falecido marido?’ Ela diz, ‘20 bilhões’. Imagina isso em 1905”, diz sobre o ano em que a opereta estreou, em Viena.

Falabella sublinha que causou escândalo, “pelo que consideravam lassidão moral, porque todo mundo trepa com todo mundo”. Em sua tradução, ele usou para a 
personagem Valenciana um verso que tirou do noticiário recente no Brasil: “Sou bela, recatada e do lar”.

Mas ele não vê elo direto com realidades políticas em “Viúva”, dizendo ainda que “não se sustentava”, por exemplo, a tentativa recente do diretor franco-argentino Jérôme Savary de tornar Pontevedro um estado totalitário.

“Ela é literalmente o Baile da Ilha Fiscal. Aquela gente louca, valsando, aquele mundo se preparando para acabar. Atrás, tudo está um caos.”

A Viúva Alegre

  • Quando Ter. a sáb., às 20h. Dom. (sessões populares), às 18h. Estreia nesta quinta (14). Até 24/11
  • Onde Theatro Municipal de São Paulo, pça. Ramos de Azevedo, s/ nº, República
  • Preço R$ 20 a R$ 120

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