Descrição de chapéu

Mostra de Gostoso confirma sua relevância entre festivais de cinema

Resta saber se evento na pacata cidade de São Miguel do Gostoso (RN) vencerá desafio de lidar com crescimento

São Miguel do Gostoso (RN)

A notícia não poderia ter chegado em melhor hora. Na semana em que se iniciou a 6ª Mostra de Cinema de Gostoso, na pacata cidade de São Miguel do Gostoso (RN), o curta "O Grande Amor de um Lobo", produzido pelo coletivo Nós do Audiovisual, ganhou o prêmio de "Reconhecimento Especial' no Los Angeles Brazilian Film Festival.

O coletivo é fruto das oficinas de cinema realizadas com os habitantes locais. E o prêmio joga ainda mais luz nesse simpático festival que envolve toda a comunidade gostosense e cresce ano a ano, resultado de uma política de investimentos amplificada pela atual governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT). 

A exemplo do que ocorreu no ano passado, a Mostra Panorama deste ano, com filmes vespertinos exibidos no Centro de Cultura, foi superior à Mostra Competitiva, com exibições à noite e na praia, e o imenso público assistindo aos filmes com os pés na areia. 

Sala montada na Praia do Maceió, em São Miguel do Gostoso (RN), para a Mostra de Cinema de Gostoso
Sala montada na Praia do Maceió, em São Miguel do Gostoso (RN), para a Mostra de Cinema de Gostoso - Reprodução/Facebook

Na Panorama, os longas "Diz a Ela Que Me Viu Chorar", de Maíra Bühler, e "A Mulher da Luz Própria", de Sinai Sganzerla, mostram que o cinema brasileiro permite ainda uma boa dose de invenção. 

O primeiro mostra, com ótimas opções formais, um experimento da prefeitura de São Paulo, na gestão de Fernando Haddad, para dar condições mais dignas aos usuários de crack. "A Mulher da Luz Própria" nos apresenta alguns momentos da brilhante carreira de Helena Ignez (mãe de Sinai), uma importante atriz e diretora do cinema moderno brasileiro.

Tivemos ainda os longas "Chão", de Camila Freitas, sobre o Movimento dos Sem Terra, premiado no Olhar de Cinema de Curitiba, e "Ambiente Familiar", de Torquato Joel, sobre traumas de infância e as maneiras de superá-los.

Na Mostra Competitiva, destaque absoluto para "Pacarrete", de Allan Deberton. Neste longa, já premiado no Cine Ceará e vencedor do prêmio de público desta edição da Mostra de Gostoso, Marcélia Cartaxo, em interpretação deslumbrante como a personagem-título, é uma bailarina veterana que sonha com um espetáculo solo no aniversário de sua pequena cidade no interior do Ceará.

Dois filmes poderiam ameaçá-lo, pois têm qualidades para isso. "Casa", de Letícia Simões, é um documentário em primeira pessoa em que a personagem-diretora tenta entender sua relação conturbada com a mãe e a cumplicidade com a avó. Três mulheres de gerações diferentes estão à procura da superação dos conflitos.

"Fendas" é um filme potiguar realizado por Carlos Segundo. Não tem o apelo comercial de "Pacarrete", mas tem uma construção interessante no drama da protagonista Catarina (Roberta Rangel), uma pesquisadora de física quântica que procura dar sentido a uma nova etapa em sua vida, após uma crise terminal em seu relacionamento.

"Vermelha", longa goiano de Getúlio Ribeiro, é o patinho feio da Competitiva, mas está longe de ser desprezível. Seu problema é a falta de foco, encontrado quando a maior parte do público já estava cansada de esperar por algo compreensível.

Nas sessões especiais, dois grandes filmes brasileiros recentes deram mais brilho à edição: "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que atraiu um público recorde na história de Gostoso, e o belo horror de "A Noite Amarela", de Ramon Porto Mota, escolhido para a sessão de encerramento.

E assim, a pequena Mostra de Cinema de Gostoso se confirma como um dos eventos mais importantes do calendário de festivais brasileiros. Resta saber se vencerá o desafio de lidar com tamanho crescimento. Esperemos que sim.

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