Descrição de chapéu Leonardo da Vinci, 500

Mostra no Louvre disseca a anatomia enigmática das obras de Leonardo Da Vinci

Exposição fica quatro meses em cartaz e não há mais vagas em novembro

Mariana Delfini
Paris

Não sei dizer por que um homem chinês traria bordada no peito uma frase atribuída a Júlio César. De meias coloridas quase até o joelho, aquele homem debaixo da pirâmide de vidro me deixou aturdida.

O Louvre é uma algazarra de línguas e culturas —mais de 70% dos 10,4 milhões de visitantes do ano passado eram estrangeiros, sendo os chineses o segundo maior grupo, atrás só dos americanos.

No vaivém babélico, identifiquei naquele velhinho excêntrico um oráculo, trazendo em seu colete vermelho desbotado uma mensagem em latim sobre a minha sensação de visitar a exposição que celebra os 500 anos de morte de Leonardo Da Vinci —“Vim, vi, venci”.

A excitação que me incutia certo misticismo fora provocada pela expectativa em torno da maior retrospectiva da pintura do renascentista —são 179 peças, entre pinturas, esboços e notas de Da Vinci e obras de mestres e discípulos.

A exposição recém-aberta fica quatro meses em cartaz e quase 300 mil ingressos já foram reservados. Não há mais vagas em novembro.

E, mesmo com hora marcada, há espera na entrada.

A “Mona Lisa” eu conhecia de outras visitas. A pintura mais famosa do mundo permanece solitária em sua parede na Salle des États, sorrindo para 30 mil fotógrafos todos os dias (média do verão). No último domingo de outubro, consegui só um minuto de olhadela, depois de 20 minutos de fila. Tenho a esperança inquebrantável de vê-la com calma quando Beyoncé me convidar para um passeio particular no Louvre.

Entre o nascimento em Vinci, na Toscana, e a morte em Amboise, no vale do Loire, Leonardo percorreu Florença, Milão, Roma —trajetória contada na exposição, embora as salas se organizem mais por temas que pela cronologia.

É com os anos de formação do mestre que ela começa, deslumbrante —uma luz dramática se derrama sobre “A Incredulidade de São Tomás”, bronze de Andrea del Verrocchio, mestre de Leonardo. Ao se libertar do fascínio provocado pelas dobras das vestes, o visitante se surpreende com o efeito de relevo em telas bidimensionais obtido por um jovem Leonardo. Nunca se viu tanta gente entretida com exercícios de pintura.

Todos se demoram nos vários esboços da exposição. Era difícil atravessar o primeiro corredor sem pedir licença ou desculpas a esmo. O interesse se estendia para as diversas impressões realizadas com a técnica da reflectografia de infravermelho, que mostra o desenho de cada pintura por baixo das camadas de tinta.

A novidade é observar o processo de elaboração das telas. Além das 11 que o Louvre reuniu, restam entre 14 e 18 —a atribuição é discutível.

Formigava de gente a sala com 43 cadernos e estudos, exemplares dos diversos caminhos do conhecimento em que Da Vinci se embrenhou. Os organizadores, Vincent Delieuvin e Louis Frank, propõem que se tratem os manuscritos científicos como investigações “para traduzir a verdade nas aparências”, ou seja, a ciência a serviço da arte.

Realmente me emocionei diante do “Homem Vitruviano”, mas, para além do prazer informativo e de fetiche que oferecem os manuscritos e desenhos preparatórios, é o deleite com as pinturas que perdura. Senti falta de algumas, como a “Dama com Arminho”, mas esquadrinhei sem pressa as três que o Louvre restaurou nos dez anos de preparação da mostra —“São João Batista”, “A Virgem e o Menino com Santa Ana” e “La Belle Ferronière”.

A batalha mais difícil derruba muitos. É um encontro com uma “Mona Lisa” virtual que exige reserva logo na entrada, mas esgota rápido por atender menos de 50 pessoas por hora —a exposição recebe 7.000 por dia. É a primeira incursão do Louvre, e minha, na realidade virtual, e só posso dizer que o tête-à-tête de sete minutos foi revolucionário.

A tal Lisa del Giocondo, em versão impalpável e de movimentos bem menos sofisticados que os sugeridos por Da Vinci, renovou meu desejo de admirar seu retrato. E me lançou na vertigem de imaginar sua existência em carne e osso, tão antiga quanto a de Leonardo, e a concretude dos papéis e madeiras pintadas que vararam cinco séculos. Beyoncé, vamos marcar?

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